




O Natal de Poirot

Agatha Christie

   
HERCULE POIROT'S CHRISTMAS 
Traduo 
FERNANDA PINTO RODRIGUES 







Meu caro James: 
Foste sempre um dos meus leitores mais fiis e amavis e, por isso, senti-me seriamente pertur- bada 
quando me criticaste. 
Queixaste-te de que os meus assassnios se estavam a tomar excessivamente refinados -- anmicos, 
na verdade! -- e disseste que estavas desejoso de um bom crime violento, com uma grande sangueira. 
Um assassnio que no dei- xasse dvidas de que era um assassnio! 
Por isso escrevi esta histria especialmente para ti. Espero que te agrade. 
Tua cunhada afectuosa, 
Agatha 






   
Mas quem pensaria que o velho t
nha tanto sangue em 
si? 
Macbeth 






I PARTE 

22 de Dezembro 

Stephen levantou a gola do casaco, enquanto caminhava  apressadamente ao longo da platafoma. 
Pairava sobre a estao um nevoeiro denso e as enomes locomotivas apitavam e atiravam para o ar frio e 
agreste nuvens de vapor. Parecia tudo sujo e enfarruscado de fumo. 
Que imundo pas! Que porcaria de cidade!, pen- sou Stephen, repugnado. 
Desvanecera-se a primeira impresso entusistica que Londres lhe causara -- as suas lojas, os seus 
res- taurantes, as suas mulheres atraentes e bem vestidas... Agora lembrava-lhe uma safira rutilante num 
engaste miservel. 
Se estivesse na frica do Sul... Sentiu uma pontinha de nostalgia. Sol, cu azul, jardins de belas e 
frescas flores azuis, sebes de dentrias, bons-dias azuis a trepar pelos muros de todas as casas. 
Ao passo que all s havia lama, sujidade e multides inteminveis e incessantes, apressadas e aos 
empurres. Fomigas atarefadas, s voltas no fomigueiro. 
Quem me dera no ter vindo!, pensou, por instantes. 
Mas depois lembrou-se do seu objectivo e os seus lbios adquiriram uma expresso deteminada. Com 
os diabos, iria para a frente! Havia anos que planeava, sempre quisera fazer.. o que ia fazer. Sim, iria para a 
frente! 
  

Aquela relutncia momentnea, aquele sbito interrogar-se -- Porqu? Valer a pena? Para qu revolver o 
passado? Porque no hei-de apagar tudo do pensamento? --, tudo isso no passava de fraqueza, apenas. 
No era um rapaz que se deixasse guiar por caprichos de momento; era um homem de quarenta anos, 
seguro de si, resoluto. Iria para a frente, faria o que o trouxera a Inglaterra. 
Meteu-se no comboio e percorreu o corredor,   procura de lugar. Recusara um carregador, com um 
aceno de mo, e transportava ele prprio a sua mala de cabedal. Percorreu carruagem atrs de carruagem, 
mas o comboio estava cheio. Faltavam somente trs dias para o Natal. 
Stephen Farr olhava com desagrado as carruagens apinhadas. 
 Gente e mais gente, num afluxo incessante. E todos to.. to... -- como se dizia? -- ... todos com um 
aspecto to inspido! To iguais, to horrivelmente iguais! Os que no tinham cara de cameiro, tinham-na de 
coelho... Uns tagarelavam e agitavam-se, outros, homens pesados, de meia-idade, grunhiam. Estes pa- 
reciam-se mais com porcos. At as raparigas, esguias, de cara oval e lbios escarlates, eram de uma 
unifomidade deprimente. 
Recordou, subitamente saudoso, as estepes exten- sas, requeimadas de sol e solitrias... 
De repente, porm, susteve a respirao, ao espreitar para uma carruagem. Aquela rapariga era 
diferente. Cabelos pretos, tez leitosa, olhos que tinham em si os abismos e a escurido da noite... Os 
olhos tristes e altivos do Sul. No lhe parecia certo que tal rapariga estivesse all, sentada naquele comboio, 
entre aquelas pessoas de aspecto inspido e aborrecido. No, no lhe parecia certo que se dirigisse para o 
lgubre interior da Inglaterra... Devia estar numa varanda, com um cravo entre os lbios e uma mantilha de 
renda preta a adomar-lhe a cabea altiva. No ar devia andar poeira, calor e cheiro a sangue, o cheiro das 
arenas... Aquela rapariga devia encontrar-se num cenrio especial, maravilhoso, e no apertada no canto de 
uma carruagem de terceira classe. 
Como homem observador que se prezava de ser, no lhe passou despercebida a penria do saia e 
casaco preto, as luvas de tecido barato, os frgeis sapatos e a nota de desafio da malinha de um 
encamado berrante. Apesar disso, parecia-lhe esplendorosa, refinada, ex-tica... 
Que diabo faria ela naquele pas de nevoeiro, cons- tipaes e fomigas apressadas e laboriosas? 
Tenho de saber quem  e o que faz aqui... Tenho de saber.., pensou. 

II 


Pilar, apertada contra a janela, pensava no singular cheiro dos Ingleses. At ento, o que mais a 
impressionara,  acerca da Inglaterra, fora aquele cheiro diferente. No cheirava a alho, nem a p, e cheirava 
muito pouco a perfume. All, na carruagem, o odor era uma mistura de diversos odores: mofo, o cheiro a 
enxofre dos comboios, sabo e um outro cheiro, muito desagradvel, que lhe parecia proveniente da gola de 
pele da mulheraa sentada a seu lado. Pilar fungou delicadamente e aspirou, a contragosto, o cheiro a 
bolas de naftalina. Que perfume esquisito para uma pessoa usar! 
Soou um apito, uma voz forte gritou qualquer coisa e o comboio abandonou, devagar, a estao. Ia a 
caminho... 
O seu corao comeou a bater mais depressa. Pro- cederia bem? Seria capaz de realizar aquilo que 
se propusera fazer? Estudara tudo cuidadosamente, esta- 



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va preparada para qualquer eventualidade... Oh, sim, seria bem sucedida! Tinha de ser bem sucedida... 
A boca vemelha de Pilar arqueou-se, para cima, e tomou-se, de sbito, cruel. Cruel e sfrega, como a 
boca de um beb ou de um gatinho -- uma boca que s conhecia os prprios desejos e ainda ignorava a 
compaixo. 
Olhou  sua volta, com a curiosidade franca de uma criana. Toda aquela gente... Oh, os Ingleses eram 
to estranhos! Pareciam todos muito ricos, muito prsperos.. o seu vesturio, o seu calado... Sim, a 
Inglaterra devia ser, de facto, um pas muito rico, como sempre ouvira dizer. Mas os Ingleses no eram 
nada alegres.. no, decididamente, no tinham alegria nenhuma! 
Estava um homem simptico, de p, na coxia... Pilar  achou-o muito atraente, gostou do seu rosto 
bronzeado, do seu nariz aquilino e dos seus ombros quadrados. Mais depressa do que sucederia a 
qualquer rapariga inglesa, compreendeu que o homem a admirava.  Embora no o tivesse olhado 
directamente uma s vez que fosse, sabia muito bem quantas vezes ele a olhara, e como. 
Assinalou o facto sem grande interesse ou emoo. Na sua ptria os homens olhavam as mulheres 
com a maior naturalidade e sem o tentarem ocultar. Perguntou a si mesma se seria ingls e achou que 
no. 
Tem demasiada vivacidade,  demasiado real para ser ingls... No entanto,  louro. Talvez seja 
americano Achava-o parecido com os actores dos filmes do Oeste que vira. 
Um empregado abriu caminho ao longo da coxia, a dizer: 
--Primeiro almoo, por favor. Primeiro almoo. Ocupem os seus lugares para o primeiro almoo. 
Os outros sete ocupantes do compartimento de Pilar  tinham todos senhas para o primeiro almoo. Le- 
vantaram-se ao mesmo tempo e o compartimento ficou, de sbito, deserto e sossegado. 
Pilar apressou-se a fechar a janela, que uma mulher  0grisalha, de ar autoritrio, abrira alguns 
centmetros.  Depois recostou-se confortavelmente no seu lugar, a observar, pelo vidro, os arrabaldes do 
lado norte de Londres. No virou a cabea ao ouvir a porta fe- char-se, embora soubesse que fora o homem 
do corredor que entrara, para conversar com ela. 
Continuou a olhar, pensativamente, pela janela. 
-- Deseja a janela aberta? -- perguntou-lhe Stephen Farr. 
-- Pelo contrrio -- replicou, em tom afectado. -- Acabei de a fechar. 
Falava bem ingls, mas com ligeiro sotaque. Tem uma voz deliciosa, pensou Farr, na pausa que se 
seguiu.  uma voz que tem sol, quente como uma noite de Vero.. 
E Pilar pensou, tambm: 
Gosto da voz dele.  sonora e forte. E ele   atraente.. sim,  atraente 
--O comboio vai muito cheio -- observou Farr. 
-- verdade. Creio que as pessoas saem de Londres  por ser tudo to preto. 
Pilar no fora educada na crena de que era crime conversar com desconhecidos, nos comboios. Sabia 
olhar por si to bem como qualquer outra rapariga, sem precisar de se guiar por rgidos tabus. 
Quanto a Stephen, se tivesse sido criado em Ingla- terra talvez se sentisse constrangido ao puxar 
conversa com uma jovem desconhecida; mas era um homem dado e achava natural conversar com quem 
lhe apetecesse.    
Sorriu, por isso, sem constrangimento, ao perguntar. 
--Londres  uma cidade terrvel, no ? --Oh, sim! No gosto nada dela. -- Nem eu. 
--No  ingls, pois no? 
 Sou britnico, mas natural da frica do Sul. 



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-- Compreendo. 
--Chegou h pouco do estrangeiro? Pilar acenou afimativamente.   --Vim de Espanha. 
--De Espanha? -- Stephen mostrou-se interessado. -- , ento, espanhola? 
--Meio espanhola, pois a minha me era inglesa. 
 por isso que falo to bem ingls. 
--Que me diz da guerra? 
-- Terrvel... muito triste. Tem causado muitos estragos. 
--De que lado est voc? 
A poltica de Pilar parecia muito vaga. Na sua aldeia, explicou, ningum prestara grande ateno   
guerra. 
-- No tem sido perto de ns, compreende? O regedor, como  funcionrio do Govemo,  pelo Govemo, 
e o padre  pelo general Franco, mas a maior parte das pessoas anda to atarefada com as vinhas e a terra 
que no tem tempo para pensar nesses assuntos. 
-- Quer dizer, ento, que no houve combates perto de si? 
Pilar respondeu que no, e acrescentou: 
--Mas atravessei o pas de automvel e vi muita destruio. Tambm vi uma bomba cair e destruir um 
carro.. e outra destruiu uma casa. Foi emocionante! Stephen Farr sorriu, de modo um pouco cnico. --Foi isso 
que lhe pareceu? Emocionante? 
-- Foi um aborrecimento, tambm, pois eu estava com pressa, quis continuar a viagem, e o motorista 
do meu automvel foi morto. 
-- Isso no a transtomou? -- perguntou-lhe Farr, a observ-la. 
Pilar arregalou os grandes olhos negros, ao exclamar: 
--Todos temos de morrer! No  verdade? Se a morte vem depressa, do cu pum!, pacincia;  uma 
morte como outra qualquer. Estamos vivos durante um tempo e depois morremos... A vida  assim! 
Stephen Farr riu-se. 
 No creio que seja pacifista... 
-- No cr que eu seja o qu? -- Pilar parecia in- trigada, pois desconhecia o temo. 
--Perdoa aos seus inimigos, seorita? 
Pilar abanou a cabea. 
--No tenho inimigos, mas se tivesse... 
-- Se tivesse? 
Olhava-a, de novo fascinado pelo arquear daquela boca doce e cruel. 
--Se tivesse um inimigo -- respondeu-lhe Pilar, em tom grave --, se uma pessoa me odiasse e eu a 
odiasse, cortar-lhe-ia as goelas, assim... 
Exemplificou, com um gesto to rpido e to brutal que Stephen Farr ficou, por momentos, estupefacto. 
-- uma rapariga sanguinria! -- exclamou, por fim. 
-- E voc, que faria a um inimigo? -- perguntou-lhe  Pilar, em tom casual. 
Stephen fitou-a e depois riu-se  gargalhada.   --Sei l! -- exclamou. -- Sei l! 
--Deve saber, com certeza -- volveu a rapariga, em tom desaprovador. 
Farr conteve o riso, respirou fundo e confessou, em voz baixa: 
--Sim, sei... -- Depois mudou bruscamente de assunto e perguntou-lhe: -- Que veio fazer a Ingla- terra? 
-- Vim passar uns tempos com os meus parentes... com os meus parentes ingleses -- respondeu-lhe, 
com certa afectao. 
-- Compreendo. 
Farr recostou-se no banco, a observ-la e a perguntar-se  como seriam esses parentes ingleses de que 
ela falava, o que pensariam daquela espanhola desconhecida. Tentou imagin-la entre uma sbria famlia 
brit-nica, no Natal, mas Pilar interrompeu-lhe os pensamentos: 



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--A frica do Sul  bonita? 
Comeou a falar-lhe da frica do Sul, e ela escu- tou-o com a ateno e o prazer de uma criana a 
ouvir contar uma histria. Stephen achava graa s suas perguntas ingnuas mas sensatas, e divertia-se a 
transfomar tudo numa espcie de conto de encantar exage- rado. 
O regresso dos outros ocupantes da carruagem ps fim  conversa. Farr levantou-se, sorriu-lhe e voltou 
para o corredor. 
Ao desviar-se um instante,  porta, a fim de deixar passar uma senhora de idade, leu, interessado, o 
rtulo da mala de verga da rapariga: Miss Pilar Estravados.   Depois, ao ler o endereo, os seus olhos 
arregalaram- 
-se de espanto e de qualquer outro sentimento indefinido:   Gorston Hall, Longdale, Addlesfield. 
Deu meia volta e fitou a jovem com uma expresso nova, em que se misturavam o ressentimento, a 
per- plexidade e a desconfiana. Transps a porta e acendeu um cigarro, de testa franzida. 

III 


Na grande sala azul e dourada de Gorston Hall, Alfred Lee e Lydia, sua mulher, faziam planos para o 
Natal. Alfred era um homem de meia-idade, ombros largos, rosto bondoso e meigos olhos castanhos, que 
falava em voz serena e fomal e pronunciava as palavras com clareza. Tinha a cabea afundada nos ombros 
e dava uma curiosa impresso de inrcia. Lydia, a mulher, respirava energia e vitalidade. Apesar de ex- 
traordinariamente magra, havia graciosidade e desembarao em todos os seus movimentos. 
--O pai insiste! -- exclamou Alfred. -- No h  nada a fazer. 
Lydia dominou um sbito movimento de impacincia e replicou: 
--Tens de lhe fazer sempre as vontades? 
-- um homem muito velho, minha querida...   --Oh, eu sei, eu sei! 
--Espera que lhe faam a vontade.   --Naturalmente, pois sempre lha fizeram! -- replicou Lydia, irritada. -- 
No entanto, uma vez por 
outra, seria conveniente que te opusesses. 
--Que queres dizer, Lydia? 
Olhou-a to visivelmente preocupado e surpreendi- do que, por momentos, a mulher mordeu os lbios e 
pareceu hesitar, sem saber se devia continuar ou no. 
--Que queres dizer, Lydia? -- repetiu Alfred Lee. 
Encolheu os graciosos ombros magros e respondeu, a escolher cuidadosamente as palavras: 
-- O teu pai tem tendncia para ser.. desptico... --  velho. 
--Envelhecer ainda mais e, por consequncia, tomar-se- ainda mais desptico. Aonde nos levar is- 
so? Agora j  ele quem dirige, por completo, as nossas vidas, no podemos, sequer, fazer um plano seja 
acerca do que for, pois arriscamo-nos a que o modi- fique. 
-- verdade que o meu pai espera ter prioridade em tudo, mas lembra-te de que  muito bom para ns... 
--Bom para ns! 
-- Muito bom para ns -- repetiu Alfred, com certa severidade. 
--Financeiramente, queres to dizer? -- perguntoulhe  a mulher, muito calma. 
--Sim. As suas necessidades so muito simples, mas nunca nos nega dinheiro. Podes gastar o que te 
apetece em vestidos e nesta casa, e ele paga as contas sem um mumrio. Ainda a semana passada nos 
deu um carro novo. 



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--No que respeita a dinheiro, , de facto, muito generoso, mas em troca espera que procedamos como seus 
escravos. 
 -- Escravos? 
-- Foi essa a palavra que empreguei. To s seu escravo,  Alfred. Se decidimos sair, mas o teu pai 
deseja, de sbito, que no saiamos, cancelas tudo e ficas em casa, sem tugir nem mugir! Se, pelo 
contrrio, o capricho  lhe  d para nos mandar passear, l vamos ns... No temos vida privada, nem 
independncia. 
-- Gostaria que no falasses assim, Lydia -- mumurou  o marido, penalizado. -- E uma grande 
ingratido, pois o meu pai fez tudo por ns... 
Lydia conteve uma rplica azeda e encolheu outra vez os ombros. 
--Sabes que o velhote  muito meu amigo... -- tartamudeou o marido. 
-- Pois eu no sou nada amiga dele -- afimou, categrica e claramente. 
--Magoa-me ouvir-te falar assim, querida.  to pouco generoso... 
-- Ser, mas s vezes sentimos um desejo inconti- do de dizer a verdade. 
--Se o pai imaginasse...   -- O teu pai sabe perfeitamente que no gosto dele! Creio que isso o diverte. 
-- Francamente, Lydia, tenho a certeza de que ests enganada a esse respeito. Tem-me gabado 
muitas vezes a tua atitude encantadora para com ele. 
-- Claro que sempre fui e continuarei a ser delicada. Estou apenas a infomar-te dos meus verdadeiros 
sentimentos. Antipatizo com o teu pai, Alfred, estou convencida de que  um velho maldoso e tirnico. 
Intimidate  e abusa da tua afeio por ele. Devias ter-te imposto, h anos. 
-- Basta, Lydia! -- ordenou, fimemente. -- No digas mais nada, por favor. 
A mulher suspirou. 
-- Desculpa, talvez esteja enganada... Falemos dos nossos planos de Natal. Achas que o teu imo 
David vir, realmente? 
-- Porque no? 
-- O David ... estranho. -- Abanou a cabea, duvidosa. -- Lembra-te de que no entra c em casa h  
anos. Era to dedicado  tua me que no se deve sentir aqui bem, agora. 
--O David buliu sempre com os nervos do pai, por causa da sua msica e dos seus ares sonhadores... 
O pai talvez tenha sido um pouco duro com ele, de vez em quando. Mas estou convencido de que o David e 
a Hilda no deixaro de vir.  Natal... 
-- Paz e boa vontade. -- Os cantos da boca delicada de Lydia arquearam-se ironicamente para cima. -- 
Duvido! O George e a Magdalene vm, disseram que deviam chegar amanh. Receio que a Magdalene se 
aborrea monumentalmente. 
 Nunca percebi o que levou o meu imo George a casar com uma rapariga vinte anos mais nova do que 
ele! -- exclamou Alfred, com certa irritao. -- Foi sempre um idiota. 
--Tem tido muito xito na sua carreira e os seus eleitores estimam-no. Creio que a mulher trabalha 
muito para ele, politicamente. 
-- No gosto muito dela -- mumurou Alfred, devagar. -- E muito atraente, no nego, mas s vezes 
apetece-me compar-la a uma dessas belas peras muito rosadas e brilhantes, por fora... -- Abanou a 
cabea, sem concluir a frase. 
-- E podres por dentro? Espanta-me que digas is- so, Alfred! 
-- Porqu? 
--Porque, geralmente, s a bondade em pessoa, quase nunca dizes uma palavra desagradvel acerca 
seja de quem for. s vezes at me irritas, por no seres.. como hei-de dizer?.. por no seres 
suficientemente desconfiado. 



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Alfred sorriu. 
-- Estou convencido de que o mundo  como ns o fazemos... 
-- No! -- protestou Lydia, em tom veemente. -- O mal no est s no nosso pensamento, o mal existe! 
Parece no teres conscincia do mal que existe no mundo, mas eu tenho, eu sinto-o! Senti-o sempre, 
aqui nesta casa... -- Mordeu os lbios e virou-se. -- Lydia... 
Mas a mulher ergueu rapidamente a mo, num aviso, enquanto olhava para qualquer coisa, por cima 
dos ombros do marido. Alfred virou-se. 
 porta encontrava-se um homem moreno, de rosto blandicioso e ar deferente. 
-- Que deseja, Horbury? -- perguntou-lhe Lydia, secamente. 
-- Mister Lee mandou-me dizer-lhe, minha senhora, que chegariam mais dois convidados, para o Natal -
- respondeu, em voz muito baixa e corts. -- Pediu que lhes preparasse os quartos. 
-- Mais dois convidados? -- perguntou, admirada. 
-- Sim, minha senhora, mais um cavalheiro e uma jovem. 
--Uma jovem? -- repetiu Alfred, intrigado. --Foi o que Mister Lee disse. 
--You l acima falar-lhe... -- comeou Lydia. 
Horbury deu um passo apenas, mas chegou para deter Lydia. 
--Desculpe, minha senhora, mas Mister Lee est  a repousar. Recomendou-me especialmente que no 
o incomodassem. 
-- Claro que no o incomodaremos -- declarou Alfred. 
-- Muito obrigado. 
Horbury retirou-se e Lydia exclamou, apaixonada- mente: 
-- Oh, como antipatizo com este homem! Desliza pela casa como um gato, nunca o ouvimos chegar 
nem partir. 
-- Tambm no gosto muito dele, mas percebe do seu oficio. Actualmente no  fcil arranjar um bom 
enfemeiro, efectivo. De resto, o pai gosta dele, e isso  o principal. 
-- Sim, isso  o principal, como to dizes. Que histria ser esta da tal jovem, Alfred? Quem ser? 
 No fao ideia. No me ocorre ningum que possa ser... 
Fitaram-se. Depois Lydia torceu a boca expressiva e perguntou ao marido: 
--Sabes o que penso, Alfred? 
 O que ? 
 Penso que o teu pai se tem sentido aborrecido, ultimamente, e prepara uma pequena diverso 
natalcia. 
--Trazendo dois desconhecidos para uma reunio de famlia? 
 Desconheo os pomenores, mas apostava que o teu pai se prepara para se divertir. 
-- Se assim for, espero que no fique desiludido e encontre algum prazer -- disse Alfred, em tom grave. 
-- Pobre velhote, imobilizado, invlido, depois da vida aventurosa que levou! 
Lydia repetiu, devagar: 
--Depois da vida.. aventurosa que levou. -- A pausa que fez antes do adjectivo imprimiu-lhe um 
significado especial, ainda que obscuro. 
Alfred pareceu compreender, corou e ficou com um ar triste. 
--No consigo perceber como arranjou um filho como toI -- exclamou, de sbito, Lydia.  Vocs so dois 
extremos opostos.. e ele fascina-te, adora-lo! 
-- No ests a exagerar um pouco, Lydia? k per- guntou-lhe o marido, um pouco vexado.  Creio que  
natural um filho amar o pai. O contrrio  que o no seria. 
-- Nesse caso, a maioria dos membros desta fam-lia so.. desnaturados! Pronto, no discutamos! 
Peo 



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desculpa, sei que feri os teus sentimentos. Acredita, no entanto, que no era essa a minha inteno. 
Admiro muitssimo a tua.. fidelidade,t A lealdade  uma coisa to rara, nos tempos que correm! Digamos 
que tenho cimes. Se  verdade que as mulheres tm ci-mes das sogras, porque no os ho-de ter dos 
sogros? 
--A tua lngua  uma precipitada, Lydia! -- exclamou o marido enlaando-a temamente pela cintura.   -- 
No tens motivo nenhum para sentir cimes. 
A mulher beijou-lhe a ponta da orelha, numa car-cia delicada, de arrependimento. 
--Bem sei. Contudo, Alfred, creio que no teria cimes nenhuns da tua me. Gostava de a ter 
conhecido. 
-- Era uma pobre mulher -- redarguiu o marido, a suspirar. 
-- Foi essa a impresso que te causou? -- perguntoulhe,  interessada. -- Uma pobre mulher? Parece 
interessante. 
--Lembro-me de a ver quase sempre doente... muitas vezes a chorar... -- Abanou a cabea, 
compadecido.  -- Faltava-lhe personalidade. 
Sem deixar de o fitar, Lydia mumurou, docemente: 
-- muito estranho... 
Alfred olhou-a, interrogadoramente, mas ela aba- non a cabea e apressou-se a mudar de assunto: 
--Como no nos  pemitido saber quem so os nossos misteriosos convidados, you l para fora 
continuar a tratar do jardim. 
--Est muito frio, querida. O vento corta. 
-- Agasalho-me bem. 
Saiu da sala. Ao ficar s, Alfred demorou-se uns momentos imvel, de testa franzida, e depois 
encaminhou-se  para junto da grande janela, ao fundo. Do lado de fora havia um terrao, a todo o 
comprimento da casa. Decorridos poucos minutos, viu Lydia aparecer, com um cesto de fundo chato e 
envolvida num casaco grosso. A mulher pousou o cesto e comeou a trabalhar numa espcie de tanque 
quadrado, de pedra, que se erguia um pouco acima do nvel do terreno. 
O marido observou-a, durante algum tempo, e por fim saiu tambm da sala, foi buscar um casaco e um 
cachecol e dirigiu-se igualmente para o terrao, por uma porta lateral. Passou por diversos outros tanques 
de pedra, transfomados em jardins miniaturais, todos produto dos dedos hbeis de Lydia. 
Um representava uma paisagem de deserto, com fina areia amarela, um macioS.de palmeiras, de 
folha estanhada  colorida, uma procisso de camelos, um ou dois rabes e algumas casas de lama, feitas 
de plastici- na; havia um jardim italiano, com terraos e canteiros fomais de flores de lacre colorido; um 
rctico, com bocados de vidro verde a fazer de icebergues e um bando de pinguins, e um japons, com 
duas belas rvores ans, espelhos a fingir gua e pontes modeladas em plasticina. 
Alfred chegou, por fim, ao tanque onde a mulher se encontrava a trabalhar. Lydia assentara no fundo 
papel azul e cobrira-o de vidro, amontoando  volta pedaos de rocha. No momento em que o marido 
chegou, despejava um saquinho de seixos, com os quais fomava uma praia. Entre as rochas erguiam-se 
alguns cactozinhos. 
-- Exactamente, era isso mesmo... -- mumurava, para consigo. -- Era isto mesmo que queria... 
-- Que representa esta ltima obra de arte? -- per- guntou-lhe o marido. 
Lydia est.remeceu, pois no o ouvira chegar. --Isto? E o mar Morto, Alfred? Gostas? 
-- Um pouco rido, no achas? No devia ter mais vegeta.o? 
--E esta a ideia que fao do mar Morto -- res- pondeu-lhe, a abanar a cabea. -- Est morto, 
compreendes? 
-- menos atraente do que alguns dos outros. 



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--No pretendo que seja especialmente atraente. Soaram passos no terrao. Um mordomo idoso, de 
cabelos brancos e um pouco curvado, aproximava-se do casal. 
 -- Mistress George Lee est ao telefone, minha senhora. Pergunta se ser conveniente ela e Mister 
George chegarem amanh, s cinco horas e vinte. 
--Diga-lhe que est muito bem a essa hora. 
--Obrigado, minha senhora. O mordomo afastou-se e Lydia seguiu-o com o olhar, um pouco entemecida. 
--Querido Tressilian!  uma grande ajuda. No sei que faramos sem ele. 
-- Pertence  velha escola -- concordou o marido.   -- Est connosco h quase quarenta anos e  
dedicado a todos ns. 
--  verdade. Lembra os aios antigos, dos romances... Creio que seria capaz de mentir 
descaradamente, se tal fosse preciso, para proteger qualquer membro da famlia. 
--No tenhas dvida.. no tenhas dvida... Lydia disps o ltimo seixo. 
--Est pronto! -- exclamou. 
--Pronto? -- repetiu Alfred, distrado. 
--Pronto para o Natal, pateta! m replicou a mulher, a rir. -- Para o sentimental Natal de famlia que vamos 
ter. 

IV 


David relia a carta. A certa altura, amachucou-a numa bola e afastou-a de si, mas depois endireitou- -a 
e leu outra vez. 
Hilda, a mulher, observava-o em silncio. Reparou no msculo -- ou seria um nervo? -- que lhe latejava 
na tmpora, no leve tremor das suas mos compridas e delicadas e nos estremecimentos espasmdicos 
de todo o seu corpo. Quando David afastou a madeixa loura que lhe caa constantemente para a testa e a 
fitou com 
suplicantes olhos azuis, Hilda estava preparada. 
m Que fazemos, Hilda? 
A mulher hesitou um instante. Ouvira a splica da sua voz e sabia at que ponto ele dependia dela -- 
dependera sempre, desde o casamento. Sabia tambm que talvez pudesse influenciar a sua deciso, 
decisivamente, e por isso mesmo evitou dar uma resposta concludente. 
A sua voz, ao responder-lhe, tinha a tranquilizadora suavidade da voz de uma ama experiente, num 
quarto de crianas: 
--Depende do que sentires a tal respeito, David. Hilda era uma mulher robusta e sem beleza, mas   
possuidora de um certo magnetismo. Havia nela um no sei qu que lembrava uma pintura holandesa, ha- 
via calor e temura no som da sua voz e desprendia-se do seu ser aquela espcie de energia vital oculta, 
que atrai os fracos. Espadada, gorda, de meia-idade e intelectualmente pouco ou nada brilhante, Hilda 
tinha   qualquer coisa que no se podia ignorar. Fora! Hilda Lee tinha forai 
David levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro. Poucos fios prateados brilharam na sua 
cabeleira loura e o seu aspecto era singulamente juvenil. A sua cara tinha a expresso suave da de um 
cavaleiro de Bume-Jones, uma expresso que, de certo modo, no parecia real, verdadeira. 
--To sabes o que sinto, Hilda -- redarguiu, em 
tom melanclico.  Tens obrigao de saber. --No tenho a certeza... 
--Mas j te disse, j te disse e repeti, vezes sem conta! J te disse como odeio tudo aquilo, a casa, a 
regio, tudo! S me provoca recordaes tristes. Oh, como odiei todos os momentos que l passei! Quando 



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penso.. quando penso em tudo o que ela sofreu, a minha me... 
A mulher acenou com a cabea, compreensiva- mente. 
--Era to tema, Hilda, e to paciente! Estendida na cama, muitas vezes cheia de dores, mas a suport-
-las, a suportar tudo! E quando penso na angstia e no sofrimento que o meu pai lhe causava -- o seu rosto 
tomou-se carrancudo --, a gabar-se das suas aventuras amorosas, a humilh-la, culpado de uma 
infidelidade constante e sem se dar, sequer, ao trabalho de a ocultar! 
-- Ela no lho devia ter tolerado, devia t-lo deixa- do -- disse Hilda. 
-- A sua bondade no lhe pemiUa proceder desse modo -- redarguiu, em tom de leve censura. -- Con- 
siderava seu dever ficar. De resto, era a sua casa. Para onde querias que fosse? 
--Podia ter-se tomado independente...   --Naquele tempo? -- perguntou, agastado. -- No compreendes! As 
mulheres no procediam como hoje, resignavam-se, suportaram tudo pacientemente. Alm disso, a minha 
me pensava em ns. Se se divorciasse  do meu pai, que sucederia? Ele voltaria a casar, provavelmente, e 
constituiria uma nova famlia. Os   nossos interesses podiam ficar prejudicados. A minha 
me teve de tomar tudo isto em considerao. Hilda no respondeu, e David prosseguiu: 
--Procedeu bem, foi uma santa! Sofreu at ao fim, sem se queixar. 
-- Alguma coisa se deve ter queixado, pois de contrrio no saberias tanto como sabes, David. 
--Sim, contou-me algumas coisas -- concordou David, docemente. -- Sabia quanto eu a amava. Quando 
morreu... 
Calou-se e passou as mos pelo cabelo. 
--Foi terrvel, Hilda, pavoroso! Que desolao! Ainda era nova, no precava de ter morrido! Foi ele que a 
matou, o meu pai! Foi o responsvel pela sua morte, despedaou-lhe o corao. No pude continuar a viver 
debaixo do seu tecto, vim-me embora, afastei- -me daquilo tudo. 
 --Foste muito sensato, procedeste como devias. -- O meu pai queria que eu fosse para as fbricas, mas 
para isso teria de continuar a viver l em casa. No o poderia suportar. No sei como o Alfred aguenta, 
como tem aguentado todos estes anos. 
--Nunca, se revoltou? -- perguntou Hilda, com certo interesse. -- Lembro-me de me teres dito que 
desistiu de uma carreira qualquer. 
David acenou afimativamente. 
--O Alfred estava destinado ao Exrcito. O meu pai planeara tudo. Alfred, o primognito, pertenceria a 
um regimento de cavalaria qualquer, o Harry e eu iramos para as fbricas e o George seguiria a carreira 
poltica. 
--E no sucedeu assim? 
--O Harry transtomou tudo. Foi sempre um grande estouvado, contraa dvidas e arranjava toda a   
espcie de sarilhos. Por fim, um dia, foi-se embora com algumas centenas de libras que no lhe 
pertenciam  e deixou um bilhete a dizer que o trabalho de escritrio no se coadunava com a sua natureza 
e que ia ver mundo. 
--Nunca mais tiveram notcias dele? 
-- Oh, tivemos! -- David deu uma gargalhada. -- No fez outra coisa seno telegrafar, de todos os cantos 
do mundo, a pedir dinheiro! E a verdade  que, 
regra geral, o conseguia! 
--E o Alfred? 
-- O pai obrigou-o a desistir do Exrcito, a regressar
 a casa e a trabalhar nas fbricas. 
-- Ele importou-se? 
 Muito, ao princpio. Detestou. Mas o pai soube sempre lidar com o Alfred sem a menor dificuldade. 
Creio que ainda hoje o domina por completo. 



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--E to... escapaste! -- exclamou Hilda. 
-- verdade. Fui para Londres estudar pintura. O pai avisou-me sem subterfgios de que, se fizesse 
semelhante tolice, me daria uma pequena penso, enquanto vivesse, mas no me deixaria nada quando 
morresse. Respondi-lhe que no me importava e ele 
chamou-me parvo. Depois disso, nunca mais o vi. 
--E no te arrependeste? 
--No. Sei que no irei longe com a minha arte, que nunca serei um grande artista... Mas somos felizes 
nesta vivenda, temos tudo quanto precisamos, tudo quanto  essencial. Se eu morrer, ters o meu seguro 
de vida. 
Calou-se, uns momentos, e depois acrescentou 
dando uma palmada na carta: 
--E agora.. isto! 
--Lamento que o teu pai a tenha escrito, se te transtoma tanto. 
-- Pede-me que leve a minha mulher e diz esperar que possamos passar o Natal todos juntos, como 
uma:   famlia unida! -- exclamou David, como se no a ou-i visse. -- Que significar isto? 
--Tem de significar alguma coisa, alm do que diz? -- perguntou-lhe a mulher. 
David olhou-a, interrogadoramente. 
-- Lembra-te de que o teu pai est a envelhecer -- explicou Hilda, a sortir. -- A velhice toma-nos, s vezes,
 sentimentais, no que respeita a laos de famlia. 
--Sim,  verdade... 
--O teu pai est velho e sente-se s. 
--Queres que v, no queres, Hilda? 
--Parece-me lamentvel no corresponder a um apelo -- mumurou a mulher, devagar. -- Talvez as minhas 
ideias sejam antiquadas, mas porque no h-de 
haver um pouco de paz e de boa vontade, no Natal? 
--Depois de tudo quanto te disse?   -- Eu sei, querido, eu sei... Mas tudo isso  passado, o que l vai, l 
vai. 
--Para mim, no. 
--E sabes porqu? Porque no deixas o passado morrer. Mantm-lo vivo, no teu esprito. 
--No posso esquecer. 
--Diz, antes, que no queres esquecer, David.   -- Ns, Lees, somos assim -- declarou o marido, em tom 
fime. -- Lembramo-nos das coisas anos a fio, remoemos nelas... Mantemos a memria fresca. 
--Consideras isso motivo de orgulho? -- perguntoulhe  Hilda, um pouco impaciente. -- Eu no considero. 
.......... 
O marido olhou-a pensativamente, com certa reserva, e inquiriu: 
--Nesse caso, no atribuis muita importncia   lealdade,  fidelidade a uma recordao? 
-- Considero o presente importante, e no o passado! Devemos esquecer o passado, pois creio que se 
teimamos  em o conservar vivo acabaremos por o deturpar. Vemo-lo com exagero, de uma falsa 
perspectiva. 
-- Lembro-me perfeitamente de todos os incidentes e de todas as palavras desses tempos! -- afimou 
David, em tom apaixonado. 
-- Mas no te devias lembrar, querido, no  natural. Vs esses tempos com os olhos e o esprito de 
um rapaz, quando os devias ver com o olhar e o esprito 
mais moderado de um homem. 
 Que diferena faz? 
Hilda hesitou. Tinha conscincia de que no era sensato prosseguir, mas ao mesmo tempo havia 
certas coisas que desejava muito dizer. 
-- Creio que vs o teu pai como um demnio, que o exaltas e consideras uma espcie de 
personificao do Mal. Provavelmente, se o visses agora, verificarias que no passa de um homem vulgar, 
de um homem a quem as paixes talvez tenham dominado e cuja vida esteve longe de ser irrepreensvel, 
mas que , apesar de tudo, apenas um homem e no uma espcie de monstro desumano. 



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m No compreendes! A maneira como ele tratou a minha me... 
--H uma espcie de humildade, de submisso, capaz de trazer  superfcie o que h de pior num 
homem; num homem que, tratado com deteminao e esprito combativo, poderia mostrar-se um ser 
absolu- tamente diferente. 
--Queres, ento, dizer que a culpa foi dela? --No, claro que no! No duvido de que o teu pai tratou a tua 
me pessimamente, mas o casamento   um fenmeno extraordinrio.. e no me parece que um terceiro, 
ainda que seja filho do casal, tenha o direito de julgar. Alm disso, todo esse teu ressentimento j no pode 
ajudar a tua me. J l vai tudo, passou, nada podes fazer! O que resta de toda essa tempestade  um 
velho doente, que pede ao filho que v passar o Natal com ele. 
--E to queres que eu v? 
Hilda hesitou de novo, mas por fim decidiu-se:   
m Quero, sim. Quero ir e derrubar o papo de uma vez por todas. 

V 

 
George Lee, deputado por Westeringham, era um cavalheiro um tanto ou quanto corpulento, de 
quarenta e um anos. Tinha olhos azul-claros, ligeiramente protuberantes e desconfiados, papada e voz lenta 
e pedante. 
--J te disse, Magdalene, que considero meu dever   ir -- declarou, pomposamente. 
A mulher encolheu os ombros, cheia de impacincia. Era uma loura platinada, esguia, de sobrancelhas 
rapadas e suave rosto oval que, em certas ocasies, pa- recia absolutamente desprovido de expresso. 
Aquela era uma dessas ocasies. 
--Mas, meu amor, estou certa de que ser muito aborrecido! 
-- De resto -- prosseguiu George Lee, e o seu rosto iluminou-se, como se lhe tivesse ocorrido uma ideia 
deveras agradvel --, pemitir-nos- poupar muito. O Natal  sempre uma quadra dispendiosa. Podemos 
deixar aos criados um tanto para comerem... 
--Pacincia!  exclamou Magdalene. -- No fim de contas, o Natal  sempre aborrecido, em toda a parte. 
-- Creio que eles esperam um jantar no Natal? -- perguntou George, a seguir o fio dos seus 
pensamentos. -- Um bom pedao de came, talvez, em lugar de peru... 
 Quem? Os criados? Oh, George, deixa-te dessas mesquinhices! Ests sempre a preocupar-te por 
causa do dinheiro. 
 Algum tem de se preocupar... 
--Pois sim, mas  absurdo poupar e regatear em rodas essas ninharias. Porque no convences o teu 
pai a dar-te mais dinheiro? 
 Ele j me d uma penso muito generosa. 
-- horrvel estar absolutamente dependente do teu pai, como ests! Ele devia colocar uma soma em 
teu nome. 
--Talvez, mas no  essa a sua maneira de pro- ceder. 
Madgalene fitou-o. Nos seus olhos cor de avel brilhava,  de sbito, uma expresso atenta e 
interessada e o seu rosto oval deixara de ser inexpressivo. 
--  terrivelmente rico, no , George? Uma esp-cie de milionrio? 
--Duas vezes milionrio, creio. Madgalene soltou um suspiro de inveja. 
-- Onde arranjou ele todo esse dinheiro? Na Africa   do Sul, no foi? 
-- Sim, fez l uma grande fortuna, quando era novo. Em diamantes, sobretudo. 



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-- Emocionante! 
-- Depois regressou a Inglaterra, meteu-se em negcios e, segundo creio, a sua fortuna duplicou ou 
triplicou. 
--Que suceder, quando ele morrer? 
--O pai nunca falou muito no assunto e, claro, no  coisa que se possa perguntar. Suponho que o 
grosso da sua fortuna ser repartido entre o Alfred 
e eu. Claro que o Alfred receber a parte de leo... --Mas vocs tm outros imos, no tm? --H o David, mas 
no creio que receba grande coisa. Saiu de casa para se dedicar  arte ou a qualquer outra patacoada do 
gnero. Creio que o pai o advertiu de que o deserdaria e David respondeu que no se im- portava. 
--Que estpido! w exclamou Magdalene, desdenhosa. 
-- Havia, tambm, a minha im, Jennifer. Foi-se embora com um estrangeiro qualquer, um artista 
espanhol, amigo do Da,vid, e morreu h um ano. Creio que deixou uma filha. E possvel que o pai lhe faa 
um pe- 
queno legado, mas pouca coisa. E, claro, h o Harry... Calou-se, um pouco embaraado. 
-- O Harry? -- perguntou-lhe a mulher, surpreendida.
 -- Quem  o Harry? 
--...  meu imo. 
--No sabia que tinhas outro imo! 
--Minha querida, ele nunca foi.. hum.. enfim, nunca nos deu motivos de orgulho, pelo contrrio. 
Procedeu de modo muito lamentvel. H alguns anos j que no temos notcias suas. Talvez at j tenha 
morrido. 
Magdalene desatou a rir, inesperadamente.   --De que te ris? 
--Acho divertido que to, to, George, tenhas um imo pouco respeitvel! To, que s to respeitvel! 
--Esforo-me por isso -- replicou George, fria- mente. 
--O teu pai no ... muito respeitvel, pois no, George? 
-- .Francamente, Magdalene! 
--As vezes diz coisas que me deixam constrangida...    
--Surpreendes-me, Magdalene. A Lydia... a Lydia  da mesma opinio? 
-- Ele no lhe diz a ela o que me diz a mim! m replicou, irritada. -- No, o teu pai nunca diz  Lydia as 
coisas que me diz a mim, embora eu no compreen- da porqu. 
George olhou-a, mas apressou-se a desviar o olhar. 
-- Enfim, devemos dar desconto... -- mumurou, 
em tom vago. -- Na sua idade, e to mal de sade... w Ele est, realmente, mu.ito doente? 
-- Bem, no diria tanto... E rijo... Como quer reunir a famlia toda  sua volta, no Natal, acho que 
devemos ir. Talvez seja o seu ltimo Natal... 
m Dizes isso, George, mas eu suponho que ainda poder durar anos. 
Um pouco cabisbaixo, o marido gaguejou: 
--Sim, sim.. claro que pode. -- Enfim, creio que fazemos bem em ir  concordou Magdalene. 
--No tenho dvidas a esse respeito. 
--Mas a verdade  que you detestar! O Alfred   muito enfadonho e a Lydia trata-me com desdm. -- 
Tolice! 
-- Trata, sim! Alm disso, detesto aquele antiptico criado. 
 O velho Tressilian? 
--No, o Horbury. Anda todo sorrateiro, como um gato, sempre a espreitar e a sortir cinicamente. 
--Com franqueza, Magdalene, em que te pode importar que o Horbury seja assim ou assado? 
--Bule-me com os nervos, pronto! Mas no te preocupes com isso; compreendo perfeitamente que 
devemos ir, pois seria m poltica ofender o velho. 



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--Exactamente! Quanto ao jantar de Natal dos criados... 
--Agora no, George; falaremos a esse respeito noutra ocasio. You telefonar  Lydia e dizer-lhe que 
chegamos amanh, no comboio das cinco horas e vinte. 
Magdalene saiu precipitadamente da sala. Depois de telefonar foi para o seu quarto e sentou-se  
secret-ria. Levantou a tampa e remexeu nos vrios cacifos, dos quais tirou um nunca acabar de facturas. 
Tentou arrum-las com certa ordem, mas por fim suspirou, impacientemente, e guardou-as outra vez, a 
monte. Passou a mo pela cabea platinada e mumurou: 
--Que hei-de fazer? 

VI 


No primeiro andar de Gorston Hall havia um corredor comprido que conduzia a um grande quarto, na 
frente da casa. Era um quarto mobilado  antiga, aparatosamente,  com o papel das paredes a imitar 
brocado pesado, enomes poltronas de couro, grandes vasos com drages em relevo, esculturas de bronze, 
etc. Enfim, tudo quanto nele se encontrava era magniticente, caro e slido. 
Numa grande poltrona, a maior e a mais imponente de todas, estava sentado um velho magro e 
mirrado. As suas mos compridas, semelhantes a garras, repousavam  nos braos da cadeira, e tinha a 
seu lado uma bengala com engastes de ouro. Vestia um roupo azul, coado, calava sapatos de feltro e 
tinha o cabelo branco  a pele do rosto amarelada. 
A primeira vista parecia um velho insignificante e dbil, mas o nariz aquilino e altivo e os olhos escuros 
e cheios de vivacidade, obrigavam qualquer observador  a mudar de opinio. All havia fogo, vida e vigor. 
O velho Simeon Lee riu-se sozinho, num riso esganiado  e sbito, de divertimento. 
-- Deu o meu recado a Mistress Alfred? -- perguntou a Horbury, que estava de p ao lado da cadeira. 
--Dei, sim, senhor, -- respondeu o homem, na sua voz suave e deferente. 
--Repetiu, exactamente, as palavras que lhe disse? Exactamente, hem? 
--Sim, senhor. No me enganei, senhor. 
 -- No, voc no se costuma enganar. E  melhor assim, pois de contrrio arrepender-se-ia! Que lhe 
respondeu ela, Horbury? E Mister Alfred, que disse? 
Serenamente, sem a mnima emoo, Horbury repetiu o que se passara. 
O velho riu-se outra vez e esfregou as mos de contente. 
--Esplndido! De primeira categoria! Devem ter passado a tarde a matutar, a espremer os miolos com 
perguntas! Esplndido! Agora quero receb-los. V    busclos. 
-- Sim, senhor. 
Horbury atravessou o aposento, silenciosamente, e saiu. 
-- Oua, Horbury... -- O velho olhou para trs e praguejou, entre dentes. -- Desliza como um gato, 
nunca sei onde est! 
Esperou, muito quieto, a passar os dedos pelo queixo, at que bateram  porta, ao de leve, e Alfred e 
Lydia entraram. 
--Ah, so vocs, so vocs! Lydia, minha querida, senta-te aqui, ao meu lado... Tens uma linda cor. 
-- Estive no terrao, ao frio, e por isso fiquei com a cara corada. 
-- Como est, pai? -- indagou Alfred. -- Domiu uma boa sesta, esta tarde? 
 De primeira, de primeira! Sonhei com os tempos que j l vo... Retiro-me queles em que ainda 



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no assentara nem me transfomara num pilar da sociedade. -- Uma gargalhada sbita sacudiu-o todo. 
A nora sentou-se, em silncio, a sortir delicadamente. 
-- Quais so as outras duas pessoas que espera para o Natal, pai? -- perguntou Alfred. 
--Ah, sim, tenho de te falar nisso! Vai ser um grande Natal para mim, um grande Natal! Ora deixa- -me 
ver... Vm o George e a Magdalene... 
-- Chegam amanh, no comboio das cinco horas e vinte -- infomou Lydia. 
--Pobre George, no passa de um saco de vento! No entanto,  meu filho... 
--Os eleitores gostam dele -- lembrou Alfred, e Simeon soltou nova gargalhadinha. 
--Provavelmente julgam-no honesto... Honesto! 
At agora, no houve nenhum Lee honesto. --Com franqueza, pai! 
--Excepto to, meu filho, excepto to. 
--E o David? -- perguntou Lydia. 
--Ah, o David! Confesso que estou com curiosidade de o ver, depois de todos estes anos. Era um rapaz 
piegas... Como ser a mulher dele? Pelo menos no casou com uma rapariga vinte anos mais nova, como 
o idiota do George! 
-- A Hilda escreveu uma carta muito simptica -- disse Lydia. -- H pouco recebi um telegrama dela, a 
confimar que chegam amanh. 
O sogro fitou-a, com um olhar vivo e penetrante, e riu-se. 
-- Eu bem tento, mas a Lydia nunca me d troco! -- exclamou. -- Uma coisa que devo dizer em teu 
favor,  que s uma mulher bem-educada. A educao  tem  muita importncia. Mas j a hereditariedade   
uma coisa cmica: de toda a ninhada, s um de vocs se parece comigo. S um! 
Os seus olhos brilhavam de malcia. 
-- Adivinhem, agora, quem vem c passar o Natal 
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-- prosseguiu, aps uma pausa. -- Aposto cinco libras em como no adivinham! 
Olhou de um para o outro, muito divertido. 
--O Horbury disse que o pai esperava uma jovem... -- mumurou Alfred, de testa franzida. 
-- E isso intrigou-te, hem? A Pilar deve chegar de 
um momento para o outro. Mandei o carro busc-la.   --Pilar? -- admirou-se Alfred. 
-- Pilar Estravados, a filha de Jennifer e minha ne- ta. Como ser ela, hem? 
--Meu Deus, pai, no me tinha dito... q No, prefeti guardar segredo -- interrompeu-o   o velho, a sorrir, m 
Pedi ao Charlton que escrevesse e combinasse tudo. 
-- No me tinha dito... -- repetiu Alfred, em voz magoada e com um ressaibo de censura. 
 Se te dissesse, estragaria a surpresa! m inter- rompeu-o, de novo, o pai, sem deixar de sortir 
maliciosamente.  Imagina o que ser ter outra vez sangue novo debaixo deste tecto! Nunca conheci o 
Estravados. A pequena parecer-se- com a me ou com o pai? 
--Acha sensato, pai? Tendo em considerao... -- L vens to com a tua mania da segurana! Exageras, 
Alfred, exageraste sempre, a esse respeito! Eu nunca procedi assim, o meu lema foi sempre o mesmo: Faz 
o que te apetecer, e manda ao diabo o resto! A rapariga  minha neta, a minha nica neta! Estou- -me nas 
tintas para o que o pai foi ou fez, ela  da minha came e do meu sangue! E vem viver aqui, na minha casa! 
-- Vem viver aqui? -- perguntou vivamente Lydia. --Porqu? Tens alguma objeco? 
A nora abanou a cabea e respondeu-lhe, a sorrir: 
-- No posso opor-me a que convide algum para 
viver na sua casa, pois no? Estava a pensar.. nela. --A pensar nela? Que queres dizer? --Estava apensar se se 
sentitia feliz, aqui. 


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--No tem um centavo! -- replicou o velho Simeon, endireitando a cabea, num gesto arrogante. -- Deve 
sentir-se grata! 
Lydia encolheu os ombros e o sogro voltou-se para Alfred. 
--Ests a ver? Vai ser um Natal fomidvel! Todos os meus filhos  minha volta. Todos os meus filhos! A 
tens uma deixa, Alfred. Adivinha quem  o 
. 
outro visitante. 
Alfred fitou-o, de olhos dilatados de espanto. 
--Todos os meus filhos! Adivinha, rapaz! Harry,   claro! O teu imo Harry! 
--Harry... -- gaguejou Alfred, muito plido. -- Harry no... 
-- Sim, ele! 
--Mas julgavamo-lo morto! 
--Mas est vivo e bem vivo! 
--E vai receb-lo aqui? Depois de tudo? 
-- O filho prdigo, hem! Tens razo! O vitelo gordo... devemos matar o vitelo mais gordo, Alfred, 
devemos fazer uma grande recepo ao filho prdigo! 
--Ele tratou-o, e a todos ns, de modo intoler-vel, ele... 
-- No precisas de enumerar todos os seus crimes; so muitos! Mas lembra-te de que o Natal  uma 
quadra de perdo. Daremos as boas-vindas ao filho pr-digo. 
Alfred levantou-se, perturbado. 
 Isto foi.. uma grande surpresa. Nunca me passou pela cabea que o Harry pudesse voltar a esta casa. 
--Nunca gostaste dele, pois no? -- perguntou- -lhe o pai, em voz suave, e inclinou-se para a frente. 
--Depois da maneira como se portou consigo... Simeon soltou uma das suas ga,rgalhadinhas. 
-- Oh, mas o que l vai, l vai! E este o esprito do Natal, no , Lydia? 
Lydia, que tambm empalidecera, respondeu, secamente: 
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-- Estou a ver que pensou muito no Natal, este ano.   --Quero toda a famlia  minha volta. Paz e boa 
vontade. Sou um velho... Vais-te embora, minha querida? 
Alfred sara apressadamente e Lydia fazia meno de o seguir, mas deteve-se, um instante. 
-- A notcia transtomou-o -- disse o velho. -- Ele e o Harry nunca se entenderam bem... O Harry costu- 
mava troar dele, chamar-lhe velho Devagar e Com Segurana... 
Ldia entreabriu os lbios, prestes a replicar, mas viu a expresso vida do velho e calou-se. O seu 
auto- domnio decepcionou-o. 
-- A lebre e a tartaruga? -- perguntou, encorajada pelo desnimo do velho. -- A tartaruga vence a corrida. 
--Nem sempre, minha querida Lydia, nem sempre... 
-- Desculpe, tenho de ir para junto do Alfred -- volveu, sem deixar de sorrir. -- Quando se excita, as- 
sim inesperadamente, fica sempre transtomado. Simeon riu-se. 
-- Sim, o Alfred no gosta de mudanas. Foi sempre muito pacato. 
--O Alfred -lhe muito dedicado. 
--E isso parece-te estranho, no parece? 
--s vezes parece, de facto  confessou Lydia. Saiu do quarto e Simeon seguiu-a com o olhar. 
O velho riu-se, docemente, e esfregou as mos, uma na outra. 
--Ainda me posso divertir muito! -- exclamou, baixinho.  Muito, mesmo! You apreciar deveras este Natal. 
Levantou-se, com grande dificuldade, e, apoiado na bengala, conseguiu atravessar, devagar, o 
aposento, na direco de um grande cofre que se encontrava a um canto. Manejou os botes, a porta abriu-
se e o velho tacteou no interior do cofre, com dedos trmulos. 


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Pegou numa maleta de camura, abriu-a e deixou correr pelos dedos uma quantidade de diamantes em 
bruto. 
-- Ol, minhas belezas... Sempre os mesmos, sempre os meus velhos amigos... Aqueles  que foram 
belos tempos! Belos tempos!... No pemitirei que os cortem e lapidem, meus amigos, no enfeitaro os 
pescoos das mulheres, nem os seus dedos, nem as suas orelhas... So meus.t Os meus velhos amigos! 
Sabemos umas coisas, vocs e eu... Dizem que estou velho e doente, mas ainda no estou arrumado, 
ainda h muita vida no velho co! E ainda me posso divertir, ainda posso encontrar algum prazer na vida! 
Algum prazer... 

II PARTE 

23 de Dezembro 

A campainha da porta tocou e Tressilian foi atender. Fora uma campainhada fora do vulgar, agressiva, e 
antes que o velho tivesse tempo de atravessar o vest-bulo soou de novo. 
Tressilian corou. Que maneira to rude e impaciente de tocar a campainha da casa de um cavalheiro! 
Se fosse um grupo atrevido de cantores de canes do Natal, haviam de o ouvir!... 
Pelo vidro fosco da parte superior da porta viu o vulto de um homem corpulento, de chapu desabado. 
Abriu a porta. No se enganara, era um desconhecido vestido de modo espalhafatoso -- que horrvel padro 
o do fato que envergava! --, algum pedinte atrevido... 
--Macacos me mordam se no  o Tressilian! -- exclamou o desconhecido. -- Como vai isso, Tressi- 
lian? 
O mordomo fitou-o, respirou fundo e fitou-o outra 
38 

vez, de olhos arregalados. Aquele queixo arrogante e atrevido, o nariz aquilino, o olhar galhofeiro... Sim, 
lembrava-se de ver tudo isso, anos atrs, embora de modo mais apagado... 
 Mister Harry! -- exclamou, estupefacto. Harry Lee riu-se. 
 Parece que lhe causei uma grande surpresa! 
Porqu? Esperam-me, no esperam? 
--Esperam, sim, senhor... 
-- Porqu a surpresa, ento? -- Harry recuou uns passos e olhou para cima, para a casa de tijolo 
vemelho, que traduzia pouca imaginao e muita solidez.   -- A mesma velha e feia manso! -- comentou. 
Mas continua de p, e isso  o principal. Como est o meu pai, Tressilian? 
 Praticamente invlido, senhor. No sai l de cima e tem dificuldade em se deslocar, mas fora isso est  
muito bem. 
--O velho maroto! 
Harry Lee entrou, deixou Tressilian tirar-lhe o ca- checol e o chapu um tanto ou quanto teatral. 
-- Como est o meu querido imo Alfred, Tressi- lian? 
--Muito bem, senhor. 
Harry riu-se. 
--Desejoso de me ver, no? -- troou. 
 Creio que sim, senhor. 
-- Pois eu no. Pelo contrrio! Aposto que foi uma surpresa muito desagradvel para ele saber que eu 
vi- ria! L a sua blia, Tressilian? 
--De vez em quando, senhor... 
-- Lembra-se da parbola do regresso do filho pr-digo? O bom imo no gostou que ele voltasse, no 
gostou mesmo nada... Aposto que o bom e pacato Alfred tambm no gostou nada de saber que eu voltava! 
Tressilian no respondeu. Ficou calado, muito direito, numa atitude de protesto. Harry deu-lhe uma 
palmada num ombro e pediu-lhe: 


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-- Conduza-me, meu velho. O vitelo gordo espera- -me! Leve-me direitinho a ele. 
-- Queira vir por aqui, para a sala, senhor. No sei ao certo onde esto todos... Como no sabia a que 
horas o senhor chegava, no o puderam mandar esperar. 
Harry acenou com a cabea e seguiu o mordomo pelo corredor fora. De vez em quando, virava a cabea 
e olhava, ora para um lado, ora para outro. 
-- Tudo no seu lugar... -- comentou. -- Creio que nada mudou, desde que parti, h vinte anos. 
Quando chegaram  sala, o velho mordomo disse- -lhe, em voz baixa: 
-- You ver se encontro Mister ou Mistress Alfred.   -- E apressou-se a deix-lo s. 
Harry Lee entrou na sala, mas logo a seguir estacou, a admirar a jovem sentada num dos bancos da 
janela. Os seus olhos demoraram-se, incrdulos, a percorrer o cabelo preto e a pele de uma brancura 
extica. 
-- Meu Deus!  exclamou. --  a stima e a mais bela esposa do meu pai? 
Pilar levantou-se e foi ao seu encontro. 
-- Sou Pilar Estravados -- apresentou-se. P O senhor deve ser o meu tio Harry, imo da minha me. 
 s, ento, a filha da Jenny! -- exclamou o recm-chegado sem afastar os olhos dela. 
-- Porque me perguntou se era a stima esposa do 
seu pai? Ele teve, realmente, seis mulheres? 
Harry riu-se. 
-- No, creio que teve apenas uma mulher oficiai. 
Bem, Pi... Como te chamas? 
-- Pilar. 
 Bem, Pilar, confesso que me perturbou ver uma 
criatura como to a desabrochar neste mausolu! 
 Neste mau...? 
 Neste museu de bonecos empalhados! Sempre considerei esta casa uma desgraa, e agora que a 
reveio tal opinio acentua-se. 
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Oh, no diga isso!  tudo tio bonito! A mobflia  boa e as carpetes... H carpetes espessas p.or toda a 
parte e uma quantidade de omamentos! E tudo de muito boa qualidade e muito, muito rico! 
 A esse respeito, tens razo  concordou Harry, a sortir, divertido. -- Confesso-te que me sinto emo- 
cionado por te encontrar no meio... 
Calou-se, ao ver Lydia entrar rapidamente na sala e ir ao seu encontro. 
-- Como est, Harry? Sou Lydia, a mulher de Alfred. 
-- Encantado, Lydia.  Apertou-lhe a mio e oh- servou-lhe o rosto expressivo e inteligente, ao mesmo 
tempo que aprovava, mentalmente, a maneira como andava. Na sua opinio, eram poucas as mulheres que 
sabiam andar bem. 
Lydia observou-o, tambm, e pensou: 
Tem um grande ar de rufio mas  atraente. No confiaria nele nem um bocadinho.. 
--Que tal lhe parece isto, depois de tantos anos? -- perguntou-lhe, a sorrir. -- Diferente, ou na mesma? 
--Praticamente na mesma. -- Harry olhou  sua 
volta e acrescentou: -- Mas esta sala foi modificada.  Oh, tantas vezes! 
--Por si, com certeza. Tomou-a... diferente. --Suponho que sim. 
Harry sortiu-lhe, com um sorriso espontneo e atrevido, que a lembrou do sogro. 
 Agora tem mais classe! Lembro-me de ouvir dizer que o velho Alfred casara com uma rapariga cuja 
famlia viera com o Conquistador. 
-- Creio que sim, que veio -- confimou Lydia, a sortir. -- Mas depois disso tem decado muito. 
--Como est o velho Alfred? Continua o mesmo pachorrento de sempre? 
--No sei se o encontrar mudado, se no. 
--E os outros, como esto? Espalhados por toda a Inglaterra? 


41 


  

--No. Esto todos aqui, para passarem c o Natal. 
--Um Natal de famflia? -- perguntou Harry, de olhos muito abertos. -- Que deu ao velho? Noutros 
tempos, no ligava importncia nenhuma a. sentimen- talismos. No me lembro, sequer, de que se 
importas- se muito com a famlia. Deve ter mudado! 
--Talvez -- replicou Lydia, em tom frio. Pilar olhava-os e ouvia-os, interessada. 
--Como vai o velho George? Continua a ser o mesmo forreta? No queira saber como se lamentava 
quando tinha de gastar algum dinheiro! 
--O George pertence ao Parlamento.  deputado por Westeringham. 
-- O qu? Popeye no Parlamento? Essa  muito boa! Harry atirou a cabea para trs e deu uma gargalhada 
-- uma gargalhada vibrante, que pareceu desenfreada e brutal no espao restrito da sala. Pilar susteve a 
respirao e Lydia pareceu encolher-se um pouco. 
Depois, ao ouvir um movimento atrs de si, Harry deixou de rir e virou-se bruscamente. No ouvira 
ningum entrar, mas Alfred estava all e olhava-o com uma expresso estranha. 
Passado o primeiro momento de surpresa, Harry 
comeou a sorrir e avanou um passo. 
--E o Alfred! -- exclamou. -- Ol, Harry. 
Ficaram parados, a olhar-se, e Lydia susteve a respirao e pensou: 
Que absurdo! Parecem dois ces, a medir-se.. 
Os olhos de Pilar ainda se dilataram mais, enquanto pensava: 
Parecem idiotas, assim parados. Porque no se abraam? Compreendo, no  costume dos 
Ingleses... Mas podiam, ao menos, dizer qualquer coisa! Porque se limitam a olhar-se? 
Foi Harry quem acabou por quebrar o silncio: 
--Parece-me esquisito, estar aqui outra vez... 
-- Sim,  natural. Passaram muitos anos desde que  to ... partiste. 
Harry endireitou a cabea e passou o indicador ao longo do queixo. Era um gesto natural, nele, e que 
ex- primia agressividade. 
-- Sim... Mas estou contente por ter regressado...   -- fez uma pausa, para emprestar maior significado 
  palavra, e concluiu: -- ... a casa. 

II 


--Creio que fui um homem muito perverso -- disse Simeon Lee. 
Estava recostado na sua poltron.a, a afagar pensativamente o queixo, com um dedo. A sua frente 
crepita- yam e danavam as labaredas. Pilar razia-lhe companhia, sentada ao lado da lareira, e protegia o 
rosto do calor com um bocado de papel grosso. De vez em quando abanava-se com ele, dobrando o pulso 
num gesto flexvel. Simeon observava-a, satisfeito, e continuava  a falar, talvez mais para si mesmo do que 
para ela. No entanto, a sua presena estimulavao. 
-- Sim, fui um homem muito perverso... Que dizes a isto, Pilar? 
--Os homens so todos perversos -- respondeu-lhe  a neta, e encolheu os ombros. -- Pelo menos  o 
que as freiras dizem... Por isso temos de rezar por eles. 
-- Ah, mas eu fui pior do que a maioria! -- exclamou o av, a rir. -- E no estou arrependido, sabes? 
No, no me arrependo de nada. Diverti-me, diverti- -me muito em cada minuto que passou! Dizem que nos 
arrependemos, quando a velhice chega, mas isso so tretas. Eu no me arrependi nem me arrependo. 



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E fiz cada uma! No me escapou nenhum dos bons e velhos pecados! Intrujei, roubei, menti... Sim, meu 
Deus! E quanto a mulheres? Tive sempre mulheres! Outro dia contaram-me uma histria de um chefe rabe 
que tinha uma escolta de quarenta dos seus filhos, todos mais ou menos da mesma idade. Ah, quarenta! 
Quarenta talvez no arranjasse, mas creio que arranja- ria uma escolta muito razovel se andasse por a  
procura dos fedelhos! Que dizes a isto, hem, Pilar? Escandalizada?    
-- Escandalizada porqu? -- perguntou a rapariga, surpreendida. -- Os homens desejam, sempre 
mulheres. O meu pai tambm era assim... E por isso que as esposas deles se sentem muitas vezes 
infelizes e vo   igreja, rezar. 
-- Fiz a Adelaide infeliz -- mumurou o velho Simeon, de testa franzida, de novo como se falasse consigo 
mesmo. -- Meu Deus, que mulher! Toda branca, rosada e bonita, quando casei com ela! Mas depois? 
Sempre a lamuriar e a choramingar... Quando v a mulher em constante choradeira um homem s tem 
vontade de fazer mal... A Adelaide no tinha genica nenhuma, essa  que  a verdade. Se me tivesse feito 
frente!... Mas nunca fez, nunca. Quando casei com ela estava convencido de que ia assentar, fomar famlia 
e libertar-me da vida antiga... 
A sua voz esmoreceu e os seus olhos cravaram-se, fixos, no corao gneo das chamas. 
--Fomar famlia... Meu Deus, que famflia! -- Soltou uma gargalhadinha esganiada, de clera. -- Olha 
para eles! Nem um filho, entre todos, para nos continuar! Que se passa com eles? No lhes correr  nas 
veias nenhuma gota do meu sangue? Nem um filho, entre todos, legtimo ou ilegtimo! O Alfred, por 
exemplo... Meu Deus, como o Alfred me aborrece! A olhar para mim com aqueles olhos de co, disposto a 
fazer tudo quanto lhe peo... Que idiota, Senhor! Gosto da mulher, da Lydia; tem genica! Mas ela no gosta 
de mim. No, no gosta de mim... Atura-me, que no tem outro remdio, por amor do pateta alegre do 
marido... -- Olhou para a neta e disse-lhe: -- Lembra-te sempre, Pilar, de que no h nada to aborrecido 
como a dedicao. 
A jovem sorriu-lhe e o velho prosseguiu, entemecido pela presena da sua feminilidade moa e forte. 
-- E o George? O que  o George? Um parvo! Um emproado! Um saco de vento sem miolos nem 
genica, e ainda por cima sovina! E o David? O David foi sempre um idiota. Um idiota e um sonhador. O 
menino da mam... A nica coisa sensata que fez foi casar com aquela mulher de aspecto forte e 
despachado. -- Bateu com a mo no brao da cadeira e afimou:   --O Harry  o melhor de todos! O pobre 
Harry, a 
ovelha ronhosa... Mas esse, pelo menos, est vivo!   Pilar concordou: 
-- Sim,  simptico. Ri muito alto e atira a cabea para trs... Gosto muito dele. 
O velho olhou-a, interessado. 
--Gostas, Pilar? O Harry teve sempre habilidade para agradar s raparigas. Sai a mim. -- Comeou a rir, 
baixinho. -- A minha vida foi boa, muito boa... Tive fartura de tudo! 
--Em Espanha temos um ditado que diz: Toma o que te apetecer e paga o que tomares, que manda 
Deus 
Simeon bateu de novo no brao da poltrona, apreciativamente.    
-- assim mesmo! Toma o que te apetecer..  Foi assim que fiz toda a minha vida, tomei o que me- 
apeteceu... 
-- E pagou o que tomou? -- perguntou-lhe Pilaf, em voz clara e fime. 
Simeon endireitou-se e fitou-a, apagado o sorriso 
dos lbios maliciosos. 

-- Que disseste? 

--Perguntei-lhe se pagou o que tomou. 



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--No... no sei... -- mumurou, devagar, Simeon Lee. 
Depois enfureceu-se, bateu com fora no brao da cadeira e gritou: 
 Porque perguntaste uma coisa dessas, rapariga? Porqu? 
 Tive curiosidade... 
A mo que empunhava o papel grosso imobilizou- 
-se, os seus olhos tomaram-se mais escuros e misterio- sos, e inclinou a cabea para trs, consciente 
de si 
mesma e da sua feminilidade. 
---Filha do demnio... 
--- Mas o av gosta de mim  interrompeu-o, docemente. -- Gosta que esteja aqui, consigo. 
--  verdade, gosto. H muito tempo que no via nada to jovem e to belo.. faz-me bem, aquece-me os 
velhos ossos... E to s do meu sangue e da minha came. Abenoada Jennifer, afinal demonstrou ser a 
melhor da ninhada! 
Pilar ouvia-o, a sorrir. 
-- Mas nota que no me enganas, pequena  disselhe  Simeon. -- Sei porqu.e te sentas aqui e me 
escutas  com tanta pacincia... E por causa do dinheiro, s  por causa do dinheiro! Ou pretenders 
convencer-me de que tens amor ao teu velho av? 
--No lhe tenho amor, mas gosto de si. Gosto mesmo muito de si. Deve acreditar, pois  verdade. 
Penso que foi mau, como diz, mas tambm gosto dis- so; toma-o mais real, mais humano do que as outras 
pessoas desta casa. Alm disso, conta coisas interessantes. Viajou, levou uma vida de aventuras... Se 
fosse homem, tambm seria assim. 
--Sim, creio que serias. Sempre se disse que t-nhamos sangue cigano... Verdade seja que esse 
sangue nunca revelou muito a sua presena nos meus filhos, excepto no Harry... Creio que se nota em ti, 
tambm. Sei ser paciente, quando  preciso. Uma vez esperei quinze anos para me vingar de um homem 
que me pregara uma partida! Esta  outra caracterstica dos Lees: no esquecem! Vingam-se sempre do 
mal que lhes fizerem, nem que tenham de esperar anos. Um homem vigarizou-me e eu aguardei quinze 
anos at se me apresentar oportunidade de me vingar. Ento, ar- ruinei-o, arruinei-o por completo! 
Riu-se docemente e Pilar perguntoulhe:  Isso foi na frica do Sul?  Foi. Grande pas! --Voltou l, no voltou? 
 Voltei cinco anos depois de me casar. Foi a ltima vez. 
--E antes disso? Esteve l muitos anos? 
 Estive. 
--Fale-me desse tempo. 
O velho comeou a falar e Pilar escutou-o, com o rosto protegido pelo papel grosso. Por fim, a voz do 
av tomou-se mais lenta, arrastada de fadiga.   --You mostrar-te uma coisa... 
Levantou-se, com cuidado, e, apoiado na bengala, atravessou, devagar, o quarto. Abriu o grande cofre, 
voltou-se e chamou a neta com a mo. 
-- Olha para isto! -- exclamou. -- Toca-lhes, dei- xa-os correr pelos teus dedos...  Riu-se, ao ver a cara 
de espanto de Pilaf, e perguntou-lhe: -- Sabes o que so? Diamantes, minha pequena, diamantes! 
Pilaf arregalou os olhos, inclinou-se para os diamantes e mumurou, estupefacta: 
--Mas... so pequenos calhaus! 
Simeon voltou a rir-se. 
--So diamantes em bruto, por cortar.  assim que aparecem, nas minas. 
-- Se fossem cortados seriam diamantes a srio? 
inquiriu Pilar, incrdula. 
-- Com certeza. 
 Cintilaam e faiscariam? 
 Cintilariam e faiscariam! 
-- Oh, custa-me a acreditar! -- exclamou a rapariga, infantilmente. 



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--Mas  verdade -- afimou, divertido. 
-- So valiosos? 
--Razoavelmente.  difcil dizer com preciso, antes de serem talhados, mas esta pequena quantidade vale, 
com certeza, alguns milhares de libras, pelo menos. 
-- Alguns... milhares.. de libras? -- repetiu a rapariga, separando as palavras. 
--Nove ou dez mil, digamos. So grandotes... 
--Ento porque no os vende? -- indagou Pilar, de olhos muito abertos. 
--Porque gosto de os ter aqui. 
--Todo esse dinheiro... 
--No me faz falta. -- Ah, compreendo! -- exclamou, impressionada.   -- Porque no os manda, ao menos, 
talhar, para fica- rem bonitos? 
--Porque os prefiro assim. -- Virou as costas, muito srio, e comeou a falar baixinho, consigo mesmo: -- 
Fazem-me recordar, voltar atrs... Tocar-lhes, senti-los entre os meus dedos...  como regressar, como 
viver tudo outra vez! O sol, o cheiro dos veldts, os bois, o velho Eb, os rapazes, as noites... 
Ao ouvir bater  porta, Simeon disse  neta: 
-- Mete-os no cofre e empurra a porta. -- Depois ordenou: -- Entre. 
Horbury entrou, suave e deferente, e anunciou: 
--O ch est servido, l em baixo. 

III 


-- Afinal ests aqui, David! -- exclamou Hilda. -- Procurei-te por toda a parte. No fiquemos nesta sala; 
est gelada. 
David no respondeu logo. Estava de p, a olhar para uma cadeira baixa, estofada de cetim desbotado. 
 a cadeira dela disse, de sbito. A cadeira onde ela se sentava sempre... Est na mesma. S  
desbotada, claro... 
Hilda franziu ligeiramente a testa alta e redarguiu-lhe:    
Compreendo. Saiamos daqui; est muito frio. 
Mas David olhou  sua volta, como se no a tivesse ouvido, e prosseguiu: 
Sentava-se aqui, a maior parte do tempo. Lembro-me  de me sentar all, naquele tamborete, 
enquanto ela me lia... Jack, o Gigante Assassino... Devia ter seis anos, ento. 
Hilda agarrou-lhe num brao, com fimeza, e disselhe:    
Vamos para a sala, querido. Aqui no h aquecimento. 
David voltou-se para a seguir, obedientemente, mas Hilda sentiu-o estremecer. 
Tudo na mesma..    mumurou o marido. Tudo na mesma, como se o tempo tivesse parado. 
Escondendo a preocupao que sentia, Hilda perguntou, em voz propositadamente alegre: 
Onde estaro os outros? Devem ser quase horas do ch. 
David soltou o brao e abriu outra porta.   
Costumava haver aqui um piano... Oh, c est  ele! Estar afinado? Sentou-se, levantou a tampa do 
piano e passou as mos pelas teclas suavemente. Est, tm cuidado dele... 
Comeou a tocar. Tocava bem, a melodia jorrava docemente, debaixo dos seus dedos. 
-- Que msica ? Tenho a impresso de que a conheo, mas no me lembro. 
-- H anos que no a tocava... Ela costumava to- c-la.  uma das Canes sem Palavras, de 
Mendelssohn. 
A melodia doce, excessivamente doce, inundou o aposento. 



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--Toca qualquer coisa de Mozart, sim? -- pediu Hilda ao marido. 
David abanou a cabea e comeou a tocar outra msica de Mendelssohn. De sbito, deixou cair as mos 
nas teclas, numa dissonncia agressiva, e levan- tou-se. Tremia todo. 
--David! -- exclamou, assustada, e correu para ele. -- David! 
--No  nada.. nada... 
IV 

A campainha retiniu, agressivamente. Tressilian le- vantou-se do seu banco, na copa, e encaminhou-se 
devagar para a porta. 
A campainha tocou, de novo, e o velho mordomo franziu a testa, ao ver, atravs do vidro rosco, o vulto 
de um homem de chapu desabado. 
Tressilian passou a mo pelos olhos, inquieto. Dir- 
-se-ia que estava tudo a acontecer duas vezes! 
Sim, aquilo j acontecera antes... 
Levantou o fecho, abriu a porta.. e o encanto que- brou-se. 
-- aqui que mora Mister Simeon Lee? -- per- 
guntou;lhe o homem que tocara. 
--E, sim, senhor. 
--Desejava falar-lhe, por favor. 
As suas palavras despertaram em Tressilian uma tnue recordao: era com aquele sotaque que Mr. 
Lee falava, ao princpio de estar em Inglaterra. 
-- Mister Lee est doente... -- mumurou, a aba- nar duvidosamente a cabea. -- No recebe muita 
gente, agora. Se... 
O desconhecido interrompeu-o e estendeu-lhe um sobrescrito: 
--Faa favor de dar isto a Mister Lee. 
-- Sim, senhor. 




V 


Simeon Lee abriu o sobrescrito e tirou a nica folha de papel que continha. Ergueu as sobrancelhas, 
surpreendido, mas sorriu: 
--Que maravilhosa surpresa! -- exclamou. -- 
Manda subir Mister Farr, Tessilian. 
-- Sim, senhor. 
-- E eu que estava precisamente apensar no velho Ebenezer Farr! Foi meu scio, em Kimberley... E 
agora o filho vem visitar-me! 
Tressilian reapareceu e anunciou: 
-- Mister Farr. 
Stephen Farr entrou, com certo nervosismo. Para disfarar, andou com um pouco mais de arrogncia 
do que a habitual. 
--Mister Lee? -- perguntou, e por instantes o seu sotaque sul-africano tomou-se tambm mais 
acentuado. 
-- Alegra-me muito v-lo! , ento, o rapaz do Eb? --Esta  a minha primeira visita  velha ptria... O meu 
pai recomendou-me sempre que o visitasse, se alguma vez c viesse. 
-- Fez muito bem! -- O velho olhou  sua volta e apresentou: -- A minha neta, Pilaf Estravados. 
--Como est? -- cumprimentou a rapariga, em tom afectado. 
O demnio da moa!, pensou Stephen Farr, com certa admirao. Ficou surpreendida, ao ver-me, 
mas s o demonstrou no primeiro instante 
--Muito prazer em a conhecer, Miss Estravados 
-- redarguiu, cerimoniosamente. 



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-- Muito obrigada. 
-- Sente-se e fale-me de si -- pediu Simeon Lee. 
--         Tenciona ficar muito tempo em Inglaterra?   --Agora que vim, no me apressarei a regressar. 
--         Stephen riu-se, com a cabea inclinada para trs.   -- Faz muito bem. Deve passar uns tempos aqui, 
connosco. 
--Muito obrigado, mas no quero ser intrometi- do. Faltam apenas dois dias para o Natal... 
--Passar o Natal connosco! A no ser que tenha outros planos? 
--Com franqueza, no tenho, mas no desejo... --Est decidido! -- cortou Simeon. -- Pilar?   -- Diga, av. 
--Vai dizer  Lydia que temos outro convidado. Pede-lhe que suba. 
Pilar saiu e Stephen seguiu-a com o olhar, pomenor que o velho notou, diver.Udo. 
--Veio direito aqui, da Africa do Sul? 
-- Praticamente. 
Comearam a falar do pas e, minutos depois, chegou Lydia. 
-- Este  Stephen Farr -- apresentou Simeon --, filho do meu velho amigo e scio, Ebenezer Farr. 
Passar o Natal connosco, se lhe puderes arranjar alojamento. 
--Com certeza. -- Lydia sortiu, enquanto observava  o desconhecido, dedicando especial ateno ao 
rosto bronzeado, aos olhos azuis e ao leve inclinar da cabea para trs. 
--A minha nora -- acrescentou Simeon. 
m Confesso que me sinto embaraado, por me in- 
trometer assim numa reunio familiar... -- mumurou Stephen. 
--Voc faz parte da famlia, meu rapaz -- declarou
  Simeon. -- Quero que se considere como tal.   -- muito amvel... 
Pilar voltou ao quarto e sentou-se junto da lareira. 
Pegou no papel grosso, com que protegia o rosto, e comeou a abanar-se, devagarinho, de olhos 
recatadamente baixos. 

III PARTE 

24 de Dezembro 

-- Quer, realmente, que eu fique, pai? -- perguntou Harry, de cabea inclinada para trs, no seu jeito 
habitual. -- Bem sabe que  o mesmo que remexer num ninho de vespas. 
--Que queres dizer? -- inquiriu Simeon, vivamente. 
--O mano Alfred, o bom mano Alfred!... Se me pemite que o diga, desagrada-lhe a minha presena. 
-- No tem nada que desagradar! Sou o dono desta casa. 
-- Mesmo assim, pai, creio que depende muito do Alfred e no quero perturbar... 
--Fars o que te digo! -- ordenou o pai. Harry bocejou. 
-- No sei se serei capaz de levar uma vida caseira...  sufocante, para um tipo habituado a andar aos 
trambolhes pelo mundo. 
--Devias casar e assentar. 
--Com quem?  uma pena no podemos casar 
com as sobrinhas... A Pilar  diabolicamente atraente. -- Reparaste, hem? 
--Por falar em assentar, o gorducho do George 
aviou-se bem, no que respeita a aspecto. Quem  ela? Simeon encolheu os ombros. 
-- Como queres que saiba? O teu imo escolheu-a numa passagem de modelos, creio. Diz que o pai 
era oficial da Marinha refomado. 



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--Provavelmente contramestre de algum barco costeiro... O George ainda arranja sarilhos com ela, se no 
se precata. 
--O George  um idiota. 
--Porque casou ela com ele, pai? Por dinheiro? O velho encolheu outra vez os ombros. 
-- Acha que pode convencer o Alfred? -- perguntou Harry. 
-- J vamos arrumar isso.  Simeon premiu o boto de uma campainha, que se encontrava numa mesa 
prxima, e Horbury apareceu imediatamente. -- Pea a Mister Alfred que venha c. 
Horbury saiu e Harry resmungou: 
 Aquele tipo escuta s portas! 
--Talvez -- admitiu Simeon, com novo encolher de ombros. 
Alfred apressou-se a obedecer ao chamamento. 
Franziu a testa, ao ver o imo, mas ignorou-o. 
-- Chamou-me, pai? 
-- Chamei, sim. Senta-te. Estava apensar que pre- cisamos de reorganizar um pouco as coisas, agora 
que 
temos mais duas pessoas a viver c em casa. 
-- Duas? 
--A Pilar ficar, naturalmente, e o Harry voltou de vez. 
--O Harry vai viver aqui? 
--Porque no, meu velho? -- perguntou-lhe o imo. 
Alfred voltou-se para ele irritado, e replicou: 
--Julgava que sabias melhor do que ningum porqu! 
m Peo desculpa, mas no sei. 
--Depois de tudo quanto aconteceu? Depois da terrvel maneira como procedeste, do escndalo... 
-- Tudo isso  passado, meu velho, j l vai  declarou Harry, e acenou indolentemente com a mo. 
--Portaste-te indecentemente com o pai, depois de tudo quanto ele fez por ti! 
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-- Ouve, Alfred, parece-me que isso  da conta do pai e no da tua. Se ele est disposto a esquecer e 
a perdoar... 
-- Claro que estou -- afimou Simeon. -- No fim de contas, o Harry  meu filho, Alfred. 
m Pois sim, mas desagrada-me, por si, pai. 
--O Harry vem para c! Sou eu que quero. -- Pousou suavemente a mo no ombro de Harry e 
acrescentou: -- Gosto muito dele. 
Alfred levantou-se e saiu, muito plido. Harry le- vantou-se tambm e foi atrs dele, a rir. 
Simeon connuou sentado, s gargalhadinhas. De sbito, estremeceu e olhou para trs. 
--Quem diabo est a? Ah,  voc! No deslize 
pela casa dessa maneira, Horbury. 
--Peo desculpa, senhor. 
-- No tem importncia. Escute, tenho ordens para si. Quero que venham c todos, depois do almoo.   
Todos. 
-- Sim, senhor. 
-- Oua o resto. Quando eles vierem, acompanhe- -os e, ao chegar ao meio da escada, levante a voz, 
para 
eu saber. Qualquer pretexto servir, compreende?   -- Sim, senhor. 
Horbury foi  copa e disse a Tressilian: 
-- Desconfio que vamos ter um Natal muito alegre! 
--Que quer dizer? -- perguntou-lhe o velho, agastado. 
-- Espere e ver, Mister Tressilian... Hoje  vspera de Natal e paira no ambiente um esprito natalcio 
admirvel. 


    

II 


Pararam  porta do quarto. 
Simeon, que falava ao telefone, acenou-lhes com a mo, para entrarem. 
--Sentem-se todos. No demorarei nada. Depois continuou a falar ao telefone: --Charlton, Hodjin & 
Brace?...  voc, Charl- ton?... Fala Simeon Lee... , no ?... Sim... No, queria que me redigisse um 
novo testamento... Sim, j  fiz o outro h algum tempo... As circunstncias agora so diferentes, 
compreende? Oh, no, no  pressa! No quero estragar o seu Natal. Pode ser no dia seguinte ou no outro. 
Aparea por c e dir-lhe-ei o que pretendo... No, est bem. No tenciono morrer por enquanto... 
Desligou, olhou para os oito membros da sua fam-lia, sorriu e comentou: 
--Esto todos com cara de caso... Que se passa? --Mandou-nos chamar... -- lembrou Alfred. 
-- Ah, sim! No  nada de grave... Pensaram que se tratava de algum conselho de famlia, no? Estou 
apenas um bocado fatigado e, assim, no precisaro de c voltar depois do jantar. You para a cama, pois 
quero estar fresco no dia de Natal. 
Sorriu a todos, e George comentou, emproado: --Com certeza.. com certeza... 
-- O Natal  uma grande instituio! -- exclamou o velho. -- Inspira a solidariedade do sentimento da 
famlia... Que te parece, minha querida Magdalene? 
Magdalene Lee estremeceu, apanhada de surpresa, 
e a sua boquinha idiota abriu-se e fechou-se. --Oh... Oh, sim! -- exclamou, por fim. 
-- Ora deixa ver... Viveste, segundo disseste, com um oficial da Marinha refomado... -- fez uma pausa -- 
... os dois sozinhos. Os vossos natais no devem ter sido grande coisa. E preciso uma grande famflia, para 
festejar o Natal como deve ser! 
-- Bem... sim, talvez... 
 Os olhos do velho Simeon desviaram-se dela para o marido. 
--No desejava falar em assuntos desagradreis nesta quadra do ano, mas receio ser obrigado a 
reduzirte  um pouco a penso, George... As despesas de manuteno desta casa vo subir um bocado, de 
futuro... 
George tomou-se escarlate e protestou:   --Mas, pai, no pode fazer uma coisa dessas! --No posso? -- 
perguntou Simeon, docemente.   -- As minhas despesas j so muito elevadas, confesso que nem sei 
como consigo fazer chegar o dinheiro... S graas a uma economia deveras rigorosa... 
--A tua mulher que economize mai.s um pouco. As mulheres tm jeito para essas coisas. As vezes 
descobrem maneiras de economizar que nunca passariam pela cabea de um homem! Alm disso, uma 
mulher inteligente pode fazer os seus vestidos... Lembro-me de que a minha mulher sabia manejar muito 
bem a agulha... Tambm era praticamente a nica coisa que sabi fazer! Boa mulher, mas to enfadonha! 
David levantou-se, fora de si, e o pai ordenoulhe: 
--Senta-te, rapaz. Ainda atiras alguma coisa ao cho. 
--A minha me... 
-- A tua me tinha miolos de piolho! E est-me a parecer que os legou aos filhos. -- Levantou-se, de s-
bito, com uma roseta em cada face, e acrescentou, em voz esganiada: -- Vocs no valem um centavo, 
todos juntos! Estou farto de os aturar. No so homens, so uma caterva de fracos e de piegas! A Pilar vale 
dois de vocs juntos! Juro por Deus que hei-de ter um filho melhor do que qualquer de vocs, algures no 
mundo, embora vocs tenham nascido santificados pelo casamento  I  
-- Veja como fala, pai! -- gritou Harry, que se le- vantara e fitava o velho de rosto carregado, o que nele 
era raro. 



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-- Tudo quanto disse se aplica a ti tambm! -- re- plicou-lhe Simeon. -- s capaz de me dizer o que j  
fizeste? Tens-me mandado pedidos choramingas de dinheiro, de todas as partes do mundo! Repito, estou 
farto de todos vocs! Saiam! 
Recostou-se na cadeira, um pouco ofegante. 
Um a um, lentamente, os filhos e as noras foram saindo. George estava escarlate e indignado, 
Magdalene parecia assustada, David estava plido e tremia, Harry resmungava, de cabea empertigada, 
Alfred saiu como um sonmbulo e Lydia seguiu-o, de cabea erguida. S Hilda se deteve,  porta, e depois 
retrocedeu, devagar. 
Parou junto do sogro, que estremeceu ao abrir os olhos e ao v-la  sua frente. Havia algo de 
ameaador na atitude daquela mulher forte, que o fitava, imvel. 
--Que mais temos? -- perguntou-lhe, irritado.   -- Quando recebemos a sua carta acreditei no que dizia, 
pensei que desejava ter a famlia  sua volta, no 
Natal, e, por isso, persuadi o David a vir. 
-- E ento? 
-- E ento, o pai queria a famflia  sua volta, mas no pelo motivo que dizia! -- respondeu-lhe Hilda, 
espaando as palavras. -- Quea-nos aqui, a todos, para nos humilhar, no era? Valha-nos Deus,  essa a 
sua ideia de divertimento! 
Simeon soltou uma gargalhadinha e replicou: --Possu sempre um sentido do humor muito especial! No 
me interessa que os outros apreciem as piadas; basta-me apreci-las eu. E garanto-te que estou a apreciar 
esta. 
Como Hilda no dissesse nada, Simeon Lee, sen- tiu-se vagamente apreensivo. 
-- Em que ests apensar? -- perguntou, irritado. -- Tenho medo... --Tens medo.. de mim? 
--No tenho medo de si; tenho medo.. por si! E, como um juiz ao acabar de proferir a sentena, virou-lhe as 
costas e saiu lenta e pesadamente do quarto. 
Simeon ficou imvel, de olhos fixos na porta, e depois levantou-se e encaminhou-se penosamente para 
o cofre. 
-- Deixa-me dar uma vista de olhos s minhas belezas... -- mumurou. 

III 


A campainha da porta retiniu s 7.45 h da tarde. Tressilian foi atender, e quando regressou  copa 
encontrou Horbury, atirar as chvenas de caf do tabuleiro e a observar-lhes a marca. 
--Quem era? -- perguntou ao velho mordomo. 
-- O inspector da Polcia, Mister Sugden... Cuidado, veja o que est a fazer! 
Horbury deixara cair uma das chvenas, que se estilhaara  ruidosamente. 
--Olhe para isso! -- lamentou Tressilian. -- H  onze anos que lavo estas chvenas e nunca parti ne- 
nhuma, e agora voc mexeu onde no devia e a tem o resultado! 
-- Desculpe, Mister Tressilian... Creia que lamento muito -- desculpou-se o outro, com o rosto perlado 
de suor. -- No sei como foi... Disse que tinha vindo um inspector da Polcia? 
--Sim. Mister Sugden. 
Horbury passou a lngua pelos lbios plidos e perguntou, inquieto: 
-- Que... que pretendia? 
-- Veio pedir uma contribuio para o orfanato da Polcia. 
--Ah! -- Endireitou os ombros e inquiriu, em tom mais natural: 



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tius 

E 
 --Levou alguma coisa? 
--Apresentei o livro das contribuies a Lee e ele disse-me que mandasse subir o pusesse o xerez na 
mesa. 
--Nesta poca do ano toda a gente comentou Horbury. -- O demnio do velho   so, sejam quais forem os 
seus defeitos. 
--Mister Lee foi sempre um cavalheiro de largas -- declarou Tressilian, com dignidade.
--E o que tem de melhor. Bem, you 
--Vai ao cinema? 
--Espero que sim. At breve, Mister Horbury passou pela porta que conduzia   criados, e Tressilian olhou 
para o relgio da 
Depois de colocar os pezinhos nos 
de se certificar de que estava tudo como devia, o gongo do vestulo. 
Emudecia a ltima nota quando o inspector a escada. Sugden era um homem alto e bem- de fato azul 
todo abotoado, e andava com o ar tigado de quem tinha perfeita conscincia da   portncia. 
--Creio que vamos ter geada, esta noite -- afvel. -- Seria bom, pois ultimamente o tempo andado muito em 
desacordo com a estao. 
Tressilian abanou a cabea e queixou-se: 
--A humidade afecta o meu reumatismo. O inspector declarou que o reumatismo achaque muito doloroso, e 
o velho mordomo ziu-o  porta principal. 
Depois de Sugden sair, Tressilian voltou, mente, ao vestulo. Passou a mo pelos olhos e  roll , mas ao 
ver Lydia entrar na sala endireitou tas. George Lee descia naquele momento a es 
O mordomo esperou que chegassem todos, e do a ltima convidada, Magdalene, entrou na anunciar, 
em voz baixa: 
--O jantar est servido. 
sua maneira, Tressilian era um conhecedor de ios femininos. Tinha por hbito observar e critis  vestidos 
das senhoras, enquanto dava a volta   de garrafa na mo. 
Alfred, notou, usava o vestido novo, de tafet  e preto, florido. O padro era ousado, dava nas s, mas ela 
podia us-lo com xito, o que no acon- ria a muitas outras senhoras. O vestido de George era um modelo, 
no lhe restavam dtvi- esse respeito. Devia ter custado bom dinheiro! pensaria Mr. George, quando o 
pagasse? Nunca de gastar dinheiro... Mrs. David era uma se- simptica, mas no tinha a mnima noo 
acerca de se vestir. Com a sua figura, no havia como um vestido simples, de veludo preto. Mas 
com desenhos, e ainda por cima escarlate!... Pilar... Oh, Miss Pilar estaria bem vestisse o que com 
aquela figura e aquele cabelo. O vestidibranco  era barato, mas Mr. Lee no tardaria a re- 
esse assunto. Agradara-se muito da pequena. tecia sempre assim, quando um cavalheiro era . Uma 
cara bonita conseguia tudo! 
Branco ou clarete? -- perguntou Tressilian, mumrio deferente, ao ouvido de Mrs. George. canto do. 
olho, notou que Walter, o lacaio, outra vez os vegetais antes do molho. Tanto o 

serviu o souffl. Agora que o seu interesvestidos
 das senhoras e a sua preocupao peas de Walter se tinham desvanecido, toda a gente muito calada. Bem, no 
se podia que estivessem exactamente calados, pois falava por.vinte... No, no era Mr. Harry, cavalheiro da 
Africa do Sul! Os outros tambm mas s de quando em quando, como que esPassava-se  algo de 
estranho... 
Alfred, por exemplo, parecia francamente te, como se qualquer coisa o tivesse abalado. Re58
 
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mexia na comida, meio atordoado, mas no comia. A mulher estava preocupada com ele, via-se perfeita- 
mente. Olhava-o de longe, esforando-se por no dar nas vistas. Mr. George estava muito vemelho e 
devorava  a comida, sem a saborear. Ainda acabaria por ter um ataque, se no tivesse cuidado... Mrs. 
George no comia. Dieta para emagrecer, pela certa! Miss Pilar parecia sab.orear a comida e falava e ria 
com o cavalheiro da Africa do Sul, que parecia simpatizar muito com ela. Aqueles dois no deviam ter nada 
que os preocupasse! E Mr. David? Tressilian preocupava-se com Mr. David. Era tal qual a mie! E tinha ainda 
um aspecto muito juvenil. Mas to nervoso! L derrubara o copo! 
O velho mordomo apressou-se a limpar o vinho en- tomado, mas David pareceu no dar por nada. 
Olhava em frente, muito plido. 
Por pensar em caras plidas, o Horbury tambm empalidecera, ao ouvir dizer que chegara um inspector 
da Polcia. At parecia que... 
O fio dos pensamentos de Tressilian quebrou-se, bruscamente. Walter deixara cair uma pra do prato 
da fruta. Os lacaios no prestavam para nada, nos tempos que corriam! Faziam as coisas de uma maneira 
que mais pareciam moos de cavalaria! 
Serviu o vinho do Porto. Mr. Harry parecia um pouco ausente, no parava de olhar para Mr. Alfred. 
Nunca se tinham estimado muito, aqueles dois, nem mesmo em garotos. Mr. Harry fora sempre o favorito 
do pai, claro, e isso doera a Mr. Alfred. Mr. Lee nunca se importara muito com este. Era uma pena, pois 
Mr. Alfred mostrara sempre ser muito dedicado ao pai. 
Mrs. Alfred levantou-se e contomou a mesa. Muito bonito, o padro do tafet... E a capa ficavalhe bem. 
Era uma senhora muito graciosa, sem dvida. 
Deixou os cavalheiros na casa de jantar, com o seu porto, e foi  copa buscar o caf, que levou num 
tabuleiro para a sala. Achou as quatro senhoras com um ar muito constrangido... No falavam, e Tressilian 
serviulhes  o caf, tambm em silncio. 
Quando saa, o mordomo ouviu a porta da casa de jantar abrir-se e viu David Lee sair e dirigir-se para a 
sala.   
Na copa, Tressilian pregou uma sarabanda a Walter, que se mostrou impertinente, e depois sentou-se, 
fatigado. Sentia-se deprimido. Era vspera de Natal, mas o ambiente estava tenso... No lhe agradava nada 
aquilo! 
Levantou-se, com pouca vontade, e foi  sala recolher as chvenas do caf. S l se encontrava Lydia, 
meio oculta por um cortinado, ao fundo da sala, a olhar para fora, para a noite. 
Na sala ao lado, Mr. David tocava piano. Mas porque tocaria a Marcha Fnebre? Sim, porque era isso 
que estava a tocar! Oh, havia all qualquer coisa que no batia certa! 
O velho mordomo regressou, devagar,  sua copa. Foi ento que ouviu o rudo, vindo de cima. Louas e 
mveis a cair, uma srie de estalidos e estron-   dos... 
Meu Deus!, pensou Tressilian. Que andar o senhor a fazer? Que se passa l em cima? 
De sbito soou nitidamente um grito, um grito horrvel e arrepiante, que se extinguiu num 
estrangulamento gorgolejante. 
Tressilian ficou um momento paralisado e depois correu para o vestulo e subiu apressadamente a larga 
escadaria. Outros o seguiram, pois o grito ouvira-se em toda a casa. 
Correram pela escada acima, contomaram o cotovelo e passaram por um nicho onde brilharam esttuas 
brancas e fantasmagricas. Chegaram, por fim, ao estreito corredor que levava  porta do quarto de Simeon 
Lee. Mr. Farr e Mrs. David tinham chegado primei-   







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to. Ela estava encostada  parede e ele torcia nervosamente   a maaneta da porta. 
--Est fechada  chave -- explicava. -- Est fechada  chave! 
Harry Lee precipitou-se para a frente e comeou tambm a torcer e a girar a maaneta. 
--Pail -- gritou. -- Pai, deixe-nos entrar! Levantou a mo, a recomendar silncio, e todos es- cutaram. 
Ningum respondeu, do interior do aposento no vinha qualquer som. 
A campainha da porta principal tocou, mas no lhe prestaram ateno. 
-- Temos de arrombar a porta -- sugeriu Stephen Farr. --  a nica maneira. 
-- Ser difcil -- comentou Harry. -- Estas portas so fortes e slidas. Vamos, Alfred, tentemos. 
Empurraram e esforaram-se em vo. Depois foram buscar um banco de carvalho e utilizaram-no como 
um arete. Os gonzos cederam, por fim, e a pesada porta abriu-se, com um ltimo estremecimento. 
Durante um minuto ficaram imveis, apertados uns contra os outros, a olhar. Nunca mais nenhum deles 
esqueceria o que viram. 
Houvera, tudo o indicava, uma luta tremenda. Viam-se mveis pesados derrubados, jarras de porcela- 
na esulhaadas no cho e, no meio do tapete, defronte da lareira crepitante, jazia Simeon Lee, numa 
grande poa de sangue. Alis, havia salpicos de sangue por todo o lado. O quarto parecia um matadouro. 
Ouviu-se um suspiro longo e trmulo e depois duas vozes falaram sucessivamente. Por singular coin- 
cidncia, ambas proferiram citaes. 
David Lee mumurou: 
--Os moinhos de Deus moem devagar... 
E a voz de Lydia acrescentou, num sussurro tr-mulo: 
--Quem pensaria que o velho tinha tanto sangue em si? 
IV 


O inspector Sugden tocara trs vezes. Por tun, desesperado, bateu furiosamente com a aldrava. 
Assustado, Walter abriu-lhe, finalmente, a porta. 
--Oh,  o senhor! -- gaguejou, e pareceu alivia- do. -- Ia telefonar para a Polcia. 
-- Porqu? -- perguntou-lhe o inspector, vivamente. -- Que se passa aqui? 
--O velho Mister Lee... -- segredou Walter. --   Limparam-lhe o sebo... 
Sugden afastou-o e correu pela escada acima. Entrou no quarto sem ningum se aperceber e, no 
mesmo instante, viu Pilar baixar-se e apanhar qualquer coisa do cho. David Lee tapava os olhos, com as 
mos. 
Os outros estavam reunidos, num pequeno grupo. S Alfred Lee se aproximara do corpo do pai e o 
olha- va, de muito perto. O seu rosto estava absolutamente inexpressivo. 
--Lembrem-se que no devemos tocar em nada -- dizia George Lee, todo importante. -- No devemos 
tocar absolutamente em nada, at a Polcia chegar. 
-- Com licena -- disse Sugden, e abriu caminho, afastando delicadamente as senhoras. 
-- Ah,  o senhor, inspector Sugden! -- exclamou Alfred,.ao reconhec-lo. -- Veio muito depressa. 
--E verdade, Mister Lee. -- Sugden no perdeu tempo com explicaes. -- Que sucedeu? 
--O meu pai foi morto... Assassinado. Magdalene comeou, de sbito, a soluar, histericamente,  e o 
inspector levantou a grande mo e ordenou, em tom autoritrio: 
-- Agradecia a todos que abandonassem o aposento, com excepo de Mister Lee e de... Mister 
George Lee. 
Encaminharam-se todos para a porta, lenta e relu- 



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tantemente, como cameiros, e Sugden meteu-se   frente de Pilar e disse-lhe, em tom delicado: 
--Desculpe, menina, mas no se deve mexer em nada... 
A rapariga olhou-o, sem compreender, e Stephen Farr replicou, impaciente: 
--Claro que no. Ela sabe-o muito bem. 
-- Apanhou qualquer coisa do cho, h pouco, no  verdade? -- insistiu o inspector, ainda no mesmo 
tom delicado. 
Pilar abriu muito os olhos e perguntou, incrdula: -- Apanhei? 
--Apanhou. Eu vi -- respondeu-lhe o polcia, 
sempre delicado, mas em voz um pouco mais fime.   -- Oh! 
-- Queira fazer o favor de me entregar o que apanhou. Est na sua mo. 
Pilar abriu a mo, devagar, e mostrou um pedao de borracha e um objecto pequeno, de madeira. Sug- 
den pegou-lhes, meteu-os num sobrescrito e guardou- -o na algibeira do peito. 
-- Obrigado -- agradeceu. 
Por instantes, os olhos de Stephen Farr exprimiram um certo respeito. Parecia que subestimara a 
competncia do corpulento e atraente inspector. 
Saram, por fim, do quarto e ouviram a voz de Sugden comear, em tom muito oficial: 
--Agora, se fizessem favor... 

V 


--No h nada como um lume de lenha -- afimou o coronel Johnson, chegando a cadeira para junto da 
lareira, depois de lhe ter deitado mais um toro. -- Sirva-se, por favor -- acrescentou, hospitaleiro, e apontou a 
garrafa e o sifo que se encontraram perto do cotovelo do seu visitante. 
Aquele levantou a mo, numa recusa delicada, ao mesmo tempo que aproximava tambm a cadeira do 
calor do lume, embora, pessoalmente, fosse de opinio que a oportunidade de grelhar as solas dos ps 
(como numa tortura medieval) no suavizava a corrente de ar frio que lhe enregelava as costas. 
O coronel Johnson, chefe da Polcia de Middleshi- re, podia estar convencido de que nada levava a 
palma a um lume de lenha, mas Hercule Poirot tinha a certeza de que o aquecimento central levava, e com 
grande margem. 
-- Espantoso, aquele caso Cartwright! observou o anfitrio, em tom saudoso. Espantoso indivduo! E 
que encanto de maneiras! Quando veio aqui, consigo, conquistou-nos a todos! 
Abanou a cabea e acrescentou, aps uma pausa: 
--Nunca mais teremos nada como esse caso! O envenenamento pela nicotina  raro, felizmente. 
-- Tempos houve em que se consideraria qualquer tipo de envenenamento no-ingls comentou Poi- rot. 
Era um estratagema de estrangeiros, pouco desportivo... 
-- No estou muito de acordo... Temos muitos envenenamentos pelo arsnico, mais, talvez, do que se 
suspeita. 
-- Sim, talvez. 
Os casos de envenenamento so sempre embaraosos e difceis -- afimou o coronel Johnson. 
Depoimentos contraditrios dos peritos, uma cautela exagerada  dos mdicos, nos seus pareceres... Sim, 
so invariavelmente casos difceis, para apresentar a um jri. J que temos de investigar assassnios (e 
prouvera a Deus que no tivssemos!), ao menos que sejam claros, qualquer coisa em que no haja 
dvidas nem am- biguidades quanto  causa da morte. 
Poirot acenou afimativamente. 



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--Um ferimento de bala, uma garganta cortada, um crnio esmagado, so estas as suas preferncias? 
--Oh, no lhes chame preferncias, meu querido amigo! No imagine, sequer, que gosto de 
assassnios! Oxal nunca mais me aparecesse nenhum. No entanto, creio que no temos nada a temer, 
durante a sua visita. 
--A minha reputao... -- comeou Poirot, mo- destamnte, mas Johnson prosseguiu: 
--E Natal, compreende? Paz, boa vontade, etc. Boa vontade em toda a parte! 
Hercule Poirot recostou-se na cadeira e uniu as pontas dos dedos das duas mos, enquanto observava 
atentamente o coronel. 
--, ento, de parecer de que a quadra do Natal no  propcia ao crime? -- perguntoulhe. 
--Foi o que quis dizer. -- Porqu? 
-- Porqu? -- Johnson sentiu-se um pouco fora de p... -- Bem, como disse,  uma quadra de alegria, 
boa vontade... 
--Os Ingleses so to sentimentais! 
--E que mal h nisso? -- indagou Johnson, um pouco abespinhado. -- Que mal h em gostamos de 
coisas antigas, das velhas festividades tradicionais? 
-- No h mal nenhum. , pelo contrrio, deveras encantador! Mas cinjamoonos, por instantes, aos factos.   
Disse que o Natal  uma quadra de alegria e boa vontade; uma quadra em que se come bem e bebe 
melhor, no  verdade? Em que se come mais do que a conta, na realidade, e a comida em excesso causa 
indigesto..
 e a indigesto d origem  irritabilidade! 
--No se cometem crimes por irritabilidade! 
--Olhe que no juraria... Mas vejamos o caso de outro ponto de vista. No Natal existe um esprito de 
boa vontade, como salientou. Esquecemse velhas querelas e os que estavam em desacordo consentem 
em concordar, ainda que temporariamente. 
Joh.nson acenou com a cabea. 
--E verdade, enterra-se o machado da guerra. Poirot prosseguiu, a desenvolver o seu tema: 
As famlias que passam todo o ano separadas, renem-se de novo. Deve concordar, meu amigo, 
que em tais circunstncias  inevitvel uma certa dose de   tenso. As pessoas que no se sentem 
cordiais, violentam-se  para parecer cordiais! Por isso h na quadra do Natal uma grande dose de 
hipocrisia; hipocrisia honrosa, hipocrisia pour le bon motif, c'est entendu, mas ape- sar de tudo, hipocrisia! 
Bem, pessoalmente, no vejo as coisas exactamente assim... -- mumurou o coronel, em tom 
duvidoso. 
Ah, pois no! -- exclamou Poirot, radiante. Quem as v assim sou eu, e no o senhor. Pretendi 
apenas demonstrar-lhe que em tais circunstncias, tenso mental, malaise fsica,  provvel que assumam, 
de sbito, uma caracterstica mais sria, antipatias que at ento eram moderadas e discordncias que 
no ul- trapassavam a craveira do trivial. Fingir que somos mais cordiais, mais clementes, mais 
magnnimos do que na realidade somos, leva-nos, mais cedo ou mais tarde, a dar a impresso errada de 
que somos mais antipticos, mais implacveis e mais desagradveis do que na realidade somos! Se 
represamos a torrente do comportamento natural, mon ami, mais cedo ou mais tarde a represa rebenta e 
d-se a catstrofe. 
Johnson fitou-o, duvidoso, e resmungou: 
Nunca sei quando fala a srio ou quando est  a mangar comigo. 
-- No estou a falar a srio! afimou Poirot, a sorrir. De modo nenhum! Contudo,  verdade que um 
procedimento artificial provoca uma reaco natural. 
O criado do coronel Johnson entrou na sala e infomou: 
--O inspector Sugden est ao telefone, senhor. 



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-- You j. 
O chefe da Polcia saiu, depois de se desculpar, e voltou passados trs minutos, grave e perturbado. 
--Diabos levem tudo isto! -- praguejou. -- Um caso de assassnio, e logo na vspera do Natal! 
Poirot arqueou as sobrancelhas, surpreendido.   --Trata-se, definitivamente, de assassnio? 
-- Neste caso, no h outra soluo possvel.  to- 
do perfeitamente claro. Assassnio e brutal. --Quem  a vtima? 
--O velho Simeon Lee um dos nossos homens mais ricos. Fez fortuna na Africa do Sul, para comear. 
Ouro... no, creio que foram diamantes. Enterrou   uma quantidade de dinheiro na fabricao de uma ma- 
quineta qualquer, para trabalhar nas minas, suponho que inventada por ele prprio, mas no fim no se arre- 
pendeu, pois teve excelentes lucros. Consta que era duas vezes milionrio. 
--Era estimado, naturalmente? 
--No sei se haveria algum que gostasse dele... Era um tipo esquisito e estava invlido h alguns 
anos. Pouco mais sei a seu respeito, mas no h dvida de 
que era uma das grandes figuras do condado.   --Portanto, este caso causar sensao? 
--Com certeza. Tenho de ir a Longdale o mais depressa possvel. 
Hesitou, a olhar para o visitante, e Poirot respondeu  sua pergunta muda: 
--Gostaria que o acompanhasse, no  verdade? --  uma vergonha pedir-lho, mas voc sabe como so 
estas coisas... -- redarguiu o coronel, constrangi- do. -- O inspector Sugden  bom homem, trabalhador, 
cuidadoso, digno de toda a confiana, mas.. no , em sentido nenhum, um indivduo imaginativo. Por isso, 
j que est aqui, confesso que gostaria muito de beneficiar dos seus conselhos. 
Hesitou um pouco, na ltima parte do seu discurso, dando-lhe um estilo um pouco telegrfico. Poirot 
respondeu logo: 
--Terei muito prazer, pode contar comigo para o ajudar em tudo quanto estiver ao meu alcance. Mas   
no devemos ferir a susceptibilidade do bom inspector. Ser o seu caso, e no o meu. Limitar-me-ei a ser, 
apenas, um consultor oficioso. 
--Voc  um tipo excelente, Poirot! -- exclamou o coronel, sinceramente, e os dois homens saram. 

VI 


O polcia que lhes abriu a porta principal fez a continncia. Ao ouvi-los, o inspector Sugden acorreu, 
vindo do vestulo. 
--Ainda bem que veio, senhor coronel. Podemos ir para esta sala, aqui  esquerda? E o gabinete de 
Mister Lee. Gostaria de expor o caso nas suas linhas gerais.  tudo muito confuso. 
Conduziu-os a uma pequena sala  esquerda do vestbulo, onde havia uma secretria cheia de papis, 
um telefone e estantes a cobrir todas as paredes. 
--Sugden, este  Mister Hercule Poirot -- apresentou o chefe da Polcia. -- Deve ter ouvido falar a seu 
respeito. Estava comigo quando voc telefonou. -- Voltou-se para Poirot e acrescentou: -- O inspector 
Sugden. 
Poirot inclinou um pouco a cabea e envolveu o outro num olhar. Sugden era alto, de ombros 
quadrados, porte militar, nariz aquilino, queixo belicoso e um grande e basto bigode castanho. O inspector 
olhou insistentemente Poirot, depois da apresentao, e este olhou insistentemente o bigode do inspector. 
A sua exuberncia parecia fascin-lo. 
--Ouvi, sem dvida, falar a seu respeito, Mister Poirot. Esteve por estes lados h alguns anos, sea memria 
no me atraioa, aquando da morte de Sir Bar70
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tholomew Strange. Envenenamento pela nicotina. No foi na minha zona, mas tive conhecimento do caso, 
evidentemente. 
--Vamos aos factos, Sugden interrompeuo 
Johnson, impaciente.         Disse-me que era um caso 
claro... 
Sim, senhor coronel, no h dvida de que se trata de assassnio. Mister Lee tem a garganta 
cortada; a jugular seccionada, segundo disse o mdico: No en- 
tanto, h algo de muito estranho no caso. 
Quer dizer... 
Gostaria que escutasse pmeiro a minha hist-ria, senhor coronel. Eis o que se passou: esta 
tarde, depois das cinco horas, Mister Lee telefonou-me para a esquadra da Polcia, de Addlesfield. Parecia 
um pouco agitado e pediu-me que o viesse visitar s oito horas desta noite; insistiu nessa hora, com 
especial interesse. Recomendou-me, tambm, que dissesse ao mordomo que andava a recolher fundos 
para o orfanato da Polcia. 
O clefe da Polcia levantou vivamente a cabea e perguntoulhe: 
m Queria ter um pretexto plausvel para a sua vin- 
da c a casa? 
m Exactamente. Como Mister Lee era uma pessoa importante, acedi, naturalmente, ao seu pedido. 
Cheguei aqui um pouco antes das oito horas e, de acordo com as instrues que me dera, disse ao 
mordomo que vinha angariar fundos para o orfanato da Polcia. O mordomo foi dar o meu recado e depois 
disse-me que Mister Lee me recebea, pelo que me conduziu ao quarto do patro, que fica no andar 
superior, por cima da casa de jantar. 
O inspector fez.uma pausa, respirou fundo e depois prosseguiu, em tom mais ou menos oficial: 
 Mister Lee estava sentado numa poltrona, junto da lareira, e envergava um roupo. Depois de o 
mordomo sair e fechar a porta, convidou-me a sentar a seu lado e disse-me, com certa hesitao, desejar 
comunicar-me  pomenores de um roubo. Perguntei-lhe o que fora roubado e ele respondeu-me ter motivos 
para supor   que tinham roubado do seu cofre diamantes, diamantes em bruto, creio que especificou, no 
valor de vrios milhares de libras. 
--Diamantes, hem? -- interrompeu o chefe da Polcia. 
--Sim, senhor coronel. Fiz-lhe vrias perguntas, mas a sua atitude pareceu-me muito hesitante e as 
suas respostas muito vagas. Por fim disse-me: Deve compreender, inspector, que  possvel eu estar 
enganado a este respeito. Confessei-lhe, ento: No compreendo muito bem, Mister Lee. Das duas uma, 
ou os diamantes desapareceram, ou no desapareceram. Ao que volveu: Os diamantes desapareceram, 
sem dvida ne- nhuma, mas  possvel que o seu desaparecimento se deva a uma brincadeira estpida e 
inofensiva. Pare- ceu-me estranho, naturalmente, mas calei-me, enquanto ele prosseguia: No me  fcil 
entrar em pomenores, mas a situao  mais ou menos a seguinte: tanto quanto me  dado calcular, s 
duas pessoas podem ter as pedras. Se foi uma delas, f-lo por brincadeira, mas se foi a outra trata-se com 
certeza de um roubo, Perguntei-lhe o que pretendia que fizesse, ao certo, ao que replicou: Quero que 
volte aqui dentro de uma hora, aproximadamente... No, um pouco mais de uma hora. Digamos, s nove e 
um quarto. Nessa ocasio poderei dizer-lhe, em definitivo, se fui roubado ou no. Senti-me um pouco 
mistificado, mas concordei e deixeio. 
 Curioso, muito curioso... -- comentou o coronel. -- Que diz, Poirot? 
--Posso perguntar-lhe, inspector, a que concluses  chegou? 
Sugden afagou o queixo, ao responder, cautelosamente:  --Ocorreram-me vrias ideias, mas, no 
conjunto, 



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convenci-me de que no se tratava de brincadeira ne- nhuma; os diamantes tinham, de facto, sido 
roubados, embora o velho no tivesse a certeza de quem era o ladro. Na minha opinio, falou verdade ao 
dizer que podia ter sido uma de duas pessoas, das quais uma se- ria um criado e a outra um membro da 
famlia. 
-- Trs bien -- mumurou Poirot, a acenar, apreciativamente,  com a cabea. -- Isso explicaria a sua 
atitude. 
--E o seu desejo de que eu voltasse mais tarde. Entretanto, esperava falar com a pessoa em questo, a 
quem diria que j comunicara o caso  Polcia, mas que o assunto se poderia abafar se as pedras fossem 
restitudas. 
-- E seo suspeito no correspondesse? -- perguntou o coronel Johnson. 
--Nesse caso, encarregar-nos-ia da investigao. Johnson franziu as sobrancelhas e torceu o bigode. 
--Porque no falaria com as pessoas suspeitas antes   de o mandar chamar? -- perguntou. 
--No resultaria, senhor coronel -- apressou-se a esclarecer o inspector. -- Seria muito menos 
convincente. O culpado diria para consigo: O velho no chamar a Polcia, por muito que desconfie! Mas 
se Mister Lee lhe dissesse, J falei com a Polcia, o inspector acaba de sair, o caso mudaria de figura. 
O ladro interrogaria o mordomo, este confimaria, Sim, o inspector esteve c, antes do jantar, e o 
culpado convencer-se-ia de que o velhote no estava a brincar e largaria as pedras. 
-- Hum... talvez tenha razo -- admitiu o coronel.   -- Faz alguma ideia de quem seja o membro da 
fam-lia, Sugden? 
-- No, senhor. 
--No h nenhum indcio? 
-- Nenhum. 
Johnson abanou a cabea, desanimado, e mumurou:    
--Est bem, continue. 
O inspector Sugden reassumiu o seu ar oficial: 
--Voltei aqui s nove e um quarto, em ponto. Precisamente quando me preparava para tocar a campainha, 
ouvi um grito no interior da casa e um som confuso de vozes e corridas. Toquei vrias vezes e servi-me,  
tambm, da aldrava, antes que me atendessem. Quando o lacaio abriu, finalmente, a porta, compreendi que 
se passara algo de muito grave. O homem tre- mia dos ps  cabea e parecia prestes a desmaiar. Disse-
me,  ofegante, que Mister Lee fora assassinado, e eu corri ao andar de cima. Encontrei o quarto de Mister 
Lee na maior desordem, com todos os indcios de ter havido all uma luta, e o pobre senhor cado numa 
poa de sangue, defronte da lareira, com a garganta aberta. 
-- No podia t-lo feito ele prprio? -- inquiriu o chefe da Polcia. 
-- Impossvel, senhor coronel. Por um lado, havia cadeiras e mesas derrubadas e porcelanas e 
omamentos  partidos; por outro, no havia sinais de lmina ou da faca com que o crime foi cometido. 
-- Sim, pare-conclusivo... -- mumurou o chefe da Polcia, pensativo: --Estava algum no quarto? 
-- Quase toda a famflia, senhor coronel. De p, a olhar. 
 Tem algumas ideias, Sugden? 
--E um caso complicado -- respondeu o inspector, devagar. -- Tudo parece indicar que foi um deles; no vejo 
como uma pessoa do exterior o pudesse ter feito e fugido, em to pouco tempo. 
--A janela estava aberta ou fechada? 
--O quarto tem duas janelas, senhor coronel. Uma delas estava fechada e a outra aberta alguns 
centmetros, mas fixada nessa posio por um parafuso especial. Alm disso, experimentei desloc-la e 
manteve-se  fixa. Diria que no  aberta h anos. A parede exterior , de resto, absolutamente lisa, sem 
trepadeiras nem qualquer outra coisa do gnero. No vejo como algum poderia ter sado por a. 



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--Quantas portas tem o quarto? 
--Uma, apenas. O quarto fica ao fundo de um corredor e a porta estava fechada do lado de dentro. Quando 
ouviram o barulho da luta e o grito do velho, ao morrer, correram l para cima e tiveram de arrom- bar a 
porta, para entrar. 
--Quem estava no aposento? -- perguntou Johnson. 
--Ningum, senhor coronel -- respondeu Sug- den, gravemente. -- Ningum, excepto a vtima, que fora morta 
poucos minutos antes. 

VII 


O coronel Johnson olhou demoradamente para o inspector, antes de perguntar: 
--Quer dizer, inspector, que estamos perante um daqueles diablicos casos das histrias policiais em 
que um homem  assassinado, num quarto fechado  chave, por meios aparentemente sobrenaturais? 
Um tnue sorriso agitou a bigodaa do inspector, quando respondeu, em tom muito grave: 
--No creio que seja assim to mau, senhor coronel. 
--Deve tratar-se de suicdio! 
-- Nesse caso, onde est a ama? No, senhor, no pode ser suicdio. 
--Como fugiu, ento, o assassino? Pela janela? --Juraria que no -- respondeu o inspector. 
--Mas se a porta estava fechada  chave, por dentro... 
O inspector acenou com a cabea, tirou uma chave da algibeira e p-la em cima da mesa. 
--No tem impresses digitais -- declarou. -- Mas repare nesta chave, senhor coronel... Examine-a com 
aquela lente... 
Poirot aproximou-se e examinaram, juntos, a chave. 
--Cos diabos, estou a perceber aonde quer chegar! -- exclamou o chefe da Polcia. -- Aqueles tnues 
arranhes, na ponta. V-os, Poirot? 
-- Vejo, sim. Isso parece significar que a chave foi girada do lado de fora da porta, com o auxlio de 
qualquer ferramenta especial que entrou na fechadura e agarrou a ponta da chave... Possivelmente um 
alicate vulgar. 
--Era possvel, de facto, ter acontecido assimconcordou  o inspector. 
-- Nesse caso, pretender-se-ia dar a ideia de que se tratara de um suicdio, visto a porta estar fechada e 
no se encontrar ningum no quarto? 
--Exactamente, Mister Poirot. Quanto a mim, no restam dvidas a tal respeito. 
Poirot abanou a cabea, duvidoso. 
--Como explica, ento, a desordem do aposento? Isso bastaria para afastar a hiptese do suicdio. 
Logicamente, o assassino no se esqueceria de pr tudo em ordem... 
-- Se tivesse tempo, Mister Poirot.  a que bate o ponto, se me pemite a expresso: o assassino no 
teve tempo. Suponhamos que pensava apanhar a vtima desprevenida... Sabemos que tal no sucedeu, pois 
travou-se luta (e luta violenta, que se ouviu perfeita- mente c em baixo) e, alm disso, o velhote gritou. 
Correu toda a gente pela escada acima e o assassino s  teve tempo de sair do quarto e de fechar a porta 
 chave do lado de fora. 
-- Sim, isso deve ter deitado tudo a perder -- admitiu Poirot. -- Mas porque no deixou o assassino ao 
menos a ama? Sim, porque se no h ama no pode, de maneira nenhuma, ser suicdio! Foi um erro muito 
grave. 
--Os criminosos cometem, geralmente, erros -- declarou o inspector, em tom muito afectado. --  a 
experincia que no-lo tem ensinado. 



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Poirot suspirou. 
-- Apesar dos seus erros, a verdade  que este criminoso escapou. 
--No creio que tenha, realmente, escapado...   --Quer dizer que ainda est c em casa? 
--No vejo em que outro lugar possa estar. Foi trabalho do interior. 
--Mas, tout de mme -- salientou Poirot, suavemente --, escapou at certo ponto, pois ndo sabemos 
quem ele . 
--Estou certo de que em breve saberemos -- re- darguiu o inspector, em tom igualmente suave, mas 
fime. -- Ainda no interrogmos ningum. 
-- Oua, Sugden, estou a lembrar-me de uma coisa -- disse o coronel. -- Quem quer que girou a chave 
do exterior, sabia o que fazia, o que significa que talvez tenha experincia criminal. As ferramentas utiliza- 
das nestes trabalhos no so fceis de manejar. 
-- Quer dizer que foi obra de profissional, senhor coronel? 
-- Exactamente. 
--Assim parece, de facto -- admitiu o inspector. -- Nesse caso, seria de crer que existe um ladro pro- 
fissional entre os criados. Isso explicaria o desaparecimento dos diamantes e, como sequncia lgica, o 
assassnio. 
--H alguma coisa que contrarie esta hiptese? --Eu prprio tive a mesma ideia, ao princpio, mas parece-
me difcil. Dos oito criados da casa seis so mulheres, e, destas, cinco trabalham c h mais de quatro 
anos. Os outros dois so o mordomo e o lacaio. O primeiro est na casa h perto de quarenta anos (o que 
 um recorde), e o segundo  um rapaz destes s/tios, filho do jardineiro e criado aqui. Custa-me a crer que 
possa ser um profissional. O outro nico membro do pessoal  o criado-enfemeiro de Mister Lee. Trabalha 
na casa h relativamente pouco tempo, mas estava ausente; e ainda est. Saiu pouco depois das oito 
horas. 
--Tem uma lista das pessoas que estavam, realmente, em casa, na altura do crime? -- perguntou o 
coronel. 
--Tenho, sim. Foi o mordomo quem me indicou os nomes. -- Tirou o livro de apontamentos da algibeira.  
-- Posso ler? 
m Faa favor, Sugden. 
--Mister e Mistress Alfred Lee; Mister George Lee, deputado, e esposa; Mister Harry Lee; Mister e 
Mistress David Lee; Miss -- o inspector fez uma pausa, para ler bem o nome seguinte, e depois pronunciou-
o     inglesa, como uma pea arquitectnica- Pilr Estravados;  Mister Stephen Farr. Agora os criados: 
Edward Tressilian, mordomo; Walter Champion, lacaio; Emily Reeves, cozinheira; Queenie Jones, ajudante 
de cozinheira; Gladys Spent, primeira criada; Grace Best, segunda criada; Beatrice Moscombe, terceira 
criada; Joan Kench, auxiliar das criadas; Sydney Horbury, criadoenfemeiro. 
-- Mais ningum? 
--Mais ningum, senhor coronel. 
--Faz alguma ideia de onde se encontravam todos, na altura do crime? 
-- Vaga, apenas, pois como lhe disse ainda no interroguei ningum. Segundo Tressilian declarou, os 
cavalheiros ainda se encontravam na casa de jantar e as senhoras j tinham ido para a sala. Tressilian 
acaba- ra de servir o caf e voltara para a copa quando ouviu o barulho, l em cima, e depois um grito. 
Correu para o vestbulo e subiu a escada, atrs dos outros. 
--Quantas pessoas da famlia moram aqui, e quantas esto apenas de visita? -- quis saber o coronel. 
-- Mister e Mistress Alfred moram aqui; os outros esto apenas de visita. 
 Onde se encontram todos, agora? 
 Pedi-lhes que ficassem na sala, at os interrogar. 



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-- Parece-me melhor imos l acima, dar uma vista de olhos. 
O inspector conduziu-os, pela larga escadaria e pelo corredor. Ao entrar no quarto onde fora cometido o 
crime, Johnson soltou um suspiro profundo. 
-- Horrvel -- comentou. 
Ficou um momento imvel, a observar as cadeiras derrubadas, as porcelanas estilhaadas e os cacos 
salpicados  de sangue. 
Um homem magro e idoso, que estava ajoelhado junto do corpo, levantou-se e cumprimentou, com um 
aceno de cabea. 
--Boas noites, Johnson. Parece um matadouro, hem? 
--  verdade. Tem alguma coisa para ns, doutor? O mdico encolheu os ombros e sorriu.   --Fomecer-
lhes-ei a linguagem cientfica no inqurito. Alis, no parece nada complicado. Cortaram-lhe  a garganta 
como a um porco e esvaiu-se em sangue em menos de um minuto. No h sinais da ama. 
Poirot foi examinar as janelas. Como o inspector dissera, uma estava fechada e trancada e a outra 
aberta uns dez centmetros, na base. Um parafuso grosso, do tipo conhecido, muitos anos atrs, por 
parafuso contra ladres, fixava-a nessa posio. 
-- Segundo me disse o mordomo, essa janela nunca se fechava, quer o tempo estivesse hmido, quer  
bom . O tapete de oleado, em baixo, destinava-se a evitar que a chuva manchasse o cho, se entrasse pela 
fresta, mas isso acontecia raramente, pois o telhado saliente protege a casa, nesse aspecto. 
Poirot acenou com a cabea e foi observar o morto. Os lbios estavam arrepanhados, por cima das 
gengivas exangues, numa espcie de arreganho, e os dedos enclavinhados, como garras. 
-- No parece que fosse um homem forte... -- comentou Hercule Poirot. 
--Era muito rijo, creio -- opinou o mdico. -- 
Sobreviveu a diversas doenas graves, que teriam ma- tado qualquer outro homem. 
-- No era a isso que me referia. Queria dizer que no era corpulento, fisicamente forte. 
--No, de facto. Nesse aspecto, era frgil. Poirot curvou-se, a observar uma pesada cadeira de mogno, 
derrubada. Ao lado, via-se uma mesa redonda, tambm de mogno, e fragmentos de um grande candeeiro 
de porcelana. Perto jaziam duas outras cadeiras, mais leves, os estilhaos de uma garrafa e dois copos, 
um pesado pesa-papis, de vidro, intacto, alguns livros, uma jarra japonesa, feita em fanicos, e a estatueta 
de bronze de uma rapariga nua. 
Poirot observou tudo, detidamente, mas sem tocar em nada. Tinha a testa franzida, de perplexidade. 
--Nota alguma coisa de especial, Poirot? -- per- guntou-lhe o chefe da Polcia. 
Poirot suspirou e respondeu, baixinho: 
--Um homem to frgil, to mirrado.. e tudo isto... 
Johnson pareceu intrigado. Virou-se para o sargen- 
to, que se encontrava no quarto, e perguntoulhe:   --Encontraram impresses digitais? --Muitas, senhor 
coronel, por toda a parte. -- No cofre? 
-- Por a, nada feito. As nicas que l se encontraram foram as da vtima. 
-- Alguma coisa, quanto a manchas de sangue? -- perguntou o coronel, dirigindo-se desta vez ao 
mdico. -- Certamente quem o matou deve ter ficado sujo de sangue... 
-- Talvez no. Praticamente o sangue saiu todo da jugular, e portanto no deve ter esguichado, como se 
fosse de uma artria. 
--No entanto, h por a muito sangue... 
-- Sim, h muito sangue -- concordou Poirot. -- Acho estranho... Tanto sangue! 



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w Acha... hum.. isso sugere-lhe alguma coisa, Mister Poirot? -- inquiriu respeitosamente o inspector. 
O interpelado olhou  sua volta e abanou a cabea, perplexo. 
--H aqui um no sei qu.. uma violncia... -- Calou-se, um instante, e depois prosseguiu: -- Sim,   
isso: violncia... E sangue, uma insistncia em sangue... H... como hei-de dizer?.. demasiado sangue.   
Sangue nas cadeiras, nas mesas, na carpete... Um ritual de sangue? Sangue de sacrifcio? Talvez... Um 
velho to frgil, to magro, to mirrado, to seco, e, contudo, ao morrer, tanto sangue... 
O inspector Sugden fitou-o, de olhos arregalados, e observou, em voz temerosa: 
--Tem graa.. foi o que ela disse.. a senhora... 
--Que senhora? -- perguntou-lhe, vivamente, Poirot. -- Que disse ela? 
--Mistress Lee, Mistress Alfred Lee. Estava all parada,  porta, e proferiu as palavras num mumrio. 
No percebi... 
--Que foi que ela disse? 
 --Qualquer coisa assim como quem pensaria que o velho teria tanto sangue em si... 
-- Mas quem pensaria que o velho tinha tanw sangue em si? -- mumurou Poirot, docemente. -- As 
palavras de Lady Macbeth. Ela disse isso... Ah,  interessante! 

VIII 


Alfred Lee e a mulher entraram no pequeno gabinete onde Poirot, Sugden e o chefe da Polcia espera- 
yam, de p. 
-- Como est, Mister Lee? -- cumprimentou o coronel. -- Nunca fomos verdadeiramente apresentados, 
mas como deve saber sou chefe da Polcia do condado. Chamo-me Johnson... No sei exprimir quanto 
lamento tudo isto. 
Alfred, cujos olhos castanhos lembravam os de um co angustiado de sofrimento, mumurou, em voz 
rouca: 
--Obrigado...  terrvel.. terrvel! Eu... esta   minha mulher. 
-- Foi um abalo muito grande para o meu marido -- disse Lydia, na sua voz serena, com a mo no 
ombro de Alfred. -- Para todos ns, na verdade, mas sobretudo para ele. 
-- No se quer sentar, Mister Lee? -- perguntou-lhe  Johnson. -- Pemita que lhe apresente Mister Her- 
cule Poirot. 
Poirot inclinou a cabea, enquanto os seus olhos observavam, com interesse, marido e mulher. 
-- Senta-te, Alfred -- disse Lydia, e os seus dedos 
comprimiram, docemente, o ombro do marido. Alfred sentou-se e mumurou: 
--Hercule Poirot... Quem... quem... -- Calou-se e passou a mo pela testa, atordoado. 
-- O coronel Johnson deve querer fazer-te muitas perguntas, Alfred -- disse-lhe Lydia. 
O chefe da Polcia olhou-a, aprovadoramente. Sentia-se  grato por Mrs. Lee ser uma mulher to 
sensata e inteligente. 
--Claro, claro... -- mumurou Alfred. 
O abalo parece t-lo destrambelhado de todo, pensou o coronel. Oxal consiga dominar-se um   
pouco... 
--Tenho aqui uma lista de todas as pessoas que estavam c em casa, esta noite -- disse, em voz alta. 
--         Importa-se de me dizer se est certa, Mister Lee? Fez um sinal a Sugden, que tirou o livro de 
apontamentos
 e leu de novo, os nomes. 
O enumerar dos nomes pareceu ajudar Alfred Lee a dominar-se, a recuperar um pouco de serenidade. 
Os 



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seus olhos perderam a fixidez e a expresso de atordoamento,  e acenou com a cabea, aprovador, quando 
Sudgen teminou. 
--Est certa -- declarou. 
--Importa-se de me falar um pouco acerca dos convidados? Mister e Mistress George Lee e Mister e 
Mistress David Lee so, presumo, parentes? 
--So os meus dois imos mais novos e as suas mulheres. 
--Esto aqui apenas de visita? 
--Sim, vieram passar o Natal connosco. --Mister Harry Lee tambm  seu imo?   --. 
-- E os outros dois convidados? Miss Estravados e Mister Farr? 
-- Miss Estravados  minha sobrinha; .Mister Farr  
filho de um antigo scio de meu pai, na Africa do Sul. -- Ah, um velho amigo! Lydia interveio e esclareceu: 
--No, na realidade, nunca o vramos. Conhecemo-lo  ontem, apenas. 
-- Compreendo. Mas convidaram-no para passar o Natal? 
Alfred hesitou, e depois olhou para a mulher, que respondeu, sem hesitaes: 
-- Mister Farr apareceu c ontem, inesperadamente. Encontrava-se nas proximidades e resolveu visitar 
o meu sogro. Este, ao saber que ele era filho do seu velho amigo e scio, fez questo de o convidar a 
passar o Natal connosco. 
--Muito bem, est tudo explicado -- declarou o coronel. -- Falemos agora dos criados. Considera-os 
dignos .de confiana, Mistress Lee? 
Lydia pensou um instante, antes de responder: -- Sim, estou certa de que so todos de confiana. Na sua 
maioria, esto connosco h muitos anos. Tressilian,  o mordomo, serve a casa desde a infncia do meu 
marido... Os mais recentes so a ajudante das criadas, Joan, e o criado-enfemeiro, que tratava do meu 
sogro. 
--Que sabe a respeito desses dois? 
-- Joan no passa de uma patetinha...  a pior coisa que se pode dizer a seu respeito, coitada. Quanto 
a Horbury, pouco sei. Trabalha c h pouco mais de um ano, tem-se mostrado competente e o meu sogro 
pare- cia satisfeito com ele. 
 --Mas a senhora no estava satisfeita, pois no?   -- interveio, inesperadamente, Poirot. 
Lydia encolheu os ombros e respondeu: 
--O trabalho dele no me dizia respeito. 
-- Mas, como dona da casa, os criados esto sob a sua alada? 
-- Sim, sem dvida. Mas Horbury servia pessoal- 
mente o meu sogro, no estava dependente de mim. -- Compreendo. 
-- Chegamos agora aos acontecimentos desta noite   -- prosseguiu o coronel. -- Receio que seja 
penoso para si, Mister Lee, mas gostaria de o ouvir relatar o que sucedeu. 
--Com certeza -- mumurou Alfred. 
--Por exemplo, quando viu pela ltima vez o seu pai? 
Um leve espasmo de dor contraiu o rosto de Alfred, ao responder, em voz apagada: 
--Depois do ch. Estive com ele alguns momentos e depois dei-lhe as boas-noites. Quando o deixei 
deviam ser.. talvez um quarto para as seis. 
-- Deu-lhe as boas-noites? -- observou Poirot. -- No esperava voltar a v-lo, esta noite? 
 No. O jantar do meu pai, uma refeio ligeira, era-lhe sempre servido s sete horas. Depois disso dei- 
tava-se ou ficava sentado na sua poltrona, mas no esperava ver ningum da famflia, a no ser que man- 
dasse chamar algum de ns. 
 Costumava mandar chamar algum? 



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--s vezes, se estava com disposio para isso. 
--No entanto, no era um procedimento corrente? 
-- No. 
--Continue, por favor, Mister Lee. Alfred continuou: 
-- Jantmos s oito horas. Depois de comemos, a minha mulher e as outras senhoras foram para a 
sala. -- A voz fugiu-lhe, trmula, e os seus olhos ficaram outra vez fixos. -- Estvamos sentados  mesa, na 
casa de jantar, e de sbito ouvimos um barulho surpreen- dente, l em cima. Cadeiras e mveis a cair, 
vidros e porcelanas a estilhaarem-se, e... Oh, meu Deus! -- Estremeceu, percorrido por um calafrio. -- 
Ainda parece que estou a ouvir! O meu pai soltou um grito... um grito horrvel e longo, de um homem na 
agonia da morte... 
Cobriu o rosto com as mos trmulas. Lydia to- 
cou-lhe na manga e o coronel perguntou, suavemente: -- E depois? 
--Creio que.. durante um minuto, ficmos atordoados. Depois levantmo-nos, de um pulo, corremos pela 
porta fora e subimos a escada, direitos ao quarto do meu pai. A porta estava fechada  chave e no 
pudemos entrar. Tivemos de a arrombar. Depois, quando entrmos, vimos... 
A voz morreu-lhe na garganta. 
-- No h necessidade de entramos nesses pomenores, Mister Lee -- disse o coronel. -- Voltemos 
atrs, ao tempo em que estavam na casa de jantar. Quem se encontrava consigo, quando ouviram o grito? 
--Quem? Bem, estvamos todos... No, um momento... Estava l o meu imo.. o meu imo Harry.   -- 
Mais ningum?   -- Mais ningum. 
--Onde estavam os outros cavalheiros? Alfred suspirou e franziu a testa, num esforo para se lembrar. 
--Deixe-me ver... Parece que foi h tanto tempo... h anos... Que sucedeu? Ah, sim! O George sa-ra, 
para telefonar, e ns comemos a falar de assuntos de famflia. Stephen Farr disse qualquer coisa, acerca 
de compreender que queramos falar de coisas que no  lhe  respeitaram, e saiu. Procedeu com muito 
acerto e tacto, diga-se de passagem... 
--E o seu imo David? Alfred franziu outra vez a testa. 
--David? Tambm no estava l... No me lembro quando saiu. 
-- Tinha, ento, assuntos de famflia a discutir? -- 
perguntou Poirot, docemente. 
-- Hum... sim... 
--Isto , queria falar de certos assuntos com um membro da famlia? 
--Que quer dizer, Mister Poirot? -- interveio Lydia. 
Poirot voltou-se vivamente para ela e respondeu: 
--Minha senhora, o seu marido disse que Mister Farr os deixou por compreender que queriam discutir 
assuntos de famlia. No se tratava, porm, de um   conseil de famille, visto Mister David no estar 
presente, nem to-pouco Mister George. Portanto, era uma discusso entre dois membros da farrlia, 
apenas. 
--O meu cunhado, Harry, esteve ausente no estrangeiro muitos anos. Era natural que ele e meu ma- 
rido tivessem coisas que dizer um ao outro. 
--Ah, compreendo! Era, ento, isso! Lydia olhou-o, e depois apressou-se a desviar o olhar. 
-- Esse ponto parece esclarecido -- declarou Johnson. -- Reparou em mais algum, quando subiu a 
escada, a caminho do quarto do seu pai? 
-- Eu confesso que no sei. Creio, no entanto, que sim. Aparecemos todos, de diversas direces, mas 
estara  to assustado que no reparei... Aquele grito horrvel... 



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O coronel Johnson apressou-se a mudar de assunto: 
--Obrigado, Mister Lee. Falemos agora de outra coisa. Consta-me que seu pai tinha em seu poder 
alguns diamantes valiosos. 
--Sim -- confimou Alfred, surpreendido --, tinha. 
--Onde os guardava? --No cofre, no seu quarto. -- Pode descrevlos? 
--Eram diamantes em bruto.. isto , pedras por talhar. 
--Porque os tinha o seu pai l em cima? 
-- Era um capricho seu. Trouxera-os da frica do Sul e nunca os mandara cortar. Gostava de os ter em 
seu poder... Como disse, era um capricho. 
--Compreendo -- redarguiu o chefe da Polcia, embora o tom da sua voz denunciasse que no com- 
preendia nada... -- Eram muito valiosos? 
-- O meu pai calculava que valeriam cerca de dez mil libras. 
--Portanto, eram pedras muito valiosas? 
-- Eram. 
--Parece uma ideia curiosa, essa de guardar pedras to valiosas num cofre, em casa... 
--O meu sogro era um homem curioso, coronel Johnson -- interveio, mais uma vez, Lydia. -- As suas 
ideias no tinham nada a ver com convencionalismos,  e no h dvida que lhe causava grande prazer 
mexer nesses diamantes. 
--Talvez lhe recordassem o passado -- sugeriu Poirot. 
--Sim, creio que era isso -- admitiu Lydia. 
--Estavam seguros? -- indagou o chefe da Polcia. 
--Parece-me que no. 
Johnson inclinou-se para Alfred e perguntoulhe, em tom sereno: 
-- Sabia, Mister Lee, que esses diamantes tinham sido roubados? 
--O qu?! -- exclamou, estupefacto, o interpelado.    
--O seu pai no lhe falou do seu desaparecimento? 
--No, no me disse nada. 
--Ignorava que ele mandara chamar o inspector Sugden e lhe comunicara o roubo? 
--No fazia a mnima ideia de que tal tivesse sucedido! 
--E a senhora, Mistress Lee? 
Lydia abanou a cabea, negativamente. 
--No ouvi falar no assunto. 
-- Que soubesse, portanto, as pedras continuavam no cofre? 
--Continuavam. -- Hesitou, antes de perguntar:   -- Foi por isso que o mataram? Por causa dessas 
pedras? 
-- o que pretendemos averiguar -- replicoulhe o coronel. -- Faz alguma ideia, Mistress Lee, de quem 
poderia maquinar semelhante roubo? 
--No, confesso que no. Estou certa de que os criados so todos honestos. Alis, ser-lhes-ia muito 
difcil aproximarem-se do cofre. O meu sogro estava 
sempre l em cima, nunca descia c abaixo.   --Quem arrumava o quarto? 
 Horbury. Era ele que fazia a cama e limpava o p. A segunda criada limpava todas as manhs a lareira 
e acendia-a, mas o resto estava tudo a cargo de Horo bury. 
--Portanto, seria ele a pessoa que teria melhor 
oportunidade de cometer o roubo? -- inquiriu Poirot.   -- Sim. 
--Pensa, ento, que foi ele quem roubou os diamantes? 
-- possvel, suponho... Ningum teria melhor oportunidade do que ele. Oh, no sei que pensar! 



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-- O seu marido j nos relatou o que se passou esta noite -- disse o coronel Johnson. -- Importa-se de fazer 
o mesmo, Mistress Lee? Quando viu pela ltima vez o seu sogro? 
-- Fomos todos ao seu quarto, esta tarde, antes do ch. Foi a ltima vez que o vi. 
-- No o viu mais tarde, para lhe desejar as boas-noites? 
-- No. 
-- Costumava ir dar-lhe as boas-noites? -- perguntou Poirot. 
--No -- repetiu Lydia, secamente. 
--Onde estava quando foi cometido o crime? 
prosseguiu o chefe da Polcia. 
-- Na sala. 
--Ouviu o barulho da luta? 
--Creio que ouvi qualquer coisa pesada cair. Como o quarto fica por cima da casa de jantar, e no da 
sala, no ouvi tanto como as pessoas que se encontravam  naquela. 
--Mas ouviu o grito? 
Lydia estremeceu. 
-- Sim, ouvi... Foi horrvel! Parecia o grito de... de uma alma no Infemo! Compreendi imediatamente que 
sucedera algo terrvel, sa da sala a correr e segui o meu marido e Harry, pela escada acima. 
--Quem mais se encontrava na sala, nesse momento? 
Lydia franziu a testa. 
-- Confesso que no me lembro... David estava na sala de msica, ao lado, a tocar Mendelssohn e 
creio que Hilda fora ter com ele. 
--E as outras duas senhoras? 
-- Magdalene fora telefonar e no me lembro se j  tinha voltado, se no, e no sei onde estava Pilar. 
--Quer dizer que podia encontrar-se sozinha na sala? -- perguntou Poirot, em tom suave. 
--Sim... Na verdade, creio que estava sozinha. 
-- A respeito dos diamantes... -- prosseguiu o coronel. -- Creio que devemos certificar-nos acerca deles. 
Sabe qual era a combinao do cofre do seu pai, Mister Lee? Verifiquei que se trata de um modelo um 
pouco antiquado. 
--A combinao est escrita num livrinho de apontamentos que ele trazia na algibeira do roupo. 
-- Muito bem. Verificaremos, daqui a bocado. Entretanto, talvez seja melhor interrogamos primeiro as 
restantes pessoas da famlia, pois  natural que as senhoras se queiram deitar. 
--Vamos, Alfred -- disse Lydia, levantando-se. -- Deseja que lhos mande? --Um de cada vez, Mistress 
Lee, se fizer favor. -- Com certeza. 
Encaminhou-se para a porta e o marido seguiu-a. De sbito, Alfred estacou, j  porta, e voltou-se. --Claro! -
- exclamou, aproximando-se de Poirot. --  Hercule Poirot! No sei onde tinha a cabea! De- via ter-me 
lembrado logo.. -- Falava rapidamente, em voz baixa e agitada. -- E uma sorte, uma verdadeira sorte o 
senhor estar aqui! Deve descobrir a verdade, Mister Poirot. No se poupe a despesas, eu pagarei tudo, mas 
descubra a verdade! O meu pobre pai.. assassinado  com to cruel brutalidade! Tem de descobrir, Mister 
Poirot, tem de descobrir pois quero que o meu pai seja vingado! 
--Garanto-lhe, Mister Lee, que estou disposto a fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para ajudar o 
coronel Johnson e o inspector Sugden -- respondeu-lhe  Poirot, serenamente. 
--Quero que trabalhe para mim -- disse-lhe Alfred. -- O meu pai tem de ser vingado. 
Comeou a tremer violentamente, e Lydia voltou atrs e deu-lhe o brao. --Vamos, Alfred. Temos de 
chamar os outros. Os olhos de Lydia fitaram-se nos de Poirot. Eram olhos que guardavam os seus 
segredos, que no vacilavam.    



90         91 
  

O detective mumurou, docemente: 
--Quem pensaria que o velho... 
--Cale-se! -- interrompeu-o. -- No diga asso! 
--Mas a senhora disse-o -- mumurou Poirot. 
--Bem sei.. lembro-me. Foi... horrvel. 
Depois saiu bruscamente, ao lado do marido. 

IX 

George Lee mostrou-se solene e correcto:   --Uma coisa horrvel -- declarou, a abanar a cabea a, 
pavorosa. S posso acreditar que tenha sido obra de um... enfim, de um louco! 
--  essa a sua teoria? -- perguntou, delicadamente, Johnson. 
--Sim, sem dvida. Um louco homicida, talvez fugido da clnica de doenas mentais prxima. 
--E como lhe parece que esse.. esse louco tenha entrado em casa, Mister Lee? -- perguntou-lhe o 
inspector Sugden. -- E como teria, depois, sado? 
-- Isso -- respondeu George, a abanar a cabea -- compete  Polcia descobrir. 
--Revistmos imediatamente a casa e verificmos que todas as janelas estavam fechadas e trancadas 
-- infomou o inspector. -- As portas, tanto a pncipal como a lateral, estavam fechadas  chave, e ningum 
poderia ter sado pela cozinha, sem ser visto pelo pes- soai. 
--Mas asso  absurdo! -- exclamou George Lee.  No tardar a dizer-me que o meu pai no pode, 
sequer, ter sido assassinado! 
 Foi assassinado, evidentemente. A esse respeito no existem dvidas. 
O chefe da Polcia pigarreou e reassumiu o interrogatrio: 
92 

-- Onde se encontrava, Mister Lee, na ocasio do crime? 
--Encontrava-me na casa de jantar. Foi logo depois de comemos... No, creio que me encontrava 
aqui, nesta sala, pois acabara de telefonar. 
--Tinha estado, ento, a telefonar? 
-- Sim, fiz uma chamada para o agente conservador de Westeringham, que  o meu crculo eleitoral. 
Um assunto urgente. 
--Foi depois disso que ouviu o grito? 
George Lee estremeceu ligeiramente. 
-- Foi. Muito desagradvel, arrepiou-me at  medula. Morreu numa espcie de estrangulamento gorgo- 
lejante. -- Tarou um leno e enxugou a testa, coberta de suor. -- Horrvel... 
--Correu, imediatamente, para o andar de cima? -- Corri. 
-- Viu os seus imos, Mister Alfred e Mister Harry Lee? 
--No. Creio que devem ter subido  minha frente. 
--Quando viu o seu pai pela ltima vez, Mister Lee? 
--Esta tarde. Fomos todos ao seu quarto. --No o viu depois disso?   -- No. 
Aps uma pausa, o chefe da Polcia perguntou: 
--Sabia que o seu pai guardava uma quantidade de valiosos diamantes em bruto, no cofre do quarto? 
George Lee acenou afimativamente e respondeu, pomposo: 
--Um procedimento muito insensato, como lhe disse multas vezes. Podiam-no ter assassinado por is- 
so... enfim, quero dizer... 
--Sabia que essas pedras desapareceram?  cortou o coronel. 
George abriu a boca, estupidamente, e os seus olhos bugalhudos tomaram-se fixos. 


93 


  

--Ento foi assassinado por causa delas? 
-- Deu pela sua falta e comunicou o caso  Polcia, algumas horas antes de morrer m infomou Johnson, 
devagar. 
m Mas ento... No compreendo... 
--Ns tambm no compreendemos... -- declarou, docemente, Hercule Poirot. 

X 


Harry Lee entrou no escritrio a andar de modo fanfarro. Poirot observou-o, de testa franzida, com a 
sensao de que j vira aquele homem, fosse onde fosse. Examinou-lhe as feies  o nariz aquilino, o porte 
arrogante da cabea, a linha do queixo -- e disse para consigo que existia uma semelhana inegvel entre 
Harry e o pai, embora aquele fosse um homem corpulento e Simeon Lee tivesse sido um indivduo de 
estatura mediana. 
Mas no foi s isso que notou. Apesar do seu ar fanfarro, Harry Lee estava nervoso. Disfarava, mas 
no havia dvida que se sentia ansioso. 
-- Bem, cavalheiros -- comeou , que lhes posso dizer? 
-- Agradecamos que nos dissesse tudo quanto seja susceptvel de esclarecer os acontecimentos 
desta noite  respondeu-lhe o coronel. 
--No sei absolutamente nada, a no ser que foi horrvel e de todo inesperado. 
-- Creio que regressou recentemente do estrangeiro, Mis, ter Lee?  perguntou-lhe Poirot. 
-- E verdade. Desembarquei em Inglaterra h uma semana. 
--Esteve ausente durante muito tempo? 
Harry Lee atirou o queixo para fora e riu-se. 
-- Acho melhor dizer-lhes j, pois algum acabar  por o fazer! Sou o filho prdigo, cavalheiros... H  
quase vinte anos que no punha os ps nesta casa. 
-- Mas regressou.. agora. Importa-se de nos dizer porqu? -- pediu Poirot. 
Harry respondeu logo, com a mesma aparente franqueza: 
--Continua a aplicar-se a velha parbola! Cansei- -me do folhelho que os sunos comem.. ou no 
comem. Esqueci-me como . Disse, ento, para comigo que o bezerro gordo seria uma variante agradvel, 
tanto mais que recebera uma carta do meu pai a sugerir- -me que regressasse a casa. Obedeci, e aqui 
estou. 
--Veio para uma estada longa ou curta? -- indagou Poirot. 
-- Regressei... para ficar! 
--O seu pai estava de acordo? 
--O velho ficou encantado. -- Riu-se outra vez, com os cantos dos olhos franzidos, de modo simptico. -
- Era muito aborrecido para ele, coitado, viver aqui com o Alfred! O meu imo  enfadonho... Muito honesto 
e tudo o mais, mas como companhia, um grande maador. O meu pai foi mariolo, nos seus tempos, e 
estava ansioso pela minha companhia. 
--E o seu imo e a mulher, ficaram contentes com a ideia de o senhor passar a morar aqui? -- 
perguntou Poirot, erguendo um pouco as sobrancelhas. 
--O Alfred? Oh, ficou lvido de raiva! Quanto a Lydia, no sei; provavelmente ficou aborrecida, por causa 
do marido.. embora eu esteja convencido de que, no fim, acabaria por se sentir satisfeita. Gosto dela,  
uma mulher maravilhosa. Sim, estou certo de que me entenderia bem com a Lydia. Mas com o Alfred a 
histria seria outra. -- Nova gargalhada. -- Teve  sempre uns cimes danados de mim! Foi toda a vida o filho 
bom e obediente, pacato e fiel, mas de que  lhe  valeria isso, no fim? Um pontap nos fundilhos, como 
acontece sempre ao rapaz bonzinho da famlia! 



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Acreditem, cavalheiros, pois sou eu que o digo: a virtude no compensa! 
Olhou de um rosto para o outro e prosseguiu:   -- Espero que a minha franqueza no os escandalizasse,  
pois parti do princpio de que procuram a verdade. De resto, acabaro por trazer  luz do dia toda a roupa 
suja da famflia e, por isso, achei melhor mostrar j a minha. No posso dizer que a morte do meu pai me 
tenha despedaado o corao (no fim de contas, desde rapaz que no via o velho demnio), mas a verdade 
 que era meu pai e foi assassinado. Estou empenhado em que seja vingado, h Afagou o queixo, a olh-los. 
-- A vingana apaixona-nos, na nossa fam-lia; nenhum Lee esquece com facilidade. Quero, por isso, que o 
assassino do meu pai seja descoberto e enforcado. 
-- Creio que pode confiar em que faremos o poss-vel para que tal suceda, Mister Lee -- disse Sugden. 
--Se o no fizerem, arranjarei maneira de fazer justia por minhas mos. 
--Isso significar, acaso, que tem alguma ideia acerca da identidade do assassino? -- apressou-se a 
perguntar o coronel. 
--No -- respondeu Harry Lee, a abanar, lentamente, a cabea. -- No tenho... Compreendem, foi uma 
grande surpresa, mas quanto mais penso no caso, menos me parece que tenha podido ser trabalho do 
exterior. 
--Ah! -- exclamou Sugden, a abanar a cabea. --Ora se no foi trabalho do exterior, foi algum da casa que 
o matou... Mas quem demnio poder ter sido? No consigo suspeitar dos criados. Tressilian trabalha c 
h mais de quarenta anos e o lacaio  meio idiota, nem pensar nisso. O Horbury  um tipo esper- to e 
manhoso, mas o mordomo disse-me que tinha ido ao cinema... Excluindo os criados e Stephen Farr, e por 
que diabo viria Stephen Farr da frica do Sul para assassinar uma pessoa que nem sequer conhecia?, s 
nos resta a famlia. Mas, confesso, no me parece que nenhum de ns fosse capaz de fazer tal coisa. O 
Alfred? Adorava o pai. O George? No teria coragem. O David? Foi sempre um sonhador e desmaiaria se 
visse sangrar nem que fosse um dedo seu. As mulheres? Cortar uma garganta a sangue-frio no  trabalho 
que uma mulher, faa. Quem, ento? Macacos me mordam se sei! E, no entanto, deveras perturbador. 
O coronel Johnson pigarreou de novo -- era um ti- 
que das suas funes oficiais -- e perguntou: --Quando viu o seu pai pela ltima vez?   --Depois do ch. Ele 
acabava de ter uma pega com o Alfred, por causa deste vosso humilde criado... O velho adorava arranjar 
encrencas... Na minha opinio, foi por isso que no falou aos outros na minha vinda: queria assistir ao 
espectculo, quando eu aparecesse  inesperadamente! Foi por isso, tambm, que falou em modificar o 
testamento. 
Poirot mexeu-se na cadeira, imperceptivelmente, e perguntoulhe: 
--Quer dizer que o seu pai falou no testamento? -- A frente de todos ns e a observar-nos como um gato, 
para no lhe escaparem as nossas reaces. Telefonou ao advogado e pediu-lhe que o viesse visitar, 
depois do Natal, para tratarem disso. 
-- Que modificaes tencionava fazer? -- inquiriu Poirot. 
-- No nos disse! -- exclamou Harry,  rir. -- Era uma raposa muito velha e muito sabida! Mas imagino... 
talvez seja melhor dizer que esperav.. que as modificaes se destinavam a beneficiar este vosso humilde 
criado. Creio que me exclura dos testamentos anteriores e que tencionava, agora, remediar isso. Foi uma 
notcia desagradvel para os outros, tanto mais que havia, tambm, a Pilar. O velhote afeioara-se  
pequena e estou convencido de que tencionava deixarlhe qualquer coisa boa. Ainda no a viram?  a minha 
sobrinha espanhola...  uma bonita criatura, com a encan-  







96         97 
     

tadora impetuosidade do Sul... e a sua crueldade. Quem me dera no ser apenas seu tio! 
--Disse que o seu pai se lhe afeioou? 
--Sim, ela soube conquistar o velhote... Passava muito tempo sentada com ele, l em cima... Aposto 
que sabia o que queria! Bem, mas ele morreu e, agora, i no pode modificar o testamento a seu favor.. 
nem to-pouco a meu. Diabo de sorte! 
Franziu a testa, calou-se, e depois prosseguiu, em tom diferente: 
--Mas, com tudo isto, desviei-me do principal. Queriam saber quando vi o meu pai pela ltima vez, no 
era? Como j lhes disse, foi depois do ch.. talvez um pouco depois das seis. O velho estava bem- -
disposto, embora um bocadinho cansado. Deixei-o com o Horbury e nunca mais o vi. 
--Onde estava, quando ele morreu? 
-- Na casa de jantar, com o meu imo Alfred. Tivemos uma sesso muito pouco hamoniosa, depois do 
jantar, e discutamos com certo calor quando ouvimos o barulho, l em cima. Dir-se-ia que estavam a lutar 
dez homens! Depois o pobre velho gritou... Foi como se estivessem a matar um porco! O Alfred ficou petri- 
ficado, de boca aberta. Dei-lhe um safano, para o arrancar ao marasmo, e fomos l acima. A porta estava 
fechada  chave e tivemos de a arrombar, o que no foi nada fcil. No consigo perceber como demnio a 
porta podia estar fechada por dentro! No estava ningum no quarto, alm do pai, e ningum poderia fugir 
pelas janelas. 
m A porta foi fechada do lado de fora  declarou o inspector Sugden. 
 O qu?! -- exclamou Harry. -- Mas eu posso jurar que a chave estava do lado de dentro! 
m Reparou nesse pomenor? -- inquiriu Poirot. 
 Sou obs.ervador -- replicou Harry, em tom agressivo. -- E um hbito meu. 
Olhou de uns para os outros, irritado, e perguntou: 
98 

--Desejam saber mais alguma coisa, cavalheiros? Johnson abanou a cabea. 
-- Obrigado, Mister Lee, mas por agora no desejamos mais nada. Importa-se de dizer a outra pessoa 
que en.tre? 
-- As ordens. 
Dirigiu-se para a porta e saiu sem olhar para trs. 
Os trs homens entreolharam-se e o coronel perguntou: 
--Que me diz, Sugden? O inspector abanou a cabea, duvidoso, e respondeu: 
--Tem medo de qualquer coisa... Gostava de saber o qu... 

XI 

Magdalene Lee parou um instante, no limiar da porta, e passou a mo comprida e esguia pelos cabelos 
brilhantes e platinados. O vestido de veludo verde- -folha ajustava-se s linhas delicadas do seu corpo, e 
Magdalene parecia muito jovem e um pouco assus- tada. 
Os trs homens olharam-na. Os olhos de Johnson exprimiam uma admirao sbita e surpreendida; os 
do inspector traduziam, apenas, a impacincia de um homem desejoso de continuar com o seu trabalho, e 
os de Hercule Poirot denunciavam um apreo profundo -- que no passou despercebido  jovem --, mas um 
apreo inspirado pela maneira hbil como ela sabia usar a sua beleza, e no pela beleza em si. No 
passou pela cabea de Magdalene Lee que o detective pensas- se, naquele momento: 
Jolie mannequin, la petite. Elle se pose tout naturel- lement. Elle a les yeux dures. 


99   


   



Muitssimo atraente, pensou o coronel. O George Lee ter complicaes com ela, se no se precatar... 
Anda de olho nos homens. 
E o inspector Sugden: 
Cabecinha oca e vaidosa. Espero que nos possamos despachar depressa com ela. 
O coronel Johnson levantou-se e convidou: 
-- Queira fazer o favor de se sentar, Mistress Lee. 
Deixe-me ver, a senhora ... 
--Mistress George Lee. 
Aceitou a cadeira com um simptico sorriso de agradecimento e um olhar que parecia dizer: 
Embora sejas homem e polcia, no s mau de todo... 
O sorriso abrangia Poirot -- os estrangeiros eram to susceptveis, no que dizia respeito a mulheres! 
Quanto ao inspector Sugden, no lhe interessava. 
--Foi horrvel, o que sucedeu! -- mumurou, a torcer as mos com aparente angstia. -- Estou to as- 
sustada! 
-- No h motivo para isso, Mistress Lee -- redarguiu  o coronel Johnson, em tom bondoso, mas que 
no exclua certa brusquido, m Foi uma surpresa desagradvel, sem dvida, mas j l vai. Queremos 
apenas que nos descreva o que se passou. 
-- Mas eu no sei nada do que se passou! -- exclamou, agitada. -- Palavra que no sei! 
O chefe da Polcia semicerrou os olhos e depois disse, docemente: 
--Pois claro que no sabe. 
-- Chegmos ontem, apenas. O George obrigou-me   a vir c passar o Natal! Quem me dera que no 
tivssemos vindo! Tenho a certeza de que nunca mais me sentirei como antes. 
--Sim, foi muito desagradvel. 
-- Mal conheo a famlia do George, compreende? S vira Mister Lee uma ou duas vezes, no nosso 
casamento e de outra vez. Ao Alfred e  Lydia vi-os mais vezes, mas mesmo assim so-me todos 
praticamente desconhecidos. 
Arvorou de novo a expresso de criana assustada e de olhar dilatado, e de novo Hercule Poirot a 
admirou e pensou, para consigo: 
Elle joue trs bien la comdie, cette petite..  --Sim, sim -- concordou o coronel Johnson. -- Diga-me s 
quando viu o seu sogro pela ltima vez, vivo? 
--Oh! Vi-o esta tarde pela ltima vez. Foi terrvel! 
--Terrvel? Porqu? -- inquiriu o coronel.   --Estavam to irritados!   --Quem? Quem estava irritado? 
--Oh, todos! No me retiro ao George... O pai 
no lhe disse nada a ele. Mas os outros todos. --Que sucedeu, exactamente? 
--Quando chegmos, ele mandara-nos chamar a todos, estava a falar ao telefone com o seu advogado, 
acerca do testamento. Depois disse ao Alfred que o achava com uma cara muito sria... Creio que era por 
causa do Harry vir viver para c; isso transtomara muito o Alfred, suponho. Compreende, h anos o Harry 
praticou uma aco muito feia... Depois o meu sogro disse qualquer coisa acerca da mulher (morreu h 
muitos anos), afimou que ela tinha miolos de piolho, e o David levantou-se e olhou-o como se o quisesse 
matar... Oh! -- calou-se, de sbito, de olhos espantados.  -- No era isto que queria dizer, de modo 
nenhum... 
m Compreendo, no se preocupe -- tranquilizou-a o coronel. -- Foi uma fora de expresso. 
--Hilda,  a mulher do David, acalmou-o e... bem, creio que no houve mais nada. Mister Lee disse que 
no queria ver mais ningum, esta tarde, e viemo- -nos todos embora. 
--Foi essa a ltima vez que o viu? 
--Foi. At... at... 



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--Compreendo -- repetiu o coronel, ao v-la estremecer.
 -- Onde se encontrava na altura do crime? 
--Deixe-me ver... Creio que estava na sala. 
--No tem a certeza? Magdalene pestanejou, ocultando os olhos com as plpebras. 
-- Oh, que estupidez a minha! Tinha vindo telefonar. Estas coisas confundem-nos tanto... 
--Diz qpe veio telefonar? A este escritrio? -- Sim. E este o nico telefone, excepto o de l de cima, do 
quarto do meu sogro. 
--Esteve aqui mais algum consigo? -- perguntoulhe  o inspector. 
 Magdalene abriu muito os-olhos, como sea pergunta a surpreendesse. 
--Oh, no! Estive sozinha. 
--Demorou-se muito tempo? -- Um pouco. No  muito fcil fazer uma chamada,  noite. 
--Foi um telefonema interurbano? 
--Sim, para Westeringham. -- Compreendo. E depois? 
-- Depois ouvi aquele horrvel grito e toda a gente a correr... A porta estava fechada  chave e teve de 
ser arrombada. Oh, que pesadelo,t Hei-de lembrar-me sempre! 
-- Esquecer -- afimou o coronel, maquinalmente.  -- Sabia que o seu sogro tinha uma quantidade de 
valiosos diamantes no cofre? 
-- No. Tinha? -- redarguiu, em tom francamente emocionado. -- Diamantes verdadeiros? 
--Diamantes no valor de cerca de dez mil libras   -- esclareceu Poirot. 
-- Oh! -- exclamou, e a palavra continha em si toda a essncia da cupidez feminina. 
--Bem, creio que chega, por agora -- decidiu Johnson. -- No a incomodamos mais, Mistress Lee. 
-- Oh, obrigada! 
Levantou-se, sorriu a Johnson e a Poirot, como uma rapariguinha agradecida, e saiu de cabea 
levantada e com as palmas das mos um pouco viradas para fora. 
--Importa-se de pedir ao seu cunhado, Mister David Lee, que venha c? -- perguntou-lhe o coronel. 
Depois fechou a porta e voltou para junto dos outros dois. 
--Ento, que me dizem? -- inquiriu. -- Parece que estamos a chegar a qualquer coisa! Repararam, no 
repararam? George Lee estava a telefonar quando ouviu o grito! A mulher estava a telefonar quando ouviu o 
grito! No pode ser, de maneira nenhuma. Que  lhe  parece, Sugden? 
O inspector respondeu-lhe, devagar: 
--No desejo dizer nada que seja ofensivo para a senhora, mas creio que embora pertena quele tipo 
que tem uma habilidade especial para apanhar dinheiro a um homem, no seria capaz de lhe cortar a 
garganta. No se coadunaria nada com a sua maneira de ser. 
-- Ah, mon vieux, nunca se sabe! -- exclamou Poi- rot, em voz baixa. 
O chefe da Polcia virou-se para ele e perguntou-lhe:    
--E voc, Poirot, que pensa? 
Hercule Poirot inclinou-se para a frente, endireitou o mata-borro e sacudiu um grozinho de poeira de 
um castial. 
-- Parece-me que o carcter do falecido Mister Simeon Lee comea a delinear-se.  a, creio, que 
reside toda a importncia deste caso, no carcter do assassinado.    
-- No compreendo, Mister Poirot -- confessou o inspector, intrigado. -- Que tem o carcter do 
assassinado  a ver com o assassino? 
-- O carcter da vtima tem sempre qualquer coisa a ver com o seu assassino ou a sua assassina -- 
decla- 



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roll Poirot, em tom sonhador. -- O esprito franco e inocente de Desdmona foi a causa directa da sua 
morte. Uma mulher mais desconfiada teria percebido as maquinaes de Iago e t-las-ia frustrado muito 
mais cedo. A imundcie de Marat suscitou o seu fim, no banho, e o temperamento de Mercutio foi o 
causador da sua morte  ponta da espada. 
O coronel Johnson puxou o bigode. --Aonde quer chegar, ao certo, Poirot? --Quero apenas salientar que por 
Simeon Lee pertencer a deteminado tipo de homem, desencadeou certas foras das quais no fim resultou a 
sua morte. 
--No acha, ento, que os diamantes esto relacionados com o assassnio? 
Poirot sorriu da sincera perplexidade estampada no rosto de Johnson. 
 Mon cher, era devido ao seu carcter peculiar que Simeon Lee tinha dez mil libras de diamantes por 
cortar no cofre! Nem todos os homens procederiam assim. 
--Tem razo, Mister Poirot -- disse o inspector Sugden, a acenar a cabea com o ar de um homem que 
compreendia, finalmente, aonde queria chegar outro com quem conversava. -- Mister Lee era uma pessoa 
singular... Guardava os diamantes no quarto para lhes poder mexer quando lhe apetecesse e reviver, assm, 
o passado. Deve ter sido por isso que nunca os mandou talhar. 
-- Precisamente! -- exclamou Poirot.  Vejo que  muito perspicaz, inspector. 
Sugden pareceu duvidar do cumprimento, mas o coronel interveio: 
 H ainda outra coisa, Poirot. No sei se notou...   --Mais oui! Sei o que quer dizer, meu caro. Mistress 
George Lee disse mais do que sups e deu-nos uma ideia muito clara do que foi aquela ltima reunio de 
famlia. Infomou-nos, oh, com tanta ingenuidade!, 
104 

que Alfred estava irritado com o pai e que David pare- cia que o queria matar... Ambas as declaraes 
correspondem, creio,  verdade, mas pemitem-nos tirar as nossas prprias concluses. Por que motivo 
reuniu Simeon Lee a famlia? Porque chegaram os filhos e as noras precisamente quando ele telefonava ao 
advogado?   Parbleu, no foi uma coincidncia! Ele queria que eles ouvissem! O pobre velho, praticamente 
amarrado a uma cadeira, j no podia divertir-se como em novo. Por isso inventou um novo entretenimento: 
divertia-se   a brincar com a cupidez e a ganncia da natureza hu- mana e, tambm, com as suas emoes 
e paixes. Mas esta concluso leva-nos a uma outra: no jogo, para si delicioso, de espicaar a ganncia e 
as emoes dos seus filhos, no poupava ningum. Por isso, logicamente, deve ter dado tambm uma 
ferroada a Mister George Lee, assim como aos outros! Claro que Mistress George Lee teve o cuidado de se 
calar a esse respeito... Creio mesmo que ela prpria ter sido alvo de uma ou duas setazinhas 
envenenadas.. e que em breve saberemos, pelos outros membros da famlia, o que disse Simeon Lee ao 
seu filho George e  mulher deste... 
Calou-se, pois a porta abrira-se e aparecera David Lee. 

XII 

David Lee estava muito senhor de si e parecia calmo -- mais, at, do que seria natural. Aproximou-se dos 
trs homens, puxou uma cadeira  sentou-se, a olhar, grave  interrogador, para o coronel Johnson. A luz 
elctrica punha reflexos na madeixa de cabelo louro que lhe caa para a testa e salientava-lhe as linhas 
sensitivas das mas do rosto. Parecia absurda- 


105 


  

mente jovem para ser filho do velho mirrado que jazia no andar de cima. 
--Que lhes posso dizer, cavalheiros?   --Consta-me, Mister Lee, que se efectuou uma espcie de reunio 
de famflia no quarto do seu pai, esta tarde -- comeou o coronel. 
-- Sim, mas no foi nada fomal. Quero dizer, no 
se tratou de um conselho de famflia ou coisa parecida.   --O que se passou, ao certo? 
-- O meu pai estava com uma disposio irritante   -- respondeu David, calmamente. -- Era velho e 
doente e, por isso, tnhamos de lhe dar desconto... Parece que nos reunira all para.. para dar largas ao seu 
despeito. 
--Lembra-se do que ele disse? 
-- Na realidade, s disse tolices. Declarou que nenhum de ns prestava para nada, que no havia um 
nico homem na famflia e que Pilar,  a minha sobri- 
nha espanhola, valia dois de ns. Disse... 
Calou-se, mas Poirot insistiu: 
-- Por favor, Mister Lee, continue. Repita as palavras exactas, se puder. 
--Falou muito grosseiramente -- prosseguiu David, relutante. -- Declarou que, algures no mundo, devia 
ter filhos melhores do que ns, embora nascidos sem a bno do casamento... 
O seu rosto sensvel traduzia o desagrado que lhe causavam as palavras que repetia. O inspector 
Sugden levantou a cabea, subitamente alerta, inclinou-se para a frente e perguntou: 
-- O seu pai disse alguma coisa que se relacionasse especialmente com o seu imo, Mister George 
Lee? 
--Com o George? No me lembro... Ah, sim! Creio que o aconselhou a reduzir as despesas, pois te- ria 
de lhe diminuir a penso. George ficou muito transtomado e tomou-se encamado como um peru... 
Barafustou, que no se podia govemar com menos, e o meu pai replicou-lhe, friamente, que no teria outro 
106 

remdio seno faz-lo. Aconselhou a mulher a ajud-lo a economizar; uma piada injusta, pois o George foi 
sempre econmico, quase forreta. Magdalene, porm, deve ser um bocado gastadora, segundo me parece.  
Tem  gostos extravagantes. 
--Claro que ela tambm ficou aborrecida? -- inquiriu Poirot. 
-- Ficou, sem dvida. Alm disso, o meu pai refe- riu-se grosseiramente ao facto de ela ter vivido com 
um oficial da Marinha. Referia-se ao pai, evidentemente, mas exprimiu-se de uma maneira que tomou o 
sentido dbio. A Magdalene tomou-se escarlate, o que no lhe censuro. 
-- O seu pai mencionou a sua falecida mulher, ou seja, a sua me, Mister Lee? -- perguntou Poirot. 
O sangue subiu, em ondas, s tmporas de David. Cerrou as mos com fora, em cima da mesa, mas 
nem assim conseguia evitar que tremessem ligeiramente. 
--Mencionou, sim -- respondeu, em voz estran- gulada. -- Insultou-a. 
--Que disse ele? -- inquiriu o coronel. 
-- No me lembro -- explicou David, bruscamente.   -- Foi uma referncia depreciativa. 
--A sua me j morreu h alguns anos? -- perguntou, docemente, Poirot. 
--Morreu quando eu era rapaz.   --No foi, talvez, muito feliz, aqui? David soltou uma gargalhada de 
escmio. --Quem podia ser feliz com um homem como o meu pai? A minha me era uma santa e morreu 
com o corao despedaado! 
-- O seu pai sofreu com a sua morte? -- insistiu Poirot. 
-- Ignoro. Sa de casa. -- Fez uma pausa, antes de acrescentar: -- Talvez o senhor no saiba, mas 
quando vim, agora, no via o meu pai h quase vinte anos. No posso, por isso, dizer grande coisa acerca 
dos seus hbitos, dos seus inimigos ou do que se passava aqui        . 


1O7   





 

--Sabia que o seu pai tinha no cofre do quarto uma quantidade de diamantes valiosos? -- perguntou o 
coronel. 
-- Tinha? -- retorquiu, indiferente. -- Parece-me idiota. 
--Quer fazer o favor de descrever os seus movimentos? 
-- Os meus? Ah, sim! Abandonei a mesa do jantar relativamente cedo. Aborrece-me o hbito de ficar sen- 
tado, a saborear vinho do Porto, e alm disso via perfeitamente que o Alfred e o Harry se estavam a 
preparar para uma discusso. Detesto discusses. Le- vantei-me, por isso, e fui para a sala de msica 
tocar piano. 
-- A sala de msica fica ao lado da sala, no  verdade? -- quis saber Poirot. 
--Fica. Toquei durante algum tempo, at.. at  aquilo acontecer. 
--Que foi que ouviu, ao certo? -- Um rudo distante de mveis a cair, algures no andar de cima, e depois um 
grito pavoroso. -- Cerrou outra vez as mos. -- Como uma alma no Infemo. Meu Deus, foi terrvel! 
--Estava sozinho na sala de msica? -- pergun- tou-lhe Johnson. 
-- No. Minha mulher, Hilda, estava comigo; viera da sala. Subimos... subimos com os outros. -- Hesitou, 
antes de perguntar, nervosamente: -- No querem que descreva o que vi l em cima, pois no? 
-- No, no  preciso -- respondeu-lhe o coronel. -- Obrigado, Mister Lee, no desejamos mais nada. No 
sabe, suponho, de algum que pudesse querer assassinar o seu pai? 
--Creio que muita gente o desejaria! -- respondeu, ousadamente. -- No entanto, no posso indicar ningum 
em particular. 
Saiu, apressado, e bateu com a porta. 
XIII 


O coronel Johnson mal tivera tempo de pigarrear quando a porta se abriu outra vez e Hilda entrou. 
Hercule Poirot olhou-a com interesse, obrigado a admitir para consigo mesmo que as mulheres com as 
quais os Lee tinham casado proporcionaram interessante motivo de estudo. A inteligncia viva e a graa de 
galgo de Lydia; os ares atrevidos e os encantos de Magdalene, e agora a fora slida e confortvel de Hil- 
da. Percebeu que era mais nova do que demonstravam o penteado deselegante e o vesturio fora de moda. 
Nos seus cabelos castanhos no havia ainda a brancura das cs, e os seus olhos cor de avel brilhavam 
na sua cara redonda como faris de bondade. Era, pareceu-lhe,  uma boa mulher. 
O coronel Johnson falava com ela em tom muito amvel: 
--... uma grande tenso para todos vs -- dizia.   -- Deduzi, pelas declaraes do seu marido, Mistress 
Lee, que foi esta a primeira vez que veio a Gorston Hall? 
Hilda acenou com a cabea. 
--Mas j conhecia o seu sogro? 
-- No -- respondeu Hilda, em voz agradvel. -- Casmos pouco depois de o David sair de casa, e foi 
sempre desejo do meu marido no ter nada a ver com a famlia. At agora, no vira nenhum dos seus 
parentes. 
--A que se deveu, ento, esta visita? 
--O meu sogro escreveu a David, a falar na sua idade e no seu desejo de ter todos os filhos consigo, 
neste Natal. 
--E o seu marido correspondeu ao apelo? 
--Creio que aceitou apenas por minha causa. Eu... interpretei mal a situao. 
--Importa-se de se explicar com um pouco mais 



108         109 
 

de clareza, minha senhora? -- pediu Poirot. -- Penso que nos poder dizer coisas de interesse. 
Hilda voltou-se imediatamente para ele e respon- deu-lhe, sem hesitar: 
-- Nessa altura, nunca vira o meu sogro e no fa- zia ideia de qual era o verdadeiro motivo do seu 
convite. Pensei que estava velho, que talvez se sentisse s e desejasse sinceramente reconciliar-se com 
todos os seus filhos. 
--E qual era, na sua opinio, o seu verdadeiro motivo, minha senhora? 
Desta vez, Hilda hesitou um momento, antes de responder, em voz lenta: 
--Estou agora absolutamente convencida de que, em vez de paz, o que o meu sogro na realidade 
preten- 
dia era fomentar conflitos. 
--Em que sentido? 
-- Divertia-o apelar para os piores instintos da natureza humana. Havia nele.. como explicar?.. havia 
nele uma espcie de travessura diablica, que o levava a querer ver todos os membros da famflia s turfas 
uns com os outros. 
--E conseguia-o? -- perguntou Johnson.   --Oh, sim, conseguia-o! 
  Infomaram-nos de uma cena verificada esta tarde, minha senhora -- prosseguiu. -- Foi, parece- 
-me, uma cena deveras violenta. 
Hilda baixou a cabea. 
--Quer fazer o favor de no-la descrever, com a mxima veracidade possvel? 
Mrs. David Lee pensou um instante, antes de comear: 
 Quando chegmos ao quarto do meu sogro, en- contrmo-lo a telefonar... 
--Para o seu advogado, presumo? 
 Sim. Pedia a Mister... creio que era Charlton, mas no me lembro bem. Pedia ao advogado que o vi- 
sitasse, pois desejava fazer novo testamento. O antigo, dizia, estava desactualizado. 
110 

-- Agora agradecia-lhe que pensasse bem, antes de responder, minha senhora. Na sua opinio, o seu 
sogro procedeu de maneira a que todos ouvissem essa conversa, ou tratou-se, apenas, de um acaso? 
-- Tenho quase a certeza de que ele queria que ouvssemos. 
-- Com o objectivo de suscitar dvidas e suspeitas 
entre os familiares? 
-- Sim. 
--Portanto,  possvel que no pretendesse, se- 
quer, modificar o testamento? 
Hilda voltou a hesitar. 
-- No, creio que nesse aspecto estava a ser sincero. No me admiraria se desejasse, de facto, 
elaborar novo testamento, mas tenho a certeza de que lhe cau- sava prazer sublinhar que assim era. 
-- Minha senhora -- prosseguiu Poirot --, no tenho qualquer situao oficial, neste caso, e as minhas 
perguntas no so, talvez, as que uma autoridade inglesa faria, em semelhantes circunstncias. Sinto, no 
entanto, um grande desejo de saber quais seriam, na sua opinio, os temos do novo testamento. Note que 
no lhe pergunto o que sabe, mas, sim, o que pensa.   Les femmes nunca so lentas a fomar opinies, 
Dieu merci. 
Hilda Lee esboou um sorriso. 
--No me importo de dizer o que penso. A im  do meu marido, Jennifer, casou com um espanhol, Juan 
Est.ravados, e a filha de ambos, Pilar, chegou h  pouco. E uma rapariga encantadora e, para mais, a nica 
neta na famflia. O meu sogro ficou encantado com ela e, na minha opinio, desejava deixar-lhe uma 
importncia considervel, no novo testamento. Prova- 
velmente legara-lhe pouca coisa, ou nada, no antigo. --Conhece a sua cunhada? 
--No, nunca a conheci. Creio que o seu marido espanhol morreu em circunstncias trgicas, pouco 
tempo depois do casamento, e ela prpria faleceu h 


111 


  



um ano. Pilar ficou rf e, por isso, Mister Lee chamou-a,  para viver com ele em Inglaterra. 
-- E os outros membros da famflia aceitaram bem a sua vinda? 
-- Creio que todos, gostam dela -- respondeu Hil- da, serenamente. -- E agradvel ter algum jovem e 
alegre c em casa. 
--E ela, parece gostar de c estar? 
-- No sei... -- respondeu Mrs. David Lee, devagar. -- Tudo isto deve parecer frio e estranho a uma 
rapariga criada no Sul, em Espanha. 
--Presentemente, tambm no deve ser muito agradvel estar em Espanha -- comentou o coronel. -- 
Agora, Mistress Lee, gostaramos que nos revelasse a conversa desta tarde. 
-- Peo desculpa -- mumurou Poirot. -- Desviei- -me do assunto. 
-- Quando o meu sogro acabou de telefonar, olhou para ns, riu-se e disse que estvamos todos com 
cara de caso. Depois acrescentou que estava fatigado e se deitaria cedo, e que no precisvamos de lhe ir 
dar as boas-noites. Queria estar fresco no dia de Natal, segundo afimou. A seguir... -- franziu a testa, num 
esforo de memria -- creio que disse ser preciso per- tencer a uma famflia numerosa para apreciar o Natal, 
e comeou a falar de dinheiro. Declarou que gastaria mais com o govemo da casa, de futuro, e disse ao 
George e  Magdalene que teriam de economizar e que ela devia fazer os prprios vestidos. Uma ideia 
muito antiquada, creio, e no me admiro que a minha cunhada ficsse aborrecida. O meu sogro 
acrescentou que a sua mulher fora habilidosa, com a agulha... 
--Foi s isso que ele disse acerca da mulher? -- 
perguntou Poirot, suavemente. 
Hilda corou. 
--Fez uma aluso depreciativa  sua inteligncia. O meu marido ficou deprimido, pois foi sempre muito 
dedicado  me. Depois, de sbito, Mister Lee desatou a gritar com todos ns, fora de si... Claro que 
compreendo o que sentia... 
-- Que sentia ele, minha senhora? -- interrompeu- -a Poirot, sempre no mesmo tom suave. 
--Sentia-se decepcionado, evidentemente -- respondeu, fitando-o com os seus olhos tranquilos. -- 
Decepcionava-o no haver netos, rapazes, quero dizer, novos Lee para continuarem a famlia. Essa dor 
oculta deve t-lo atomentado durante muito tempo e, de sbito, o pobre velho no pde suport-la e vingou- 
-se desabafando a sua clera contra os filhos, a quem apodou de piegas ou coisa parecida. Tive pena dele, 
ento, pois compreendi como o seu orgulho devia es- 
tar ferido por essa frustrao. 
-- E depois? 
--E depois samos todos. --Foi a ltima vez que o viu? Hilda limitou-se a inclinar a cabea. --Onde estava, 
na ocasio do crime? 
--Estava com o meu marido na sala de msica. 
Ele tocava para mim. 
-- E depois? 
--Ouvimos mesas e cadeiras a cair, l em cima, um rebulio de luta.. e a seguir aquele grito horrvel, 
quando lhe cortaram a garganta. 
--Foi assim um grito to horrvel? -- perguntou Poirot. -- Como... -- fez uma pausa -- ...como uma alma 
no Infemo? 
--Foi pior do que isso! 
--Que quer dizer, minha senhora? 
--Parecia um grito de algum que no tinha alma...   era desumano, como o berro de uma fera... 
--Quer dizer.. que o julgou, minha senhora? -- perguntou-lhe Poirot, gravemente. 
Hilda levantou a mo, subitamente deprimida, e baixou os olhos. 



112         113 
  

XIV 

Pilar entrou no escritrio com ar cauteloso de um animal que suspeita da existncia de uma amadilha. 
Olhou de um lado para o outro, parecendo mais desconfiada do que assustada. 
O coronel Johnson levantou-se e ofereceu-lhe uma cadeira. 
--Entende ingls, suponho, Miss Estravados? -- Com certeza!  exclamou Pilar, de olhos muito abertos. -- A 
minha me era inglesa.. e eu prpria sou muito inglesa, tambm! 
O coronel Johnson entreabriu os lbios num sorriso tnue, ao observar-lhe o cabelo preto e lustroso, os 
arrogantes olhos negros e a boca arqueada e vemelha. Muito inglesa! Qualificativo incongruente, para uma 
rapariga como Pilar Estravados. 
 Mister Lee era seu av, mandouoa vir de Espa- nha e a menina chegou h poucos dias. Foi assim? 
--Foi. No imagina as aventuras por que passei, para sair de Espanha! Caiu uma bomba do ar e o 
motorista morreu. Onde tivera a cabea s havia sangue... Eu no sabia guiar; por isso tive de andar a p  
durante muito tempo.. e no gosto nada de andar a p. Nem queiram saber como fiquei com os ps! 
 Apesar disso, chegou -- disse o coronel, a sor- rir. -- A sua me falou-lhe muito do seu av? 
--Oh, sim! -- exclamou, a acenar alegremente com a cabea. -- Disse-me que ele era um velho 
demnio. 
Hercule Poirot sorriu, por seu tumo, e perguntou- -lhe: 
-- E que pensou a mademoiselle dele, quando o conheceu? 
-- Era muito, muito velho, estava sempre sentado numa cadeira e tinha o rosto todo mirradinho... Mas, 
apesar disso, gostava dele. Creio que, quando era no- 
114 

vo, devia ter sido muito atraente... Assim como o senhor -- acrescentou, apontando o inspector Sugden e 
demorando o olhar, com ingnuo prazer, no rosto do polcia, que se tomara escarlate. 
O coronel Johnson reprimiu uma gargalhada. Aquela era uma das poucas ocasies em que vira o 
inspector aparvalhado. 
--Mas, claro, no podia ter sido to forte e alto como o senhor -- acrescentou Pilar, com pena. 
-- Gosta, ento, de homens altos e fortes, seorita?   -- perguntou-lhe Poirot, a suspirar. 
--Oh, sim! Gosto que os homens sejam altos, tenham os ombros largos e sejam muito, muito fortes! 
--Viu muitas vezes o seu av, depois de chegar? -- quis saber o inspector, mudando de assunto. 
--Oh, sim! Sentava-me com ele, no quarto, e o av contava-me coisas... Contou-me que fora 
um.homem muito perverso e todas as coisas que fez na Africa do Sul. 
--Disse-lhe alguma vez que tinha diamantes no cofre do quarto? 
--Mostrou-mos, mas no pareciam diamantes. Eram feios, mesmo, e pareciam calhaus. 
-- Mostrou-lhe, ento, os diamantes, hem? -- in- 
dagou o inspector, secamente. 
-- Mostrou. 
-- Deu-lhe algum? 
Pilar abanou a cabea. 
--No, no deu. Pensei que talvez algum dia me desse, se fosse simptica com ele e lhe fizesse muita 
companhia. Os velhotes gostam muito de raparigas novas, como sabem... 
--Sabe que esses diamantes foram roubados? -- perguntou-lhe o coronel. 
--Roubados?  repetiu, espantada. 
 Faz alguma ideia de quem lhos poderia roubar? --Oh, sim!. O Horbury! 
--O Horbury? Refere-se ao criado? 


115 


  



-- Retiro. 
--Porque pensa isso? 
-- Porque ele tem cara de ladro. Vira os olhos assim, de lado para lado, anda sorrateiramente e escuta 
s portas. Lembra um gato, e todos os gatos so la- dres. 
-- Hum... fiquemos por aqui a este respeito -- decidiu o coronel. -- Constou-me que esta tarde, a fam-lia 
esteve toda no quarto do seu av e que trocaram alguma.s palavras desagradveis. 
-- E verdade! -- exclamou a rapariga, a sorrir e a acenar com a cabea. -- Foi to cmico! O av irritou- -
os a todos a valer! 
--E a si agradou-lhe, hem? 
--Agradou. Gosto de ver pessoas irritadas, gosto mesmo muito. Mas aqui em Inglaterra no se irritam 
como em Espanha. Em Espanha sacam das navalhas, praguejam e gritam; em Inglaterra no fazem nada, 
ficam s muito coradas e calam a boca. 
--Lembra-se do que disseram, ento? 
-- No tenho bem a certeza... O av disse que eles no prestavam, que no tinham filhos, e que eu era 
melhor do que eles. Gostava muito de mim. 
--Ouviu-o dizer alguma coisa acerca de dinheiro ou testamento? 
--Testamento... No me parece.. no me lembro. --Que se passou? 
--Foram-se todos embora, excepto Hilda, a gor- 
da, mulher do David. Essa ficou para trs. 
-- Ficou? 
-- Ficou. O marido estava com uma cara muito esquisita, todo a tremer e muito branco. At parecia que 
estava doente. 
-- E depois? 
--Fui-me embora e encontrei o Stephen. Dan-mos ao som do gramofone. 
-- Stephen Farr? 
-- Sim.  da frica do Sul, filho de um scio do av. Tambm  muito atraente... Muito moreno e forte, 
com os olhos bonitos. 
--Onde estava na ocasio do crime?   --Perguntou onde eu estava? -- Sim. 
--Primeiro fui para a sala com a Lydia e depois subi ao meu quarto, para retocar a cara. Ia danar 
outra vez com o Stephen. De sbito, muito distante, ouvi um grito e toda a gente a correr; por isso, corri 
tambm. Estavam a tentar arrombar a porta do av. O Harry e o Stephen conseguiram-no, por tim. So os 
dois altos e fortes. 
-- E depois? 
-- E depois.. a porta abriu-se.. e olhmos todos. Oh, que espectculo! Tudo partido e derrubado e o av 
cado num charco de sangue, com a garganta cor- tada, assim, -- exemplificou, com um gesto dramtico, 
no prprio pescoo --, mesmo debaixo da orelha. 
Calou-se, com o ar de quem apreciara o que dissera, e o coronel perguntoulhe: 
--O sangue no a incomodou? 
--No, porqu? Geralmente h sempre sangue, quando matam algum. Mas havia tanto sangue, por 
toda a parte! 
--Algum disse alguma coisa? -- perguntou Poirot. 
-- O David disse uma coisa esquisita... O que foi, Pilar? Ah, sim! Os moinhos de Deus.., foi o que 
ele disse. Os moinhos de Deus... -- repetiu, espaando as palavras e dando-lhes nfase. -- Que quereria 
dizer? Os moinhos servem para fazer farinha, no ? 
--Creio que no precisamos de mais nada, por agora, Miss Estravados -- disse-lhe o coronel. 
Pilar levantou-se, obedientemente, e brindou cada um dos trs homens com um sorriso radioso. 
--Nesse caso, vou-me embora. 



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-- Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem finssimo -- mumurou o coronel, depois de ela sair. E 
David Lee disse tal coisa! 

XV 


O coronel levantou a cabea, quando a porta se abriu mais uma vez. Por momentos, tomou o 
recmchegado por Harry Lee, mas quando Stephen Farr se 
aproximou compreendeu que se enganara. --Sente-se Mister Farr -- convidou. 
Stephen sentou-se. Os seus olhos, frios e inteligentes, observaram sucessivamente os trs homens. 
-- Receio no lhes poder ser muito til -- antecipou-se  --, mas queiram perguntar o que lhes parecer 
conveniente. Talvez, para comear, seja melhor explicarlhes  quem sou. Meu pai, Ebenezer Farr, foi scio 
de Simeon Lee, na frica do Sul, h muito tempo, h  mais de quarenta anos... 
Fez uma pausa, antes de acrescentar: 
-- O meu pai falou-me muito de Simeon Lee e da sua personalidade. Entre os dois, fizeram-nas boas! 
Simeon Lee regressou rico e o meu pai tambm no se saiu muito mal. Recomendou-me sempre que, se 
um dia viesse a Inglaterra, procurasse Mister Lee. Uma vez respondi-lhe que passara j muito tempo e que 
talvez Mister Lee no soubesse quem eu era, mas o meu pai riu-se da ideia. Quando dois homens 
passaram, untos, o que eu e o Simeon passmos, no se esquecem, afimou-me. O meu pai morreu h 
dois anos, e eu vim este ano a Inglaterra pela primeira vez e resolvi seguir os conselhos dele e procurar 
Mister Lee. -- Sorriu um pouco. -- Senti-me um bocado nervoso, quando cheguei, mas no valia a pena. 
Mister Lee recebeu-me muito bem e insistiu em que passasse o Natal com a famlia. Receei que me 
considerassem in- trometido, mas no me quis ouvir... 
Fez nova pausa e acrescentou, pesaroso: 
-- Foram todos muito simpticos comigo... Mister e Mistress Alfred Lee no o podiam ser mais. Lamen- 
to muito, por isso, que lhes tenha acontecido isto.   --H quanto tempo c est, Mister Farr?   -- Desde ontem.   
--Hoje viu Mister Lee? 
-- Vi. Conversei com ele, esta manh. Estava bem- -disposto e cheio de curiosidade por ouvir falar de 
certas pessoas e lugares. 
--Foi a ltima vez que o viu? 
-- Foi. 
--Mister Lee disse-lhe que tinha no cofre uma quantidade de diamantes em bruto? 
-- No. -- Antes que o coronel dissesse qualquer coisa, perguntou-lhe: -- Quer dizer que se trata de 
assassnio e roubo? 
--Ainda no temos a certeza. Falemos agora dos acontecimentos desta noite. Pode dizer-nos, por 
palavras suas, o que fez? 
-- Com certeza. Depois de as senhoras irem para a sala, fiquei uns instantes na casa de jantar, a beber 
um clice de porto. A seguir percebi que os Lee tinham assuntos de famlia a discutir e que a minha 
presena 
os incomodava, por isso pedi licena e deixei-os. --Que fez, ento? 
Stephen Farr recostou-se na cadeira e acariciou o queixo com o indicador. 
--Fui para uma grande casa com o cho de par- quete.. uma espcie de salo de baile, suponho. H l  
um gramofone e discos de dana, e pus alguns a tocar. 
--Pareceu-lhe possvel, talvez, que algum lhe fosse fazer companhia? -- perguntou Poirot. 
Um leve sorriso arqueou os lbios de Stephen, que respondeu: 
-- Sim, pareceu-me possvel. No faz mal ter esperana... -- sorriu descaradamente. 
 A seorita Estravados  muito bonita... -- insinuou Poirot. 



118 
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--, com certeza, a coisa mais agradvel  vi que encontrei, desde que cheguei a Inglaterra. 
--Miss Estravados reuniu-se-lhe? -- inquiriu coronel. 
Stephen abanou a cabea. 
-- Ainda l me encontrava quando ouvi o estardalhao. Sa para o vestulo e corri pela escada acima, 
para ver o que se passava, e ajudei o Harry a arrombar a porta: 
--E tudo quanto tem a dizer-nos? 
--Absolutamente tudo, creio. 
--Parece-me, no entanto, que nos poderia dizer muitas coisas, se quisesse, Monsieur Farr... -- mur- 
murou Poirot, docemente. 
--A que se refere? -- perguntou-lhe o outro, em tom brusco. 
 Pode falar-nos de uma coisa importantssima, neste caso: o carcter de Mister Lee. Disse-nos que o 
seu pai lhe falou muito dele. Que tipo de homem era? 
-- Creio perceber aonde quer chegar... -- mumu-  roll  Farr, devagar. -- Como era Simeon Lee, na juven- 
tude? Bem... quer que seja franco, no  verdade? 
--Se fizer favor. 
--Para comear, no creio que Simeon Lee tenha sido um membro muito respeitvel na sociedade, no 
captulo da moral. No quero dizer que fosse exacta-: mente um indivduo desonesto, mas andou l perto... 
De qualquer modo, no tinha motivos para se vanglo- riar da sua moralidade. Possua encanto, em grande 
dose, e era fantasticamente generoso. Ningum que andasse em mar de azar recorria a ele em vo. Bebia 
um pouco mas sem exagero, as mulheres achavam-no atraente e tinha sentido de humor. No lhe faltava, 
por outro lado, um singular esprito vingativo. Era como um elefante, nunca esquecia. O meu pai contou- 
-me vrios casos em que Lee aguardou anos para ajustar   contas com algum que lhe pregara uma 
partida. 
-- Talvez exista outra pessoa com o mesmo espri- 
120 

to vingativo e a mesma pacincia... -- insinuou o inspector Sugden. -- No sabe de ningum a tuem Simeon 
Lee tenha pregado uma partida suja, na Africa do Sul? No haver no seu passado nada susceptvel 
de explicar o crime cometido aqui esta noite? 
Farr abanou a cabea. 
--Tinha inimigos, evidentemente; sendo o homem que era, por fora os havia de ter, mas no conheo 
nenhum caso especfico. Alm disso -- semi- cerrou os olhos --, consta-me, para ser franco, interroguei o 
Tressilian a este respeito, que, esta noite, no entraram nem se aproximaram da casa quaisquer 
desconhecidos. 
--Com excepo do senhor, Mister Farr  salientou Poirot. 
-- Ah,  isso?! -- exclamou Farr, voltando-se para ele. -- Desconhecido suspeito dentro de casa! No 
encontrar nada desse gnero. No existe nenhuma histria de Simeon Lee ter pregado uma partida a 
Ebenezer Farr, e de o filho deste vir vingar o pai! No   -- abanou a cabea com fora --, Simeon e Ebenezer 
nunca tiveram nada um contra o outro. Vim aqui, como j disse, por simples curiosidade. Alm disso, 
imagino que um gramofone  um libi to bom como qualquer outro: no parei de tocar discos, e algum os 
deve ter ouvido. O tempo que um disco leva a tocar no me pemitiria ir l acima, estes corredores tm um 
quilmetro de comprimento!, cortar a garganta ao velho, limpar o sangue e voltar, antes de os outros su- 
birem. A ideia  ridcula! 
--No pretendemos insinuar nada contra si, Mister Farr -- afimou o coronel. 
-- No me agradou o tom da voz de Mister Hercu- le Poirot  declarou Farr. 
 Mas que pena!  exclamou o detective. 
Sorriu-lhe, com ar benigno, e o outro lanou-lhe um olhar irritado. 
 Obrigado, Mister Farr -- apressou-se a intervir 


121 


 

o coronel Johnson. -- Por agora, no desejamos mait nada. Claro que no sair desta casa. 
Stephen Farr acenou com a cabea, levantou-se saiu, com andar bamboleante. 
Quando a porta se fechou, Johnson comentou:   -- All vai o X, a incgnita. A sua histria parece verdadeira, 
mas no entanto... Ele podia ter roubado os diamantes, podia ter-se apresentado com uma histria 
inventada, para ser recebido... Talvez seja melhor recolher as suas impresses digitais, Sugden, e ver se   
conhecido. 
--J as recolhi  declarou o inspector, a sorr. 
-- Excelente. No lhe escapa nada, hem? Creio que tomou nota de tudo quanto convm fazer? 
O inspector Sugden abriu a mo e enumerou, pelos dedos: 
 Verificar os telefonemas, horas, etc.; investigar Horbury, a que horas saiu e quem o viu sair; investigar 
quem entrou e saiu; investigar o pessoal, em geral; investigar a situao financeira dos membros da fam-
lia; comunicar com os advogados e colher infomaes acerca do testamento; revistar a casa  procura da 
ama e de roupa manchada de sangue; e, possivelmente, de diamantes escondidos. 
-- Creio que est tudo -- redarguiu o coronel, em 
tom de aprovao. -- Sugere alguma coisa, Poirot? O detective abanou a cabea e respondeu: --Acho o 
inspector admiravelmente minucioso.   -- No vai ser brincadeira nenhuma revistar a casa  procura dos 
diamantes -- resmungou o inspector Sugden. -- Nunca vi tantos omamentos e miudezas na minha vida! 
--Sim, os esconderijos parecem abundantes -- concordou Poirot. 
 No quer, realmente, sugerir nada, Poirot? O chefe da Polcia parecia decepcionado, como um homem 
cujo co se recusasse a mostrar as suas habilidades. 
122 

--Pemite-me que siga uma orientao minha? -- Com certeza, Poirot, com certeza -- respondeu o coronel, 
ao mesmo tempo que o inspector pergunta- va, desconfiado: 
-- Que orientao? 
--Gostava de conversar, com muita frequncia, com os membros da famlia. 
--Quer dizer, gostava de os interrogar outra vez?   -- indagou o coronel, intrigado. 
--No, interrogar, no. Conversar!   -- Porqu? -- perguntou Sugden. 
-- Numa conversa descobrem-se coisas -- respon- deu-lhe o detective, e acenou com a mo, num gesto 
enftico. -- Se um ser humano conversa muito, -lhe impossvel evitar a verdade. 
--Pensa, ento, que algum mentiu? 
--Mon cher inspector, toda a gente mente! O importante  destrinar as mentiras inofensivas das ou- tras. 
--Contudo, custa a acreditar -- mumurou o coronel. -- Estamos perante um assassnio particulamente brutal 
e cruel, e quem so os suspeitos? Alfred Lee e a mulher, ambos pessoas encantadoras, bem- 
-educadas e sossegadas. George Lee, deputado e a essncia da respeitabilidade. A sua mulher? No 
passa de uma tolinha modema. David Lee parece uma criatura meiga e, segundo afimou o seu imo Harry, 
no pode sequer ver sangue. Hilda, sua esposa, tem todo o aspecto de uma mulher simptica e sensata, 
banal. Resta-nos a sobrinha espanhola e o homem da frica do Sul. As beldades espanholas tm 
temperamento ardente, mas no consigo ver aquela atraente criaturinha a cortar o pescoo do velho a 
sangue-frio, tanto mais que, segundo tudo parece indicar, ganharia muito mais se ele continuasse vivo, pelo 
menos at assinar o segundo testamento. Quanto a Stephen Farr, talvez... Quero dizer, pode tratar-se de 
um ladro profissional, que viesse ao cheiro dos diamantes. O velho deu por 


   123 




falta das pedras e Farr degolou-o, para evitar que fa- lasse. Pode ter acontecido assim.. o tal libi do gra- 
mofone no  infalvel. 
Poirot abanou a cabea.   
--Meu caro amigo, compare o fsico de Stephen Farr com o do velho Simeon Lee. Se o primeiro deci- 
disse matar o segundo, podia t-lo feito num minuto, sem dar  vtima a possibilidade de travar a luta cujos 
vestgios observmos. Meter-se- na cabea de algum que aquele velho frgil e aquele magnfico espcime 
humano lutaram durante minutos, derrubando cadeiras e partindo omamentos de porcelana? Seria 
fantstico! 
O coronel semicerrou os olhos. 
-- Quer dizer que foi um homem fraco que matou Simeon Lee? 
--Ou uma mulher! -- exclamou o inspector. 

XVI 


O coronel Johnson viu as horas e observou: 
-- Pouco mais aqui posso fazer. Voc tem as coisas bem orientadas, Sugden. Agora me lembro, seria 
conveniente falamos com o mordomo. Sei que j o interrogou, mas entretanto obtivemos mais pomenores e 
parece-me importante tentar confimar se todos estavam  onde disseram, na altura do assassnio. 
Tressilian entrou, devagar, e o chefe da Polcia convidou-o a sentar-se. 
--Muito obrigado, senhor coronel. Sentameei, se no se importar, pois no me tenho andado a sentir 
muito bem. As minhas pemas e a minha cabea... 
-- Deve ter sofrido um grande abalo -- observou Poirot, compreensivo. 
O velhote estremeceu. 
--Que violncia, meus senhores! Que violncia nesta casa, onde tudo correu sempre com tanta 
tranquilidade. 
-- Era uma casa bem ordenada, no  verdade? -- 
inquiriu Poirot. -- Mas no era feliz, pois no? 
--No gostaria de o dizer, senhor... 
--Antigamente, quando estavam todos em casa, era um lar feliz? 
--No seria, talvez, muito hamonioso... 
--A falecida Mistress Lee era uma senhora doente, no era? 
-- Sim, senhor, era muito achacada, pobre senhora. 
--Os filhos estimavam-na? 
--Mister David era-lhe muito dedicado. Mais como uma filha do que como um filho. Tanto, que depois 
de ela morrer se foi embora, no pde continuar a viver aqui. 
--E Mister Harry? Como era ele? 
--Foi sempre um jovem rebelde, mas com bom corao. Que surpresa a minha quando a campainha 
tocou, duas vezes seguidas, com muita impacincia, abri a porta e deparei com um desconhecido que me 
disse: OI, Tressilian! Ainda por c, hem? Est tudo na mesma. 
--Sim, deve ter-lhe causado uma estranha sensao -- concordou Poirot, compreensivamente. 
-- s vezes at parece que o passado no  passado! --exclamou o velhote, um pouco corado. --Creio 
que representaram em Londres uma pea acerca de qualquer coisa parecida.  assim uma coisa esquisita, 
uma impresso que sentimos de j temos feito tudo antes. Para mim foi como sea campainha tocasse, eu 
fosse atender, encontrasse Mister Harry, embora fosse Mister Farr ou qualquer outra pessoa, e dissesse 
para comigo: j fiz isto antes... 
--Muito interessante.. muito interessante... -- comentou Poirot. 



124         125 
 



Tressilian fitou-o, agradecido, e Johnson, um pouco impaciente, pigarreou e reassumiu o interrogatrio: 
--Queramos que nos confimasse certos pomenores. Quando o barulho comeou, l em cima, s  
Mister Alfred Lee e Mister Harry Lee estavam na casa de jantar, no  verdade? 
-- Lamento, mas a esse respeito nada posso dizer. Os cavalheiros estavam todos na casa de jantar, 
quando lhes servi o caf, mas isso foi cerca de um quarto de hora mais cedo. 
-- Mister George Lee estava a telefonar. Pode con- fim-lo? 
--Creio que estava, de facto, algum a telefonar. A campainha toca na minha copa, e quando algum 
levanta o auscultador, para pedir um nmero, ouve-se um ligeiro rudo. Lembro-me de o ter ouvido, mas no 
prestei muita ateno. 
--No sabe, exactamente, quando foi? 
 -- Pois no, senhor coronel. Sei apenas que foi depois de ter levado o caf aos cavalheiros. 
--Sabe onde estavam as senhoras, na ocasio a que me retiro? 
-- Mistres Alfred estava na sala quando fui buscar o tabuleiro do caf, um minuto ou dois antes de ouvir 
o grito l em cima. 
--Que fazia ela? -- perguntou Poirot. 
-- Estava de p, junto da janela, com a cortina um pouco afastada e a olhar para fora. 
--No estava na sala nenhuma das outras senhoras? 
-- No, senhor.   --Sabe onde estavam?   --No fao ideia. 
--E sabe onde estavam alguns dos outros membros da famflia? 
-- Creio que Mister David estava a tocar na sala de msica, ao lado da sala. 
-- Ouviu-o tocar? 
-- Ouvi, sim, senhor, m O velho mordomo estremeceu outra vez. -- Depois at pensei que fora uma 
espcie de agouro, pois Mister David tocava a Marcha Fnebre... Embora ainda no tivesse acontecido 
nada, lembro-me de que me arrepiei. 
-- curioso, sem dvida -- mumurou Poirot. --Falemos agora a respeito desse tal Horbury, o criado -- disse o 
chefe da Polcia. -- Pode jurar que ele se encontrava fora de casa s oito horas da noite? 
-- Posso, sim, senhor. Foi pouco depois de Mister Sugden chegar. Lembro-me bem, pois ele partiu 
uma chvena de caf. 
-- Horbury partiu uma chvena de caf? -- inter- veio Poirot. 
--Sim, senhor, uma das antigas Worcester. H  onze anos que as lavo e nunca parti nenhuma, e esta 
noite... 
-- Que fazia Horbury com as chvenas? -- insistiu Poirot. 
-- Claro que ele no tinha nada que lhes mexer... Mas estava com uma na mo, como se a admirasse, 
e quando eu disse que Mister Sugden estava c dei- xou-a cair. 
-- Lembra-se se disse Mister Sugden ou se mencionou a palavra Polcia? -- perguntou, interessado, o 
detective. 
Tressilian pareceu um pouco perturbado. 
-- Agora que o senhor fala nisso, lembro-me de ter 
dito que estava c o inspector da Polcia. 
--E Horbury deixou cair a chvena? 
--Parece significativo -- mumurou o chefe da Polcia. -- Horbury fez-lhe algumas perguntas acerca da 
visita do inspector? 
--Perguntou-me o que viera c fazer. Respondi-lhe  que andava a recolher fundos para o orfanato da 
Polcia e que estava com Mister Lee, no quarto. 
--Horbury pareceu-lhe aliviado, ao ouvir a sua resposta? 
--Tenho de confessar que sim, senhor. Mudou 



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imediatamente de atitude. Disse que Mister Lee era um velho de mos largas, falou muito desrespeitosa- 
mente, na verdade, e saiu. 
-- Por onde? 
--Pela porta da sala dos criados. 
--Tudo isso est confimado, senhor coronel -- declarou Sugden. -- Passou pela cozinha, onde a cozi- 
nheira e a ajudante o viram, e saiu pela porta das traseiras. 
--Agora pense bem antes de responder, Tressi- lian: seria possvel o Horbury voltar a casa sem 
ningum o ver? 
--No vejo como, senhor. Todas as portas esto 
fechadas  chave pelo lado de dentro. 
--E se ele tivesse uma chave? 
--As portas tambm esto trancadas. 
--Como entra ele, quando regressa? 
 Tem uma chave da porta das traseiras, por onde entram todos os criados. 
--Nesse caso, ele podia ter regressado por a? 
--Mas teria de passar pela cozinha, onde est  sempre gente at quase s dez horas. 
 Parece no haver dvidas quanto a este pomenor -- declarou o coronel. -- Obrigado, Tressilian. 
O velho levantou-se, inclinou a cabea e saiu. Um ou dois minutos depois, porm, voltou. 
--Horbury j chegou -- infomou. -- Desejam falar-lhe agora? 
 Sim, mande-o c imediatamente, por favor. 

XVII 

Sydney Horbury no tinha um aspecto muito cativante. Entrou no escritrio e ficou parado a esfregar as 
mos uma na outra e a lanar olhares rpidos aos trs homens, numa atitude untuosa. 
128 

--  Sydney Horbury? -- perguntou-lhe Johnson. -- Sim, senhor. 
--Criado-enfemeiro do falecido Mister Lee? 
 -- Sim, senhor. Foi terrvel, no foi? Fiquei vara- do, quando a Gladys me disse. Pobre senhor... 
--Responda apenas s minhas perguntas, por favor -- interrompeu-o o coronel. 
--Sim, senhor, com certeza. 
 A que horas saiu, esta noite, e onde foi? --Sa de casa pouco antes das oito e fui ao Superb, que fica a 
pouca distncia daqui. Cinco minutos, 
a p... O filme chamava-se Love in Old Seville. 
 Algum o viu l? 
 A empregada da bilheteira conhece-me, senhor, assim como o porteiro. E... bem, fui com uma senho- 
ra, com quem marcara encontro no cinema. 
-- Sim? Como se chama ela? 
 Doris Buckle, senhor. Trabalha nas Leitarias Reunidas, na Markham Road, vinte e trs. 
--Muito bem, confimaremos isso. Veio direito a casa, depois do cinema? 
-- Primeiro levei a minha companheira a casa, senhor, e depois voltei para aqui. Verificar que tudo isto 
 verdade, que no tive nada com o que se passou. Estava... 
--Ningum o est a acusar de ter alguma coisa com o .que se passou -- cortou secamente o coronel. 
-- E verdade, senhor, mas  desagradvel, quando h um assassnio numa casa. 
--Tambm ningum disse que era agradvel. H 
quanto tempo estava ao servio de Mister Lee?   --H um ano, senhor. --Gostava do seu trabalho? 
--Sim, senhor, estava satisfeito. O ordenado era  bom , e embora Mister Lee fosse, s vezes, um 
pouco difcil de aturar, estou habituado a tratar de doentes. 
-- Quer dizer que tinha experincia anterior desse gnero de trabalho? 


129 




-- Sim, senhor. Servi o major West e o juiz Jaspe Finch... 
--Dar essas indicaes depois ao inspector Sug- den. O que me interessa saber agora  o seguinte: 
que horas eram quando viu Mister Lee pela ltima vez? 
-- Deviam ser cerca de sete e meia. Mister Lee co- mia uma refeio ligeira s sete da tarde e, depois, 
preparava-o para se deitar. Mister Lee sentava-se en-' to defronte da lareira, de roupo, at lhe apetecer ir 
para a cama. 
 A que horas, geralmente? 
 Variava. Umas vezes chegava a deitar-se s oito horas, se se sentia fatigado, e outras estava a p at 
s onze horas ou mais. 
--Que fazia ele, quando se queria deitar?  Geralmente tocava, a chamar-me. --E voc ajudava-o a deitar-se? 
-- Sim, senhor. 
 Mas esta era a noite da sua sada. Costumava 
sair sempre s sextas-feiras? 
-- Sim, senhor. 
-- Que sucedia, ento, quando Mister Lee se que- ria deitar? 
-- Tocava a campainha, e Tressilian ou Walter aju- daram-no. 
-- No estava imobilizado? Podia mover-se de um lado para o ouro? 
 Podia, sim, embora com dificuldade. Sofria de artrite reumtica, uns dias sentia-se pior do que outros. 
-- Nunca saa para outro aposento, durante o dia?  No, senhor. Preferia estar no seu. Mister Lee no 
apreciava o luxo e o quarto  grande, com muito ar e muita luz. 
 Disse que Mister Lee jantou s sete horas, no foi? 
 Sim, senhor. Recolhi o tabuleiro e pus a garrafa de xerez e dois copos na escrivaninha. 
130 

-- Porqu? 
--Porque mo ordenou. 
-- Era costume? 
--As vezes. Estava estabelecido que ningum da famlia ia ver Mister Lee,  noite, a no ser por convite 
dele. Umas noites gostava de estar s, outras man- dava chamar Mister Alfred, ou Mistress Alfred, ou os 
dois, para lhe fazerem companhia, depois do jantar. 
-- Mas, que voc saiba, no o fez hoje? Quero dizer, no mandou recado a nenhuma pessoa da famlia, 
a solicitar a sua presena. 
--No mandou nenhum recado, por mim. 
-- Portanto, no esperava ningum da famlia? 
--Podia ter convidado algum pessoalmente, senhor. 
-- Sem dvida. 
--Vi que estava tudo em ordem, dei as boas-noites a Mister Lee e sa do quarto -- prosseguiu Horbury. 
-- Ps mais lenha na lareira, antes de sair? -- per- guntou-lhe Poirot. 
Horbury hesitou. 
 No foi preciso, senhor. O lume estava bem es- perto. 
--Ter-lhe-ia Mister Lee deitado lenha? 
 Oh, no! Deve ter sido Mister Harry Lee, su- ponho. 
--Mister Harry Lee estava com o pai, quando o senhor entrou no quarto, antes do jantar? 
--Estava, sim, senhor. Saiu quanto eu entrei. --Que pareceram as relaes entre os dois? 
--Mister Harry Lee pareceu-me muito bem- 
-disposto, ria-se muito e atirava a cabea para trs. --E Mister Lee? 
 Estava calado e muito pensativo. 
--Desejava saber mais uma coisa, Horbury. Que nos pode dizer acerca dos diamantes que Mister Lee 
tinha no cofre? 


131 


 



--Diamantes? Nunca vi diamantes nenhuns. 
--Mister Lee tinha no cofre uma quantidade de diamantes por cortar. Deve t-lo visto mexerlhes. 
--Eram aqueles calhauzinhos, senhor? Sim, vi-o com eles duas ou trs vezes, mas ignorava que fossem 
diamantes. Ainda ontem os mostrou quela menina estrangeira...  Ou teria sido anteontem? 
-- Essas pedras foram roubadas -- infomou bruscamente Johnson. 
-- Espero que no pense que eu tive alguma coisa a ver som isso! -- exclamou Horbury. 
-- No estou a fazer acusaes. Sabe dizer-nos al- guma coisa relacionada com o assunto? 
--Com os diamantes, senhor coronel? Ou com o assassnio? 
-- Com ambos. 
Horbury reflectiu. Passou a lngua pelos lbios exangues e lanou um olhar furtivo a Johnson. 
--Creio que no sei nada -- disse, por fim. 
--No ter ouvido nada que possa ser til, por exemplo? -- perguntou-lhe Poirot, docemente. Horbury 
pestanejou, como surpreendido. 
--No senhor, no creio. Havia uma certa tenso entre Mister Lee e... alguns familiares. 
-- Quais? 
-- Deduzi que o regresso de Mister Harry causou certo aborrecimento... Mister Alfred Lee no gostou e 
suponho que trocou algumas palavras desagradveis com o pai, acerca do assunto. Creio, no entanto, que 
no houve mais nada. Mister Lee no o acusou por um instante sequer de ter roubado os diamantes. Eu 
prprio tenho a certeza de que Mister Alfred no faria tal coisa. 
-- A entrevista de Mister Simeon Lee com Mister Alfred foi depois de ele ter descoberto o desaparecimento
 dos diamantes, no foi? -- perguntou Poirot. 
--Foi, sim, senhor. O detective inclinou-se para a frente e disse, docemente: 
--No nos declarou que ignorava o roubo dos diamantes? No foi por ns, h pouco, que soube do seu 
desaparecimento?   Como sabe, ento, que Mister Lee teve a tal conversa com o filho depois de dar pela 
falta das pedras? 
Hor,bury ficou escarlate. 
--E intil mentir -- aconselhou Sugden. -- Quando soube? Desembuche, vamos. 
-- Ouvi-o telefonar a algum acerca do assunto -- 
respondeu o criado, cabisbaixo. 
--No estava no quarto?   -- No. Estava do lado de fora da porta. No consegui ouvir muito, apenas 
uma palavra ou duas. 
--Diga-nos o que ouviu, exactamente -- pediu Poirot, em tom melfluo. 
-- Ouvi as palavras roubo e diamantes, e ouvi-o  dizer no sei de quem suspeite.. Ouvi-o, 
tambm, dizer qualquer coisa acerca desta noite, s oito horas. 
-- Era comigo que ele estava a falar, meu rapaz -- declarou Sugden, a acenar com a cabea. -- Eram 
umas cinco e dez, no eram? 
--Eram, sim, senhor. 
--Quando entrou, depois, no quarto do seu patro, achou-o inquieto? 
--Sim, um bocadinho. Pareceu-me distrado e preocupado. 
--Tanto que voc se assustou, hem?   -- Escute, Mister Sugden, no lhe admito observaes  dessas. 
No toquei em diamantes nenhuns, e o 
senhor no pode provar o contrrio. No sou ladro. Imperturbvel, o inspector Sugden replicoulhe: 
--Veremos. -- Olhou interrogadoramente para o chefe da Polcia, que lhe acenou com a cabea, e 
acrescentou: -- Por agora chega, meu rapaz. No voltaremos a precisar de si esta noite. 
Horbury saiu, visivelmente grato e aliviado. 
--Bom trabalho, Mister Poirot -- elogiou Sug- 



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den. -- Nunca vi uma amadilha to bem estendida. No sabemos se  ou no gatuno, mas um mentiroso de 
primeira , com certeza! 
-- E antiptico, tambm -- comentou o detective. --Sim, muito desagradvel -- concordou Johnson. -- O 
importante, porm, no  isso, mas, sim, o que devemos pensar das suas declaraes. 
Sugden resumiu a situao com clareza: 
-- Na minha opinio, parecem existir trs possibilidades: primeira: Horbury  ladro e assassino; 
segunda: Horbury  ladro, mas no  assassino; e terceira: Horbury est inocente. Certos indcios 
parecem querer confimar a primeira hiptese: ouviu o telefonema e ficou a saber que o roubo fora 
descoberto; deduziu, pela atitude do velho, que era suspeito e, por isso, fez os planos necessrios. Saiu 
ostensivamente de casa s oito horas e arranjou um libi, pois  fcil sair e regressar a um cinema sem dar 
nas vistas. No entanto, a rapariga que o acompanhou teria de ser de absoluta confiana, para no o 
denunciar. Amanh verei o que consigo ar- rancarlhe. 
--Como se arranjaria, nesse caso, para entrar em casa? -- inquiriu Poirot. 
-- Isso  o mais difcil -- admitiu Sugden. -- Mas deve haver alguma maneira. Uma das criadas pode ter- 
-lhe aberto uma porta lateral, por exemplo. 
-- O que equivaleria, para ele, a colocar a vida nas mos de duas mulheres -- observou Poirot, ironica- 
mente. -- Com uma mulher, o risco j seria grande; com duas... Eh bien, creio que seria um risco 
fantsfico!    
--H criminosos que se iulgam capazes de ser bem sucedidos em tudo -- comentou Sugden. -- 
Veiamos  a segunda hiptese: Horbury roubou os diamantes, levou-os para fora de casa, esta noite, e 
possivelmente entregou-os a um cmplice. Seria fcil e parece-me provvel. Neste caso, teramos de 
admitir que outra pessoa decidiu assassinar Mister Lee esta noite, algu.m absolutamente alheio ao 
pomenor dos diamantes. E possvel, sem dvida, mas talvez excessiva coincidncia. Quanto  terceira 
hiptese, ou seja,   da inocncia de Horbury, teramos de admitir que foi qualquer outra pessoa que roubou 
os diamantes e assassinou o velho. Posto isto, h que descobrir a verdade. 
O coronel Johnson bocejou, viu outra vez as horas e levantou-se. 
--Bem, creio que por hoje chega, no acham? Talvez seja melhor, no entanto, damos uma vista de 
olhos ao cofre, antes de nos imos embora. Seria engraado se os maldifos diamantes no tivessem de l  
sado! 
Mas os diamantes no estavam no cofre. Encontraram a combinao do segredo onde Alfred lhes 
dissera, no livrinho de apontamentos que a vtima tinha na algibeira do roupo, abriram o cofre e 
encontraram uma malinha de camura, vazia. Entre os diversos papis que l se encontravam, s um tinha 
interesse. 
Tratava-se de um testamento datado de cerca de quinze anos antes, cujas provises eram simples: 
depois de pagos alguns legados, metade da fortuna se- ria para Alfred Lee e a outra metade seria dividida 
em partes iguais entre os restantes filhos: Harry, George, David e Jennifer. 

IV PARTE 

25 de Dezembro 

Poirot passeava nos jardins de Gorston Hall, sob o sol brilhante do meio-dia, no dia de Natal. Apesar do 
nome, a casa era uma construo grande e slida, sem quaisquer pretenses arquitectnicas. 



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Do lado sul havia um terrao largo, ladeado por uma sebe de teixos aparados. Nos interstcios das lajes 
cresciam pequenas plantas e, a intervalos, havia tanques de pedra, com jardins miniaturais. 
Poirot observou-os, com um ar de benigna aprovao,
 e mumurou, para consigo: 
--C'est bien imagin, a! 
Ao longe, avistou duas pessoas que se dirigiam para um lago omamental, a cerca de trezentos metros 
de distncia. Foi-lhe fcil reconhecer Pilar e, ao princ-pio, pensou que a outra pessoa fosse Stephen Farr. 
Pouco depois, porm, viu que se tratava de Harry Lee, que parecia prestar muita ateno  sua atraente 
sobrinha. De vez em quando, inclinava a cabea para trs e ria-se, mas a seguir voltava a prestarlhe 
ateno. 
All est um que no parece nada triste.., pensou Poirot. 
Voltou-se, ao ouvir um som leve, atrs de si, e deparou com Magdalene Lee, que observava, tambm, 
os vultos distantes do homem e da rapariga. Sorriu amavelmente ao detective e exclamou: 
-- Estfi um dia to belo e cheio de sol! At custa a acreditar nos horrores da noite passada, no  
verdade, Mister Poirot? 
--Tem razo, minha senhora, custa a acreditar. Magdalene suspirou. 
-- E a primeira vez que participo numa tragdia... Na realidade s h pouco tempo amadureci... Creio 
que pemaneci criana durante demasiado tempo, e is- so no  bom. -- Novo suspiro. -- A Pilar, pelo 
contrrio, parece to senhora de si... Talvez seja por causa 
do seu sangue espanhol.  muito estranho, no ?   --O qu, minha senhora? 
--A maneira como ela apareceu aqui, como se casse do cu! 
-- Constou-me que Mister Lee a procurou durante algum tempo. Correspondeu-se com o nosso 
consulado em Madrid e com o vice-cnsul em Aliquara, onde a me dela morreu. 
--Soube guardar muito bem o segredo, ento -- comentou Magdalene. -- Nem o Alfred nem a Lydia 
sabiam nada a tal respeito. 
-- Assim parece. 
Magdalene aproximou-se mais e Poirot aspirou a fragrncia do delicado perfume que ela usava. 
-- No sei se sabe, Mister Poirot, mas h uma histria qualquer relacionada com Estravados, o marido 
da Jennifer. Morreu pouco tempo depois do casamento e c rodearam sempre o caso de certo mistrio. O 
Alfred e a Lydia sabem... Creio que foi qualquer coisa vergonhosa. 
--Muito triste, minha senhora. 
--O meu marido acha, e eu concordo com ele, que a famflia devia ter sido mais bem infomada dos 
antecedentes da rapariga. No fim de contas, se o pai era um criminoso... 
Fez uma pausa, mas Hercule Poirot no disse nada. Parecia entretido a admirar as belezas que a 
Natureza podia oferecer no Invemo, nos jardins de Gorston Hall. 
Magdalene prosseguiu: 
-- No consigo afastar de mim a impresso de que a morte do meu sogro contm em si mesma algo de 
sugestivo...   Foi to.. to pouco inglesa. 
Hercule Poirot virou-se devagar, e fitou-a inocente e gravemente. 
--O toque espanhol, imagina? -- mumurou.   --Bem, eles so cruis, no so? -- redarguiu Magdalene, com 
um pretenso ar infantil. -- Todas aquelas touradas e outras coisas! 
--Pretende dizer que, na sua opinio, a seorita   Estravados cortou a garganta ao av? -- perguntoulhe 
Hercule Poirot, em tom agradvel. 
-- Oh, no, Mister Poirot! -- exclamou Magdalene, em tom veemente e escandalizado. -- No disse 
semelhante coisa! 



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-- Talvez no... 
-- O que penso  que ela  uma pessoa duvidosa... A maneira furtiva como apanhou no sei o qu do 
cho do quarto, ontem  noite... 
O tom de voz de Poirot modificou-se como por encanto: 
--Apanhou no sabe o qu do cho? -- repetiu, vivamente. 
Magdalene acenou com a cabea e arqueou a boca infantil, num gesto despeitado. 
--Apanhou, assim que entrmos no quarto. Olhou rapidamente  sua volta, para ver se algum es- tava 
a observar, e depois baixou-se e apanhou qualquer coisa. Mas o inspector viu-a, felizmente, e obri- gou-a a 
dar-lhe o que quer que era. 
--No viu de que se tratava, minha senhora?   --No, no estava suficientemente perto -- respondeu 
Magdalene, penalizada. -- Era qualquer coisa pequena. 
 --Interessante... -- mumurou o detective para consigo, de testa franzida. 
-- Achei que lho devia dizer -- prosseguiu Magdalene. -- No fim de contas, no sabemos nada acerca da 
maneira como ela foi criada, nem acerca da sua vida, at agora. O Alfred  uma pessoa que no desconfia 
de ningum e a querida Lydia liga pouca importncia... Enfim, talvez seja melhor ir andando e perguntar  
minha cunhada se a posso ajudar nalguma coisa. Deve haver cartas para escrever... 
Deixou-o com um sorriso malicioso e satisfeito, e Poirot ficou no terrao, absorto nos seus 
pensamentos. 
II 

O inspector Sugden foi ao seu encontro, com cara de poucos amigos. 
--Bons dias, Mister Poirot. No parece apropriado desejar Feliz Natal, pois no? 
--Mon cher collgue, o senhor no parece nada feliz! No entanto... Feliz Natal! 
--Oxal no tenha mais nenhum como este! --Tem feito progressos? 
-- Confimei alguns depoimentos. O libi do Hor- bury parece fixe. O porteiro do cinema viu-o entrar com 
uma rapariga e sair com ela no fim do espectcu- lo, e parece absolutamente convencido de que ele no 
poderia sair e regressar durante a sesso. A rapariga, pelo seu lado, jura que ele esteve sempre com ela, 
no cinema. 
-- Nesse caso, parece-me que por a, nada feito -- comentou Poirot. 
-- Ora, com raparigas nunca se sabe! -- exclamou cinicamente o inspector. -- So capazes de mentir 
com quantos dentes tm na boca, por amor de um homem! 
--Isso s faz crdito aos seus coraes. 
--Ns vimos essas coisas de pontos de vista diferentes dos dos estrangeiros -- resmungou Sugden. -- 
Mentir  frustrar os objectivos da justia. 
-- A justia  uma coisa muito singular! J alguma vez pensou nisso? 
--Tem cada uma, Mister Poirot! 
--Limito-me a seguir uma sequncia lgica de pensamentos. Mas no vamos discutir estas coisas. 
Imagina, ento, que essa demoiselle da leitaria no disse a verdade? 
-- No, no se trata disso. Na realidade, creio que ela disse a verdade. E uma rapariga simples, e se 
me mentisse julgo que perceberia. 


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--Sim, no lhe falta experincia -- admitiu Poirot. 
--Exactamente, Mister Poirot. Quando levamos uma vida inteira a ouvir depoimentos deste e daquele, 
acabamos por saber, mais ou menos, quando as pessoas mentem e quando falam verdade. No, estou 
convencido de que a moa no mentiu. A ser assim, porm, Horbury no podia ter assassinado o velho 
Mister Lee, e resta-nos, portanto, a famlia. -- Respirou fundo e acrescentou: -- Foi um deles, Mister Poi- 
rot, foi um deles! Mas qual? 
--Recolheu alguns dados novos? -- Tive um pouco de sorte com a questo dos telefonemas. Mister 
George Lee telefonou, de facto, para Westeringham aos dois minutos para as nove. O tele- 
fonema durou menos de seis minutos. 
-- Ah! 
--Alm dessa, no se fez nenhuma outra chamada, para Westeringham ou para qualquer outro lado. 
--Muito interessante! Mister George Lee disse que acabara de telefonar quando ouviu o barulho, no 
andar de cima, mas na realidade acabara de telefonar cerca de dez minutos antes. Onde esteve, nesses 
dez minutos? Quanto a Mistress George Lee, tambm disse que telefonara, mas no fez chamada 
nenhuma. Onde esteve? 
--Vi-o falar com ela, Mister Poirot...   -- Est enganado!   -- O qu? 
 Eu no estive a falar com ela... Ela  que esteve a falar comigo! 
-- Ora... -- Sugden pareceu prestes a repelir impacientemente a distino, como coisa sem 
importncia, mas de repente compreendeu: -- Diz que ela esteve a falar consigo? 
--Exactamente. Veio aqui ter de propsito. 
--Que tinha a dizer? 
--Quis frisar certos pomenores, como o carcter no-ingls do crime, os antecedentes possivelmente 
indesejveis de Miss Estravados, pelo lado patemo, o facto de Miss Estravados ter apanhado furtivamente 
qualquer coisa do cho, a noite passada... 
-- Ela disse-lhe isso, hem? -- perguntou Sugden, com interesse. 
--Disse. Que foi que a seorita apanhou? 
--Isso tambm eu queria saber! -- exclamou o inspector, a suspirar. -- E uma daquelas coisas que 
esclarece o mistrio todo, nos romances policiais... Se o senhor conseguir perceber de que se trata, 
demitir-me-ei
 da Polcia! -- Mostre-me. 
Sugden tirou um sobrescrito da algibeira e despejou o contedo na palma da mo, ao mesmo tempo 
que um sorriso lhe entreabria os lbios. 
--Aqui tem. Que lhe parece? Na palma da mo larga do inspector Sugden en- contrava-se um pequeno tringulo 
de borracha cor-de-rosa
 e um pequeno grampo de madeira. O sorriso do inspector alastrou, quando Poirot pegou nos objectos e franziu 
a testa. 
--Tem alguma ideia, Mister Poirot? -- Este bocadinho de borracha pode ter sido corta- do de um saco, 
no acha? 
--Foi, de facto, cortado de um saco de borracha do quarto de Mister Lee. Algum recortou um tringulo, 
com uma tesoura afiada, e talvez at tenha sido o prprio Mister Lee. No sei para que o faria e o Hor- bury 
tambm no me esclareceu. Quanto ao grampo,   pequeno, de madeira tosca, e parece ter sido cortado 
de uma prancha. 
-- Extraordinrio... -- mumurou Poirot. 
-- Pode ficar com eles, se quiser -- ofereceu Sug- den, generosamente. -- No me fazem falta. 



140         141 
  

w Mon ami, seria incapaz de o privar de tais oh- jectos! 
w No lhe dizem nada, pois no? 
 Confesso que no! 
--ptimo -- exclamou o inspector, sarcstico, e guardou os objectos na algibeira, m Estamos a pro- 
gredir! 
-- Mistress George Lee disse que a seorita se baixou e apanhou essas bagatelas, de modo furtivo. 
Acha que foi assim? 
Sugden hesitou. 
 Bem, no diria tanto. No pareceu culpada, nem nada do gnero, mas procedeu.. enfim, com rapidez e 
serenidade, se compreende o que quero dizer.   E no se apercebeu de que eu a vi! Tenho a certeza, pois 
deu um pulo, quando lhe pedi os objectos. 
-- Ento houve uma razo... -- mumurou Poirot, pensativo. -- Mas qual? Esse bocadinho de borracha   
novo, no foi utilizado em nada... No pode ter qualquer significado, e contudo... 
 Preocupe-se o senhor com o assunto, se quiser   -- disse Sugden, impaciente. -- Eu tenho mais em 
que pensar. 
 Em que p esto as coisas, na sua opinio, inspector? 
--Vamos a factos -- redarguiu o interpelado, puxando do livro de apontamentos. -- Comecemos por 
afastar do caminho as pessoas que no podiam ter co- metido o crime... 
w E que so...? 
 Alfred e Harry Lee, que tm um bom libi, Mistress Alfred Lee encontra-se em idnticas 
circunstncias, pois Tressilian viu-a na sala, um minuto apenas antes de o barulho comear, no andar de 
cima. Estas trs pessoas no podem ter sido. Vamos agora aos outros. Fiz uma lista com esta 
disposio, para se tomar mais claro. 
Estendeu o livro de apontamentos a Poirot. 
142 

Mrs. David Lee 

Miss Estravados 

Stephen Farr 


No momento do crime 
George Lee         estava? 
Mrs. George Lee estava? 
David Lee         estava a tocar piano na sala de m-
        sica (confimado pela esposa) 
        estava na sala de msica (confima- 
        do pelo marido) 
        estava no seu quarto (sem confir- 
        mao) 
        estava no salo de baile, a tocar dis- 
        cos (confimado por trs cria- 
        dos, que ouviram a msica na 
        sala do pessoal) 

Poirot devolveu-lhe o livro e perguntou: -- E ento? m E ento, George Lee podia ter morto o velho, Mistress 
George Lee podia ter morto o velho, Pilar Estravados podia ter morto o velho.. e Mister ou Mistress David 
Lee podiam t-lo morto, um ou outro, mas   no ambos. 
--No aceita, ento, o libi deles? 
-- Nunca! Marido e mulher, dedicados um ao outro! Podem estar conluiados, ou ento, se foi um deles, 
o outro jurar tudo e mais alguma coisa, para lhe dar um li- bi. Algum estava na sala de msica, a tocar 
piano.  possvel que fosse David Lee, pois  msico conhecido, mas nada nos afima que a mulher 
tambm l esti- vesse, excepto a palavra de ambos. Do mesmo modo, pode ter sido Hilda Lee quem estava 
a tocar, enquanto o marido ia ao quarto do pai e o matara. O caso destes dois  absolutamente indiferente 
do dos dois imos na casa de jantar. Alfred e Harry Lee no se estimam, ne- 
nhum deles cometeria perjrio por amor do outro.   --E. Stephen Farr? 
-- E um suspeito possvel, pois o libi do gramofo- he deixa um bocado a desejar. No entanto, temos de 
convir que  um daqueles libis que, na realidade, so mais dignos de aceitao do que os outros, que 
pare- 


   143 



cem de pedra e cal e nove vezes em dez foram anteci- padamente forjados. 
Poirot inclinou a cabea, pensativo.. 
-- Compreendo o que quer dizer. E o libi de um homem que no sabia que viria a precisar de libi. 
-- Exactamente! De resto, no sei porqu, no me parece que isto seja obra de uma pessoa de fora. 
-- Concordo consigo -- apr.essou-se a afimar Poi- rot. --  um caso de famlia. E uma espcie de 
veneno que se infiltrou no sangue,  ntimo...  um crime em que me parece haver conhecimento e dio... -- 
Acenou com as mos, num gesto de desnimo, e mumu-  roll : -- No sei...  difcil! 
O inspector Sugden ouvira-o pacientemente, mas sem parecer muito impressionado. 
-- Sem dvida, Mister Poirot. Mas pode estar certo de que, por meio de eliminao e lgica, 
chegaremos a uma concluso. J temos as possibilidades, ou seia, as pessoas que tiveram oportunidade: 
George Lee, Magdalene Lee, David Lee, Hilda Lee, Pilar Estrava- dos, e acrescentarei Stephen Farr. 
Vejamos agora o   motivo. Quem tinha motivo para querer afastar o velho Mister Lee do caminho? 
Podemos, mais uma vez, eliminar certas pessoas. Comecemos por Miss Estrava- dos: creio que, nas 
circunstncias actuais, no receber nada. Se Simeon Lee tivesse morrido antes da me dela, a parte 
daquela reverteria a favor da filha, a no ser que Jennifer Estravados decidisse de outro modo, por 
testamento; mas como Jennifer faleceu antes do pai, a parte que lhe pertencia reverte a favor dos outros 
membros da famlia. Portanto, seria do mximo interesse para Miss Estravados conservar o velho vivo. O 
av engraara com ela e era mais do que certo que  lhe  deixaria uma boa talhada, quando fizesse o novo 
testamento. Se o assassinasse, teria tudo a perder e na- 
da a ganhar. Concorda, no  verdade? 
-- Absolutamente. 
--Claro que resta a possibilidade de ela ter corta- 
144 

do a garganta ao velho no calor de alguma discusso, mas tal parece-me deveras improvvel. Para 
comear, pareciam entender-se s mil maravilhas e a pequena no estava c h tempo suficiente para lhe 
ter qualquer m vontade. Parece, portanto, pouco provvel que Miss Estravados tenha alguma coisa a ver 
com o crime; embora o senhor possa argumentar que cortar as goelas a um homem  um procedimento 
no-ingls, como a sua amiga, Mistress George Lee, declarou... 
--No lhe chame minha amiga, se no quer que eu fale da sua amiga, Miss Estravados, que o 
considera um homem to atraente! 
Teve o prazer de ver, mais uma vez, a pose oficial do inspector abandon-lo. Sugden tomou-se 
escarlate e Poirot observou-o, divertido e malicioso. 
--E verdade que tem um bigode soberbo... -- acrescentou, em voz que traduzia uma certa inveja. 
--Diga-me, usa alguma pomada especial?   --Pomada? Meu Deus, no! --Que lhe pe, ento? 
--Que lhe ponho? Absolutamente nada! Cresce,   apenas. 
-- A Natureza favoreceu-o... -- Suspirou e afagou o seu bem tratado bigode preto. -- Por muito caros que 
sejam os preparados, o tratamento para restaurar a cor natural empobrece um pouco a qualidade do 
cabelo... 
Desinteressado de problemas capilares, o inspector Sugden continuou, impacientemente: 
--Considerando o motivo do crime, creio qu.e podemos, tambm, eliminar Mister Stephen Farr. E 
possvel que tenha havido alguma trampolinice entre o pai e Mister Lee e aquele ficasse prejudicado, mas 
duvido. Farr falou com demasiada franqueza e naturalidade,   com confiana, e no me pareceu que 
estivesse a representar. No creio que encontremos alguma coisa, por esse lado... 
-- Sim, inspector, tambm no creio que encontre alguma coisa. 


145 




--H ainda outra pessoa cujo.interesse seria conservar o pai vivo: o filho, Harry. E verdade que o testamento 
o contempla, mas no creio que estivesse ao corrente desse facto. No podia, pelo menos, ter a certeza. A 
impresso geral era a de que Harry fora definitivamente excludo da herana do pai, a partir do momento em 
que abandonara a casa. Mas agora tudo parecia indicar que se estava a tomar o favorito do velhote, e 
portanto seria de toda a vantagem para si que o pai fizesse outro testamento. No seria idiota ao ponto de o 
matar, e alm disso sabemos que no o podia   ter feito. Como v, progredimos, afastamos muita gente do 
caminho. 
--Tem razo! Em breve no restar ningum. -- No iremos to longe -- afimou o inspector, a sorrir. -- 
Temos George Lee e a mulher, e David Lee e a mulher. Beneficiaram todos com a morte, e George Lee, 
segundo deduzi,  sfrego por dinheiro. Alm disso, o pai ameaara-o de lhe reduzir a penso. Por- 
tanto, George Lee tinha motivo e teve oportunidade! 
--Continue -- pediu Poirot. -- Temos, tambm, Mistress George. Gosta de dinheiro como o macaco de 
banana e no se me daria apostar que, neste momento, est crivada de dvidas. Ciumenta da moa 
espanhola, no tardou a perceber que esta ganhava ascendente sobre o velho. Ouviu-o   dizer que la 
modificar o testamento e atacou sem per- 
der tempo. Seria possvel incrimin-la. 
-- Talvez. 
--Temos, ainda, David Lee e a mulher. O testamento existente beneficia-os, mas, no sei porqu, no 
creio que o motivo dinheiro fosse suficientemente for- 
te, no seu caso. 
-- No? 
--No. David Lee parece ser um sonhador, no  tem  nada de interesseiro. No entanto ... bem, 
esquisito.   Na minha opinio, h trs motivos possveis para este assassnio: a histria dos diamantes, o 
testamento   e dio puro e simples. 
146 

--Percebeu isso, hem? 
--Naturalmente. Est presente no meu esprito desde o princpio. Se David Lee matou o pai, no creio que 
tenha sido por dinheiro. Por outro lado, se foi ele o criminoso, talvez esteja explicada a... a san- gueira. 
Poirot olhou-o, interessado, e redarguiu: 
-- Perguntara j a mim mesmo quando tomaria esse pomenor em considerao. Tanto sangue... disse 
Mistress Alfred. Sem querer, lembramo-nos de antigos ritos, de sacrifcios pelo sangue, da uno com que 
o sangue dos sacrifcios... 
--Quer dizer que quem o assassinou  louco? -- perguntou o inspector, de testa franzida. 
--Mon cher, no homem existe uma grande variedade de instintos profundos, dos quais nem ele pr-prio tem 
conhecimento. A sede de sangue, a nsia de sacrifcio... 
-- David Lee parece um tipo sossegado e inofensivo -- mumurou Sudgen, duvidoso. 
-- No compreende a psicologia. David Lee  um homem que vive no passado, um homem que conserva 
ainda muito viva a recordao da me. Esteve afastado do pai durante muitos anos, por no lhe poder 
perdoar a maneira como tratara a me. Voltou agora, suponha- mos que disposto a perdoar. Mas talvez no 
tenha podi- do perdoar... Sabemos que, ao encontrar-se perante o corpo sem vida do pai, uma parte do 
esprito de David Lee sentiu-se apaziguada e satisfeita. Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem 
finssimo. Vingana! Castigo! O mal apagado pela expiao! 
Sugden estremeceu, inesperadamente, e pediu: 
--No fale assim, Mister Poirot. Transtoma-me.  possvel que seja como o senhor diz, e se for, Mistress 
David sabe e tenciona proteger o marido de todas as maneiras possveis. No me custa imagin-la nesse 
papel. Por outro lado, no a posso imaginar como assassina.  uma mulher to simples, to vulgar... 


   147 


 



-- essa a impresso que ela lhe causa? -- per- guntou-lhe Poirot, curioso. 
-- Bem, sim... Um corpo feio, sem arrebiques, se compreende o que quero dizer. --Compreendo 
perfeitamente o que quer dizer.   -- Vamos, Mister Poirot, o senhor tem ideias acerca deste caso. Fora com 
elas! 
--Tenho ideias, sem dvida, mas muito nebulosas. Prefiro ouvi-lo, primeiro, resumir o caso. 
-- Como disse, h trs motivos possveis: dio, dinheiro e a histria dos diamantes. Vejamos os factos 
cronologicamente: s trs horas e trinta da tarde, a famlia reuniu-se e ouviu Mister Lee falar com o 
advogado, pelo telefone. Depois, o velho caiu-lhes em cima, barafustou e mandou-os embora. Saram todos, 
como um grupo de coelhos assustados... 
 --Hilda Lee ficou para trs -- lembrou Poirot. -- Pois ficou, mas no muito tempo. Depois, cerca das seis 
horas, Alfred teve uma conversa com o pai; uma conversa desagradvel, note-se. Alfred devia ser o nosso 
suspeito principal, pois tinha, de longe, o motivo mais forte... Mas prossigamos. Harry visitou o pai a seguir, 
alegre e eufrico; tinha o velho precisamente onde lhe fazia ieito. Mas antes destas duas entrevistas com 
os filhos, Simeon Lee dera pela falta dos diamantes e telefonara-me. No se referiu ao desaparecimento 
das pedras na conversa que teve com os dois filhos. Porqu? Na minha opinio, por estar convencido de 
que nenhum deles estava envolvido no caso, nenhum deles era suspeito. Creio, como sempre disse, que o 
velho suspeitava de Horbury e de outra pessoa, e eu quase iuraria que sei o que tencionava fazer. Lembre- -
se de que disse  famlia que no queria que ningum fosse ter com ele,  noite. Porqu? Porque preparava 
o caminho para duas coisas: para a minha visita, primeiro, e para a visita da outra pessoa suspeita, 
segundo. Pediu a algum que o fosse visitar logo depois do iantar. 
Quem poderia ser esse algum? Podia ser George Lee, mas seria muito mais provvel que fosse a mulher. 
E agora volta  cena outra figura: Pilar Estravados. Simeon Lee mostrara-lhes os diamantes e disseralhe 
quanto valiam. Como sabemos que a rapariga no     uma ladra? Lembre-se das misteriosas insinuaes 
acerca do vergonhoso comportamento do pai. Talvez ele fosse um ladro profissional e acabasse por ser 
preso por isso... 
--Como dizia, Pilar Estravados volta  cena... -- interveio Poirot, devagar. 
-- Sim, como ladra. Pode ter perdido a cabea, ao 
ser desoberta, pode ter-se atirado ao av... 
--E possvel, sim... 
-- Mas no  essa a sua opinio, pois no? -- perguntou o inspector, a olh-lo atentamente. -- Qual  a   
sua opinio, Mister Poirot? 
--Volto sempre ao mesmo: o carcter do morto.   Que espcie de homem era Simeon Lee? 
-- O mistrio no  grande, a esse respeito -- afimou Sugden. 
-- Diga-me, ento.. isto , diga-me, do ponto de vista local, o que se sabia do indivduo. 
O inspector Sugden passou o indicador pelo queixo, com ar duvidoso e perplexo, e respondeu: 
--No sou de c, a minha terra  Reeveshire, no condado seguinte. Mas o velho Mister Lee era bem 
conhecido por estes lados e, por isso, sei tudo a seu 
respeito; pelo que se dizia, evidentemente. 
--E que se dizia? 
--Era um tipo vivo, de quem poucos podiam levar a melhor, mas era generoso com o dinheiro. Mos 
largas, como se diz. Ainda me custa a crer que Mister George Lee, sendo filho de quem , possa ser 
precisamente o contrrio... 
--H duas tendncias distintas na famlia -- explicou Poirot. -- Alfred, George e David saem, pelo 



148         149 


menos superficialmente, ao lado matemo. Estive a ver alguns retratos, na galeria, esta manh. 
--Tinha mau gnio -- continuou o inspector- e m reputao com mulheres; quando era mais novo, 
evidentemente, pois h muitos anos que estava doente, praticamente invlido. Mas mesmo nesse aspecto 
nunca deixou de ser generoso. Se havia complicaes, re- compensava bem a rapariga e arranjava quase 
sempre maneira de a casar. No era boa pea, mas tambm no era mesquinho. Tratou mal a mulher, 
atraioou-a com outras e humilhou-a. Seg.undo dizem, ela morreu com o corao despedaado. E uma 
maneira de falar, bem sei, mas no duvido de que a pobre senhora tenha sido, de facto, muito infeliz. 
Estava sempre acha- cada e saa pouco. No h dvida que Mister Lee era um indivduo estranho e, alm 
disso, vingativo. Se algum  lhe  pregava uma partida, nunca se ficava a rir, por muito tempo que ele tivesse 
de esperar para se vingar. 
-- Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem finssimo... -- mumurou Poirot. 
--Os moinhos do demnio seria mais adequado! -- resmungou Sugden. -- No havia em Simeon Lee 
nada que se dissesse benza-te Deus. Era um daqueles indivduos que pareciam ter vendido a alma ao 
Diabo e gostado do negcio! E ainda por cima era orgulhoso, orgulhoso como Lcifer! 
--Orgulhoso como Lcifer! -- repetiu Poirot. --  sugestivo. 
O inspector fitou-o, intrigado. 
 -- No est a querer dizer que ele pode ter sido as- sassinado por ser orgulhoso, pois no? 
--O que quero dizer  que existe um fenmeno chamado hereditariedade. Simeon Lee transmitiu esse 
orgulho aos filhos... 
Calou-se, de sbito. Hilda Lee sara de casa e esta- va parada, a olhar para o terrao. 
III 


--Vinha procur-lo, Mister Poirot -- disse, simplesmente, Mrs. David Lee. 
O inspector desculpou-se e foi para casa. 
-- No sabia que ele estava consigo -- disse Hilda, ao v-lo afastar-se. -- Julgava que estivesse com a 
Pilar.  Parece um homem decente e atencioso. -- Tinha uma voz agradvel, com uma cadncia doce e 
apaziguadora.    
--Disse que andava  minha procura... -- lembrou Poirot. 
-- verdade. Creio que me pode ajudar. 
--Terei nisso muito prazer, minha senhora. 
-- um homem muito inteligente, Mister Poirot, compreendi-o ontem  noite. Sei que descobrir muitas  
coisas com muita facilidade e desejava que com- preendesse o meu marido. 
--Sim, minha senhora? -- No falaria assim ao inspector Sugden. Ele no compreenderia, mas o senhor 
compreender. 
--Lisonjeia-me, minha senhora -- disse Poirot, com uma inclinao de cabea. 
--H muitos anos, desde que nos casmos -- prosseguiu Hilda, calmamente -- que o meu marido  
o que se pode chamar um estropiado mental. 
-- Ah! 
-- Quando se  vtima de um grande ferimento f-sico, sente-se dor e choque, mas lentamente a came 
sara, os ossos soldam-se, e no fun talvez fique uma pequena   fraqueza e uma leve cicatriz, mas mais 
nada. O meu marido foi vtima de um grande ferimento   mental, numa idade muito melindrosa. Adorava a 
me e viu-a morrer, convencido de que o pai era moralmente responsvel por essa morte. Nunca se refez 
por completo desse abalo, o seu ressentimento contra o pai nunca abrandou. Fui eu que persuadi David a 
vir aqui 



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este Natal, para se reconciliar com o pai. Desejava essa reconciliao por amor dele, queria que o seu 
ferimento mental cicatrizasse. Compreendo agora que a nossa vinda foi um erro, pois Simeon Lee divertiu-
se a remexer nessa velha ferida. Foi... um procedimento muito perigoso... 
--Pretende dizer-me, minha senhora, que o seu marido matou o pai? 
-- Pretendo dizer-lhe, Mister Poirot, que podia t--1o feito... Mas digo-lhe tambm que no o fez! 
Quando mataram Simeon Lee, David tocava a Marcha F-nebre. O desejo de matar enchiaolhe o corao, 
transbordou-lhe para os dedos e morreu em ondas de som...  esta a verdade. 
Poirot ficou silencioso, um ou dois minutos, e depois perguntou: 
--Qual  o seu veredicto acerca desse drama passado, minha senhora? 
--Acerca da morte da mulher de Simeon Lee? -- Sim. 
--Sei o bastante da vida para ter conscincia de que nunca se pode julgar pela aparncia exterior -- 
mumurou Hilda, devagar. -- Tudo indica que Simeon Lee merecia todas as censuras e que tratou abo- 
minavelmente a mulher. No entanto, creio tambm, sinceramente, que existe uma espcie de humildade, 
uma predisposio para o martrio, que exacerba os piores instintos em certo tipo de homens. Creio que 
Simeon Lee teria admirado vigor e fora de carcter, e 
que se sentiu irritado com pacincia e lgrimas. Poirot acenou com a cabea. 
--O seu marido disse,, ontem  noite: A minha me nunca se queixava E verdade? 
--Claro que no  verdade! -- exclamou Hilda, impaciente. -- Queixava-se constantemente a David! 
Descarregou nos ombros dele o pesado fardo da sua infelicidade, e ele era muito novo, demasiado novo 
para suportar tal carga! 
152 


Poirot olhou-a pensativamente e Hilda corou e mordeu os lbios. 
--Compreendo... -- mumurou o detective. 
-- Compreende o qu?  perguntou-lhe ela, vivamente. 
 Compreendo que teve de ser uma me para o 
seu marido, quando preferiria ter sido uma esposa. Hilda desviou o olhar. 
Nesse momento, David saiu de casa e dirigiu-se ao seu encontro. 
 Est um dia maravilhoso, no est, Hilda? -- perguntou, em voz clara e alegre.  At parece Primavera 
em vez de Invemo! 
Aproximou-se mais. Tinha a cabea inclinada para trs, uma madeixa loura cada para a testa e um 
brilho novo nos olhos azuis. Parecia espantosamente jovem e agarotado e desprendia-se dele uma 
impetuosidade juvenil, uma radincia descuidada. Hercule Poirot sustevea  respirao. 
--Vamos para o lago, Hilda. 
A mulher sorriu, deu-lhe o brao e afastaram-se. Enquanto os observava, Poirot viu-a voltarse e lanar-lhe 
um olhar rpido, cheio de ansiedade. Ou se- ria de medo? 
Lentamente, encaminhou-se para o outro lado do terrao. 
Continuo a ser o padre confessor, como sempre!, disse para consigo. E como as mulheres se 
confessam com mais frequncia do que os homens, s mulheres tm batido  minha porta, esta manh... 
Haver mais alguma? 
Quando chegou ao fundo do terrao e retrocedeu, encontrou a resposta  sua pergunta: Lydia Lee 
caminhava  ao seu encontro. 


   

IV 

--Bons dias, Mister Poirot. Tressilian disse-me que o encontraria aqui, com o Harry, mas alegra- 
-me encontr-lo sozinho. O meu marido esteve a falar a seu respeito e sei que est ansioso por falar 
consigo. h Sim? Deseja que v ter com ele? 
-- Ainda no. Teve dificuldade em adomecer, esta noite, e acabei por lhe dar um soporfero forte. Ainda 
est a domir e no o quero perturbar. 
-- Compreendo, e acho que fez muito bem. Pres- senti, ontem  noite, que ele estava muito abalado. 
--Sabe, Mister Poirot, ele sentiu realmente o que 
aconteceu, muito mais do que os outros. 
-- Compreendo. 
--Tem alguma ideia, o senhor ou o inspector, de quem seja o culpado deste horrvel crime? 
-- Temos algumas ideias, minha senhora, de quem   no  culpado. 
 Parece um pesadelo! -- exclamou Lydia, com certa impacincia. -- To fantstico, que ainda me custa 
a acreditar que seja verdade.  E, aps uma pausa, perguntou: -- A respeito do Horbury, sempre foi ao 
cinema, como disse? 
h Foi, sim, minha senhora, a sua histria obteve confimao. O homem disse a verdade. 
Lydia parou, a mexer nas folhas dos teixos, e empalideceu um pouco. 
 Mas isso  horrvel! -- exclamou. -- S resta a famlia! 
-- Exactamente. 
--No posso acreditar, Mister Poirot! 
--Pemita que lhe diga, minha senhora, que pode   e acredita! 
Pareceu prestes a protestar, mas de sbito sorriu, envergonhada. 
--Somos to hipcritas! -- exclamou. 
154 


-- Se fosse franca comigo, minha senhora, admiti- ria que, na sua opinio, lhe parece natural que uma 
pessoa da famflia matasse o seu sogro! 
--Essa afimao  fantstica, Mister Poirot! exclamou, irritada. 
 Pois , mas o seu sogro era uma pessoa fants- fica! 
 Pobre velho! Agora lamento-o, mas quando vi- via aborrecia-me indizivelmente. 
--Imagino! -- exclamou Poirot. 
Debruou-se sobre um dos tanques de pedra e comentou: 
 So muito engenhosos.. muito agradveis. --Ainda bem que gosta, pois so um dos meus passatempos. 
Gosta desta paisagem rcUca, com os pinguins e o gelo? 
 Encantadora. E esta, o que representa? 
 Oh, essa  o mar Morto... ou h-de ser. Ainda no est concluda. Esta representa Plana, na Crsega. 
As tochas so rosadas e encantadoras, quando penetram no mar azul... Esta cena do deserto  
engraada, no ? 
Quando chegaram ao fundo do terrao, Lydia viu as horas e disse: 
 Tenho de ir ver se o Alfred i acordou. 
Ao ficar s, Poirot regressou, devagar, ao tanque que representava o mar Morto e observou-o muito 
interessado. Depois pegou nalguns seixos e deixou-os deslizar pelos dedos. 
De sbito, a sua expresso modificou-se. Aproximou as pedras dos olhos e exclamou: 
 Sapristi.t Que surpresa! Que significar isto, ao certo? 


 



V PARTE 

2 de Dezembro 

O chefe da Polcia e o inspector Sugden olharam- -no, incrdulos. Poirot meteu um punhado de 
pequenos seixos numa caixa de carto, cuidadosamente, e estendeu-a ao chefe da Polcia. 
--Oh, sim, so diamantes! -- afimou.   --E encontrou-os onde disse? No jardim? 
--Num dos pequenos jardins artificiais constru-dos por Mistress Alfred. 
--Mistress Alfred? -- Sugden abanou a cabea. -- No me parece provvel. 
-- Quer dizer, presumo, que no considera prov-vel que Mistress Alfred tenha cortado a garganta ao 
sogro? -- perguntou-lhe o detective. 
-- Sabemos que no o fez -- apressou-se a declarar o inspector. -- O que queria dizer  que no me 
pare- cia provvel que ela tivesse roubado os diamantes. 
-- Sim, no  fcil acreditar que seja uma ladra -- concordou Poirot. 
-- Qualquer pessoa os podia ter l escondido -- alvitrou .Sugden. 
-- E verdade. Foi uma coincidncia haver naquele jardim, representa o mar Morto, seixos muito 
semelhantes a estes diamantes, em foma e aspecto... 
-- Quer dizer que ela preparou tudo de antemo?   -- perguntou Sugden. 
-- No acredito! -- afimou veementemente o coronel, m Nem por um momento! Antes de mais nada, 
para que tiraria ela os diamantes? 
--Bem, quanto aisso... -- mumurou, devagar, Sugden. 
-- H uma possvel resposta a essa pergunta -- declarou Poirot. -- Pode ter tirado os diamantes a fim de 
sugerir um mbil para o crime. Quero dizer, sabia que in verificar-se o assassnio, embora ela prpria no 
tomasse parte activa nele. 
--Essa teoria no se sustm de p um minuto -- ripostou Johnson, de testa franzida. -- Nesse caso se- 
ria cmplice, mas cmplice de quem? S se fosse do marido... Mas como sabemos que ele tambm no 
teve nada a ver com o crime, l se vai a hiptese por gua abaixo. 
Sugden afagou o queixo, pensativamente. 
-- Sim,  isso... Se Mistress Lee tirou os diamantes, e  um grande se.!, s se pode ter tratado de 
roubo puro e simples. E verdade que podia ter preparado  o tal jardim especialmente para lhes servir de 
esconderijo,  at as coisas acalmarem... Mas no  menos verdade que pode ser tudo uma coincidncia. 
Esse jardim feito de seixos pareceu ao ladro, quem quer que ele seja um esconderijo ideal. 
-- E possvel, de facto -- admitiu Poirot. -- Estou sempre disposto a admitir uma coincidncia. 
Sugden abanou a cabea, duvidoso, e Poirot inter- pelouo: 
--Qual  a sua opinio, inspector? 
--Mistress Lee  uma senhora muito decente -- mumurou o outro, cauteloso. -- No me parece provvel 
que colaborasse numa coisa desonesta. Mas, claro, nunca se sabe... 
-- De qualquer maneira -- interveio Johnson, um pouco agastado --, qualquer que seja a verdade acerca 
dos diamantes, est ilibada quanto ao assassnio. O mordomo viu-a na sala, no momento exacto em que 
matavam o sogro dela. Lembra-se, Poirot? 
--No me esqueci. 
--Continuemos -- disse o chefe da Polcia ao subordinado.  -- Tem alguma novidade para comunicar? 
--Tenho, sim, senhor. Obtive algumas infomaes  novas. Comecemos por Horbury. Tem motivos para 
temer a Polcia. 
-- Roubo? 



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--No, senhor. Extorso de dinheiro, mediante ameaas. Chantagem modema... Safou-se por no ter sido 
possvel provar nada, mas desconfio que conseguiu os seus intentos num caso ou dois. Como tem a 
conscincia pesada, deve ter pensado que vinha por sua causa, quando o Tressilian lhe disse que estava 
c  em casa um polcia, ontem  noite. 
--Chega de Horbury. Que mais temos? -- perguntou Johnson. 
O inspector tossicou. 
-- Temos... Mistress George Lee. Soubemos umas coisas dela, antes de casar. Viveu com um tal 
comandante Jones. Passava por sua filha, mas no era... Pelo que me disseram, creio que o velho Mister 
Lee a soube avaliar bem, era vivo, no que respeitava a mulheres, conhecia uma m pea  distncia!, e se 
divertiu a atirar o barro  parede. E acertou em cheio! 
--Isso d-lhe outro motivo possvel, alm do dinheiro -- observou o coronel, pensativo. -- Pode ter 
pensado que o sogro sabia alguma coisa de concreto e tencionava denunci-la ao marido. A histria do 
telefonema cheira-me a esturro. Ela no telefonou. 
--Porque no os chamamos aos dois, ao mesmo tempo, para esclarecer de vez esse pomenor? -- 
sugeriu o inspector. 
-- Boa ideia. 
Tocou a campainha e Tressilian no tardou. 
--Pea a Mister e Mistress George Lee que venham c. 
--Muito bem, senhor. Quando o velho se afastava, Poirot perguntou: 
-- A data daquele calendrio de parede ficou assim desde o assassnio? 
Tressilian retrocedeu. 
--De que calendrio, senhor? 
--Do daquela parede. Os trs homens estavam de novo sentados no pequeno gabinete de Alfred Lee. O 
calendrio em ques- 
158 

to era grande, tinha folhas de arrancar e uma data em algarismos grandes em cada folha. 
Tressilian olhou, com os olhos piscos, e depois atravessou lentamente o aposento, at ficar a cerca de 
trinta centmetros da parede. 
--Desculpe, senhor, mas foi arrancada a folha. Hoje  dia 26. 
--A.h, perdo! Quem teria tirado a folha? 
--E Mister Alfred Lee quem o faz, todas as ma- 
nhs. Mister Alfred  muito metdico. 
-- Compreendo. Obrigado. 
Tressilian saiu e Sugden perguntou, intrigado: 
-- H alguma coisa especial nesse calendrio, Mister Poirot? 
--O calendrio no tem importncia -- respon- deu-lhe o detective, com um encolher de ombros. -- Quis 
fazer, apenas, uma pequena experincia. 
--O inqurito  amanh -- avisou o coronel. -- Claro que haver adiamento. 
--Com certeza, senhor coronel. Falei com o juiz de instruo e est tudo combinado. 

II 

George Lee entrou no gabinete acompanhado pela mulher. 
-- Bons dias -- cumprimentou o coronel. -- Queiram sentar-se. Desejo fazer umas perguntas a ambos, 
acerca de um pomenor que no me parece claro. 
-- Terei muito prazer em auxiliar no que puder -- respondeu George, pomposamente. 
--Com certeza! -- confimou Magdalene, baixinho. 
Johnson inclinou a cabea a Sugden, que se encarregou do interrogatrio: 


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--Trata-se dos telefonemas feitos na noite do crime. Creio que nos disse que fez uma chamada para 
Westeringham, Mister Lee? 
--Fiz, sim -- respondeu George, friamente. -- Telefonei ao meu agente eleit0ral e, se desejarem, 
podem... 
O inspector levantou a mo, para deter o chorrilho de palavras. 
--Muito bem, Mister Lee, muito bem. No pomos em dvida esse facto. A sua chamada foi feita s oito 
horas e cinquenta e nove, exactamente. 
-- Bem, no posso afimar o tempo com essa exactido...    
--Mas ns podemos! Conferimos sempre estas coisas com todo o cuidado. A chamada foi feita s oito 
horas e cinquenta e nove e teminou s nove horas e quatro. O seu pai, Mister Lee, foi assassinado s nove 
horas e quinze, aproximadamente, e por isso tenho de  lhe  pedir, mais uma vez, que nos diga o que fazia a 
essa hora. 
--J lhes disse que estava a telefonar! 
--No, Mister Lee, no estava! -- Tolice! Deve ter-se enganado! Eu devia ter acabado de telefonar, creio 
que estava a pensar se devia fazer outra chamada.. a considerar se valeria.. bem, a despesa.. quando ouvi 
o barulho, l em cima. 
--No levaria dez minutos a tentar decidir se de- via ou no fazer um telefonema. 
George ficou rubro e comeou a gaguejar. 
-- Que quer dizer? Que diabo quer dizer? Maldito atrevimento! Duvida da minha palavra? Duvida da 
palavra de um homem da minha posio? Por que diabo hei-de .dar contas de todos os minutos do meu 
tempo? 
-- E usual -- respondeu-lhe o inspector, com uma placidez que Poirot no pde deixar de admirar. 
George voltou-se, furioso, para o chefe da Polcia e interpelouo: 
--Coronel Johnson, admite esta.. esta atitude sem precedentes? 
--Num caso de assassnio, Mister Lee, estas perguntas devem ser feitas.. e respondidas,t -- replicou o 
outro, secamente. 
--J lhes respondi! Acabara de telefonar e estava a pensar se devia fazer ou no outra chamada. 
-- Estava neste aposento quando se ouviu barulho l em cima? 
--Estava... estava, sim. Johnson voltou-se para Magdalene. 
-- Creio, Mistress Lee, que nos disse que estava a telefonar, e sozinha neste gabinete, quando ocorreu 
o crime? 
Magdalene ficou atrapalhada. Olhou de esguelha para o marido e para Sugden e depois, com 
expresso suplicante, para o coronel. 
--Confesso que no sei.. que no me lembro do que disse... Estava to transtomada! 
-- Temos todas as declaraes escritas -- lembrou-lhe
 o inspector. Magdalene virou todas as baterias para ele... Olhos muito abertos e suplicantes, boca trmula... 
Mas em troca recebeu a rgida indiferena de um homem de fime respeitabilidade, que desaprovava as 
mulheres do seu tipo. 
-- Eu... claro que telefonei... -- gaguejou. -- Mas no tenho a certeza quando... 
--Que vem a ser isto? -- interveio George. -- Donde telefonaste? Daqui no foi. 
--Sugiro-lhe, Mistress Lee, que no telefonou --   disse Sugden. -- Portanto, onde estava e o que estava 
a fazer? 
Magdalene olhou  sua volta, desesperada, e depois desatou a chorar. 
--George, no consintas que me atomentem! -- soluou. -- Sabes muito bem que se me assustam e 
se comeam com perguntas, no me consigo lembrar de nada! No sabia o que dizia, naquela noite... Foi 
tudo to horrvel, e eu estava to transtomada... E agora esto a ser to desagradveis comigo! 



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Levantou-se, bruscamente, e saiu a soluar do gabinete. 
George levantou-se, tambm, e barafustou: 
-- Que vem a ser isto? No consinto que atomentem e assustem a minha mulher desta maneira! Ela   
muito sensvel. Isto  uma vergonha! Hei-de falar no Parlamento dos vergonhosos mtodos torturantes da 
Polcia!  indecente, absolutamente indecente! 
Saiu tambm e bateu com a porta. 
O inspector Sugden inclinou a cabea para trs e desatou a rir. 
-- Pusemo-lo em ponto de rebuado! -- exclamou. -- Agora veremos! 
--Mas que complicao! -- comentou o coronel, de testa franzida. -- Cheira a esturro... Temos de 
arrancar a Mistress Lee outra declarao. 
--Oh, ela volta daqui a um ou dois minutos! -- afimou o inspector, despreocupado. -- Quando deci- 
dir o que deve dizer, no  verdade, Mister Poirot? Poirot, que parecia sonhar, estremeceu.   -- Pardon? 
--Disse que ela voltaria. 
-- Provavelmente... Oh, sim! 
--Que se passa, Mister Poirot? -- perguntoulhe o inspector, a olh-lo com ateno. -- Viu um fantasma? 
--Sabe, no garanto que no tenha visto exactamente isso! 
-- Mais alguma coisa, Sugden? -- perguntou o coronel, impaciente. 
-- Tentei averigua.r a ordem por que cada um chegou  cena do crime. E evidente o que deve ter 
acontecido.  O assassino esgueirou-se do quarto, fechou a porta com a ajuda do alicate ou de qualquer 
outra ferramenta desse gnero e, passado um momento ou dois, tomou-se numa das pessoas que corriam 
para a cena do crime... Infelizmente, no  fcil averiguar quem cada uma das pessoas viu, pois em 
semelhantes circunstncias as memrias falham. Tressilian diz que viu Alfred e Harry atravessarem o 
vestbulo, vindos da sala de jantar, e correr pela escada acima. Isso iliba-os, mas ns tambm no 
suspeitamos deles. Segundo deduzi, Miss Estravados foi das ltimas a chegar, enquanto parece que Farr, 
Mistress George e Mistress David foram das primeiras. Cada um dos trs diz que um dos outros ia  sua 
frente. A dificuldade reside em ser impossvel distinguir entre uma mentira deliberada e uma confuso de 
memria sincera. Toda a gente para l se dirigiu a correr, mas por que ordem  que no se sabe. 
-- Considera isso importante? -- perguntou Poi- rot, devagar. 
-- O que  importante  o elemento tempo. Lembre-se,  Mister Poirot, de que o tempo foi incrivelmente 
breve. 
--Concordo que, de facto, o elemento tempo   importante neste caso. 
--Para complicar mais as coisas, h duas escadas   -- prosseguiu o inspector. -- A principal, no vestu- 
lo, e que fica mais ou menos  mesma distncia da casa de jantar e da sala, e uma outra ao fundo da 
casa. Stephen Farr subiu por esta ltima. Miss Estravados surgiu do ltimo patamar desse lado, o seu 
quarto fica no outro extremo, e os outros dizem que foram pela escada principal. 
-- E uma grande confuso, sem dvida -- comentou Poirot. 
A porta abriu-se e Magdalene entrou, apressada- mente. Ofegava e tinha uma roseta de cor em cada 
face. 
-- O meu marido julga que estou deitada -- declarou, muito calma. -- Escapei-me do quarto... -- Olhou 
para o chefe da Polcia, com uma expresso angustiada, e perguntou-lhe: -- Se eu lhe disser a verdade, 
coronel Johnson, guardar segredo, no guardar? Quero dizer, no tomar tudo pblico? 



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--Quer referir-se, com certeza, a algo que no  tem  relao com o crime? 
-- Sim, nenhuma relao. Trata-se de um assunto da minha.. da minha vida privada. 
-- Aconselho-a a ser sincera, Mistress Lee, e a dei- xar-nos decidir, depois. 
-- Sim, confiarei em si -- mumurou, com olhos temos. -- Sei que posso confiar. Tem um ar to bon- 
doso! Sabe, h algum... 
Calou-se, e Johnson insistiu: 
-- Ento, Mistress Lee? 
--Queria telefonar a algum na outra noite.. a um homem.. um amigo meu, e no desejava que o 
George soubesse. Sei que procedi mal, mas pacincia. Depois do jantar, vim aqui para telefonar, conven- 
cida de que o George estava na casa de jantar, mas quando cheguei ouvi-o a servir-se do telefone e, por is- 
so, esperei. 
--Esperou onde, minha senhora? -- perguntou- 
-lhe Poirot. 
--H uma espcie de arrecadao de casacos e roupas, atrs da escada. Meti-me l, pois podia ver o 
George sair daqui. Mas ele no saiu e, de sbito, ouvi o barulho e o grito de Mister Lee e corri pela escada 
acima. 
-- Quer dizer que o seu marido no saiu deste ga- 
binete at ao momento do crime? 
-- No. 
-- E a senhora esteve  espera, das nove s nove e um quarto, no recesso atrs da escada? -- inquiriu 
o chefe da Polcia. 
--Estive, mas no o podia dizer, compreende? Quereriam saber porqu e seria muito desagradvel para 
mim explicar... Compreende, no compreende? 
-- Seria, com certeza, desagradvel -- replicou secamente o coronel. 
Magdalene sortiu-lhe, com doura, e exclamou: 
--Estou to aliviada por lhe ter dito a verdade! 
164 

No dir nada ao meu marido, pois no? No, tenho a certeza de que no dir! Vejo que posso confiar em 
todos vs. 
Incluiu-os aos trs num ltimo olhar temo e apres- sou-se a sair do gabinete. 
O coronel respirou fundo. 
-- Bem, pode ter sido como ela diz! -- exclamou. --  uma histria plausvel. Por outro lado... 
-- Pode no ter sido -- concluiu Sugden. --  esse o mal: no sabemos. 

Ill 

Lydia Lee encontrava-se junto da janela da sala, a olhar para fora. O pesado cortinado ocultava-lhe 
parcialmente o corpo. De sbito voltou-se, com um estre- 
mecimento, e viu Hercule Poirot parado  porta. 
-- Assustou-me, Mister Poirot. 
-- Peo desculpa, minha senhora. Ando silenciosamente. 
--Julguei que fosse o Horbury. 
-- E verdade, esse anda sorrateiramente, como um gato.. ou um ladro. 
Calou-se, a observ-la, mas o rosto de Lydia no denunciou qualquer emoo. Limitou-se a fazer uma 
careta de desagrado e a dizer: 
--Nunca simpatizei com esse homem. Terei prazer em me livrar dele. 
--Creio que ser sensato faz-lo, minha senhora. Lydia olhou-o, atenta, e perguntou-lhe: 
--Que quer dizer? Sabe alguma coisa contra ele? 
--E um homem que colecciona segredos.. e os utiliza em seu proveito. 
-- Julga que ele sabe alguma coisa.. acerca do assassnio? 


   165 




Poirot encolheu os ombros e respondeu: 
d Tem ps suaves e orelhas compridas... Pode ter ouvido qualquer coisa que est a guardar para si. 
P Pensa que ser capaz de tentar exercer chantagem sobre um de ns? 
--Est dentro dos limites das possibilidades... 
Mas no foi para lhe dizer isso que vim aqui.   --Que me quer dizer, ento? 
P Estive a falar com Mister Alfred Lee -- respondeu Poirot, devagar. -- Seu marido fez-me uma proposta 
que desejo discutir consigo antes de aceitar ou declinar. Mas fiquei to encantado com o quadro que se me 
deparou, o lindo padro da sua camisola contra o vemelho-vivo dos cortinados, que tive de parar a admir-la. 
 Francamente, Mister Poirot, acha necessrio perdemos tempo com cumprimentos? -- perguntou- -lhe 
Lydia, com um laivo de irritao. 
--Peo desculpa, minha senhora, mas so to poucas as senhoras inglesas que compreendem la 
toilette... O vestido que envergava na noite em que a conheci tinha graa e distino, com o seu corte 
simultaneamente ousado e simples. 
--Que me queria dizer?  insistiu Lydia, impaciente. 
Poirot adquiriu um ar grave. 
--Apenas isto, minha senhora: seu marido deseia que me encarregue da investigao muito a srio, 
que fique c em casa e me esforce o mais que puder para chegar ao fundo do caso. 
  E ento?  perguntou Mrs. Lee, asperamente. 
-- No desejaria aceitar um convite que no mere- cesse a aprovao da dona da casa. 
 Aprovo o convite do meu marido, claro -- afimou, com frieza. 
 Pois sim, minha senhora, mas preciso de mais do que isso. Quer realmente que eu venha para c? 
-- Porque no? 
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-- Sejamos francos. O que pretendo que me diga  
o seguinte: deseja ou no que a verdade se descubra?   -- Naturalmente. 
Poirot suspirou, desanimado. 
--Porque me d s respostas convencionais? --Sou uma mulher convencional.  Depois fez uma pausa, 
hesitou e mordeu os lbios. -- Talvez seja, de facto, melhor falar-lhe francamente. Claro que o compreendo; 
a situao no  agradvel. O meu sogro foi brutalmente assassinado, e se no for possvel incriminar o 
suspeito mais provvel, Horbury, de roubo e assassnio, e parece que no ser possvel, chegaremos a isto: 
s pode ter sido uma pessoa da famlia. Levar essa pessoa perante a justia equivaler a lanar vergonha e 
desgraa sobre todos ns... Se lhe falar com toda a franqueza, tenho de admitir que no desejo que tal 
acontea. 
--No se importaria que o assassino ficasse impune? 
--Creio que h vrios assassinos impunes  solta, por esse mundo fora. 
--A esse respeito, no restam dvidas. 
--Que importncia ter mais um? 
-- E os outros membros da famlia? Os inocentes? Lydia estremeceu. --Que quer dizer?   
--Compreende, sem dvida, que se as coisas acontecerem como espera nunca ningum saber?   A 
sombra pairar sobre todos, sem distino... 
--No tinha pensado nisso -- mumurou, hesitante. 
-- Nunca ningum saber quem  o culpado -- pros- seguiu Poirot, e acrescentou, docemente: -- A no 
ser que a senhora j saiba... 
--No tem o direito de dizer isso! -- exclamou, irritada.  No  verdade! Oh, se ao menos pudesse ser 
um desconhecido e no um familiar! 
--Talvez seja ambas as coisas. 


 167 




--Que quer dizer? -- perguntou-lhe, surpreen- dida. 
-- Talvez seja uma pessoa da famlia.. e ao mesmo tempo um desconhecido. No compreende o que 
quero dizer? Eh bien, trata-se de uma ideia que acudiu ao esprito de Hercule Poirot. -- Olhou-a e 
perguntou: 
--         Ento, minha senhora, que respondo a Mister Lee? Lydia levantou as mos e depois deixou-as cair, 
num sbito gesto de desnimo. 
--Claro que deve aceitar -- mumurou. 

IV 


Pilar encontrava-se no meio da sala de msica, muito direita, a olhar de lado para lado, como um 
animal assustado, receoso de um ataque. 
--Quero ir-me embora daqui para fora! -- exclamou. 
-- No  a nica a pensar assim -- respondeulhe Stephen Farr, docemente. -- Mas no nos deixaro, 
minha querida. 
--Refere-se  Polcia? 
-- Retiro. 
--No  decente estar envolvida com a Polcia -- afimou a jovem, muito sria. --  uma coisa que no 
devia acontecer a pessoas respeitveis. 
--Como voc, no? -- perguntou-lhe Stephen, a sorrir. 
--No. Como o Alfred e a Lydia, o David, o George e a Hilda e... sim, e a Magdalene, tambm. 
Stephen acendeu um cigarro e puxou uma ou duas 
fumaas, antes de perguntar: --Porqu a excepo? --Que quer dizer? 
--Porque no mencionou o nosso imo Harry? 
Pilar riu-se, mostrando os dentes brancos e certos. 
--Oh, o Harry  diferente! Sei que sabe muito bem o que  estar envolvid, o com a Polcia! 
--Talvez tenha razo. E excessivamente pitoresco para ligar bem com o quadro domstico... Gosta dos 
seus parentes ingleses, Pilar? 
-- So todos amveis.. muito amveis, mesmo -- respondeu-lhe a rapariga, duvidosa. -- Mas riem-se 
pouco, no so alegres. 
--Minha cara, houve h pouco um assassnio c  em casa! 
--Sim... -- mumurou, com pouca convico.   --Um assassnio no  uma ocorrncia banal, de todos os 
dias, como a sua despreocupao parece sugerir. Seja o que for que pensem a tal respeito em Espanha,  
aqui em Inglaterra tomam-se os assassnios muito a srio. 
--Est-se a rir de mim! 
--Engana-se, Pilar, no estou com disposio para rir. 
A rapariga olhou-o e perguntou-lhe, sria: 
-- No lhe apetece rir porque tambm se desejava ir embgra, no ? 
--E. 
--E o polcia alto e atraente no o deixa? 
--No lhe pedi, mas tenho a certeza de que se o fizesse me responderia que no. Preciso de ser muito, 
muito auteloso, Pilar. 
--E aborrecido ser cauteloso. 
-- um pouco mais do que aborrecido, minha querida. Ainda por cima anda por a esse estrangeiro maluco 
a cheirar... No creio que ele preste para algu- ma coisa, mas enerva-me. 
--O meu av era muito, muito rico, no era? -- perguntou-lhe Pilar, de testa franzida. 
--Creio que sim. 
--Para quem vai, agora, o seu dinheiro? Para o Alfred e para os outros? 



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--Depende do seu testamento. 
--Podia ter-me deixado qualquer coisa, mas creio que no deixou -- mumurou, pensativa. 
-- No se preocupe -- tranquilizou-a Farr, bondo- samente. -- No fim de contas, voc  da famlia, per- 
tence aqui. Olharo por si. 
-- Perteno aqui... -- repetiu a rapariga, a suspirar. -- E cmico, isso.. e, contudo, no tem graa ne- 
nhuma. 
--Compreendo que no ache muito divertido. Pilar suspirou de novo. 
--Acha que podamos danar, se tocssemos discos? 
--No creio que parecesse bem... Esta casa est  de luto, sua espanholita cruel. 
-- Mas eu no me sinto nada triste! -- exclamou a rapariga, com os olhos grandes muito abertos. -- No 
conhecia praticamente o meu av, e embora gostasse de conversar com ele no me apetece, chorar nem 
sen- 
tir-me infeliz por ele ter morrido. E estpido fingir. 
--Voc  adorvel! -- exclamou Stephen.   -- Podamos pr umas meias e umas luvas no gra- mofone, para 
no fazer muito barulho, e ningum ou- viria... 
-- Venha, tentadora. 
A rapariga riu-se, feliz, e correu na direco da sala de baile, que ficava ao fundo da casa. 
Ao chegar ao corredor lateral que levava  porta do jardim, estacou. Stephen alcanou-a e parou 
tambm. 
Hercule Poirot tirara um retrato da parede e obser- vava-o  luz que vinha do terrao. Ao v-los, 
exclamou: 
--Chegam no momento oportuno! 
--Que est a fazer? -- perguntou Pilar, aproxi- mando-se e parando ao lado dele. 
-- Estava a estudar uma coisa muito importante -- respondeu-lhe Poirot, gravemente. -- O rosto de 
Simeon Lee quando era novo. 
17O 

--Esse era o meu av? 
--Era, sim, mademoiselle.   Pilar olhou o rosto pintado e mumurou, a arrastar as palavras: 
--Que diferena.. que grande diferena... Agora era to velho, to mirrado. Aqui parece o Harry... como o 
Harry deve ter sido h dez anos. 
--Exactamente, mademoiselle. Harry  muito o filho do seu pai... -- Conduziu-a ao longo da galeria e 
acrescentou: -- Esta  a senhora sua av... Rosto comprido e bondoso, cabelo muito louro, suaves olhos 
azuis... 
--Como o David! -- exclamou Pilar. -- E um pouco, tambm, como o Alfred -- acrescentou Stephen. 
--A hereditariedade  um fenmeno muito interessante -- declarou Poirot. -- Mister Lee e a esposa 
pertenciam a tipos diametralmente opostos. No conunto, os filhos do seu casamento saram  me. 
Repare,   mademoiselle... 
Apontou o retrato de uma rapariga dos seus dezanove anos, de cabelo como ouro fiado e grandes olhos 
azuis sorridentes. A cor era a mesma da mulher de Simeon Lee, mas havia na expresso uma energia e 
uma vivacidade que aqueles suaves olhos azuis e aquelas 
feies plcidas jamais tinham conhecido. 
--Oh! -- exclamou Pilar, corando. Levou a mo ao pescoo, tirou um medalho que trazia suspenso de um 
fio de ouro, comprido, carregou numa mola e abriu-o. Poirot viu na sua frente o mesmo rosto sorridente. 
--A minha me -- disse a jovem. O detective acenou com a cabea. Do lado oposto do medalho havia o 
retrato de um homem jovem e 
atraente, de cabelo preto e olhos azul-escuros. 
--O seu pai? 
--S.im, o meu pai.  muito bonito, no ? 
--E, sem dvida. Poucos espanhis tm olhos azuis, no  verdade? 


171 


 



-- s vezes, no Norte. Alm disso, a me do meu pai era irlandesa. 
--Portanto, a mademoiselle tem sangue espanhol, irlands e ingls, e tambm uma gotinha de cigano! 
Sabe o que penso? Penso que, com essa herana, daria uma inimiga terrvel. 
--Lembra-se do que disse no comboio, Pilar? -- perguntou Stephen, a rir. -- Afimou que a sua maneira 
de lidar com os seus inimigos seria cortar-lhes a garganta... Oh! 
Calou-se, compreendendo bruscamente o significado das suas palavras, e Hercule Poirot apressou-se 
a mudar de assunto: 
--Agora me lembro, seorita, de que lhe queria pedir uma coisa: o seu passaporte. O meu amigo, o 
inspector, precisa dele. Como sabe, h certas nomas em relao aos estrangeiros que vm a este pas, 
nomas muito estpidas e maadoras, mas necessrias, e, por lei, a seorita  estrangeira. 
Pilar arqueou as sobrancelhas. 
--O meu passaporte? Est no meu quarto. You busc-lo. 
--Lamento muito incomod-la, acredite -- afimou Poirot, a caminhar a seu lado. 
Tinham chegado ao fim da comprida galeria, onde havia um lano de escada. Pilar correu por ela acima 
e Poirot e Stephen seguiram-na. O quarto da rapariga fi- cava mesmo ao cimo da escada. 
--You buscar o passaporte -- disse, ao chegar   porta. 
Entrou, e Poirot e Stephen ficaram  espera, do lado de fora. 
-- Foi uma grande estupidez da minha parte fazer uma observao daquelas -- disse Farr, cheio de 
remorsos. -- No entanto, creio que ela nem deu por is- so, pois no? 
Poirot no respondeu. Tinha a cabea um pouco inclinada para trs, como se estivesse  escuta. 
-- Os Ingleses gostam muito de ar -- mumurou. -- Miss Estravados deve ter herdado essa caracterstica. 
--Porqu?- perguntou Stephen, admirado. --Porque, embora hoje esteja muito frio, ao contrrio de ontem, 
que esteve sol e uma temperatura amena, Miss Estravados acaba de levantar a parte de baixo da sua 
janela.  extraordinrio como se pode gostar tanto de ar puro... 
De sbito, ouviu-se uma exclamao em espanhol, dentro do quarto, e Pilar saiu, a rir. 
-- Sou muito estpida e desajeitada! -- exclamou.   -- Tinha a mala no parapeito da janela e ao abri-la, 
apressadamente, deixei cair o passaporte. Est l em baixo, no canteiro das flores. You busc-lo. 
-- Eu you -- ofereceu-se Stephen, mas Pilar pas- sara-lhe  frente, a correr, e respondeu-lhe, por cima 
do ombro: 
--No, a desastrada fui eu. V para a sala com Mister Poirot, e eu irei l ter, com o passaporte. 
Stephen Farr pareceu inclinado a segui-la, mas Poirot agarrou-lhe brandamente num brao e disse-lhe:    
--Vamos por aqui. 
Seguiram pelo corredor na direco do outro extremo da sala, at chegarem ao patamar da escada 
principal. 
-- Queria perguntar-lhe uma coisa, se fizer o favor de me acompanhar ao quarto do crime -- disse Poirot. 
Meteram.pelo corredor que levava ao quarto de Simeon Lee. A esquerda, passaram por um nicho com 
duas esttuas de mmore, duas ninfas atlticas, agar- radas s suas roupagens numa angstia de 
decncia vitoriana. 
Stephen Farr olhou-as e mumurou: 
-- So horrveis,  luz do dia. Quando passei por aqui, na outra noite, pensei que eram trs, mas graas 
a Deus so apenas duas! 
 


172         173 
  

-- Hoje j ningum admira este gnero -- concordou Poirot. -- Mas custaram com certeza muito dinheiro, no 
seu tempo...  noite devem ter melhor aspecto, creio. 
-- Sim,  noite vem-se apenas os vultos brancos, a brilhar. 
--  noite todos os gatos so pardos -- mumurou o detective. 
Encontraram o inspector Sugden no quarto, ajoe- lhado junto do cofre e a examin-lo com uma lente. 
Levantou a cabea, ao ouvi-los entrar, e disse: 
--No h dvida de que foi aberto com a chave, por algum que conhecia a combinao. No h vest-
gios de outra coisa. 
Poirot aproximou-se e disse-lhe qualquer coisa, em voz baixa. Sugden acenou com a cabea e saiu do 
quarto. 
Poirot voltou-se para Stephen Farr, que estava parado a olhar para a poltrona onde Simeon se costuma- 
va sentar. Tinha as sobrancelhas franzidas e as veias salientes, na testa. O detective observou-o um instan- 
te, em silncio, e depois perguntou-lhe: 
--Est a recordar, no  verdade? 
-- H dois dias estava all sentado, vivo -- mumu-  roll , devagar, Farr. -- E agora... -- Sacudiu a cabea, 
como se quisesse afastar os pensamentos, e disse: -- Trouxe-me aqui para me perguntar qualquer coisa, 
no  verdade, Mister Poirot? 
-- Ah, sim! Foi, creio, a primeira pessoa a chegar  cena do crime, naquela noite? 
--Fui? No me lembro. No, creio que chegou 
uma das senhoras antes de mim. 
-- Qual delas? 
--Uma delas. Suponho que a mulher do George 
ou do David... Chegaram aqui muito depressa. --Disse que no ouviu o grito, no disse? 
-- Creio que no ouvi. Pelo menos no me lembro. Algum gritou, mas deve ter sido l em baixo. 
-- No ouviu um rudo como este?... -- Inclinou a 
cabea para trs e, de sbito, soltou um grito dilace- rante. 
Foi to inesperado, que Stephen deu um pulo para trs e quase caiu. 
--Com os diabos -- protestou, irritado --, quer assustar a casa toda? No, no ouvi nada parecido com 
isso! Vo ficar todos apavorados, apensar que se deu outro crime! 
Cabisbaixo, Poirot mumurou: 
m Tem razo... Foi estupidez da minha parte... 
Saamos imediatamente daqui. 
Saiu do quarto, muito apressado. Lydia e Alfred espreitavam para cima, ao fundo da escada, George 
saiu da biblioteca, ao seu encontro, e Pilar apareceu a correr, com um passaporte na mo. 
--No foi nada -- explicou Poirot. -- No se assustem. Tratou-se apenas de uma pequena experincia 
que eu fiz, mais nada. 
Alfred pareceu aborrecido e George indignado. Poirot deixou Stephen a explicar o que se passara e 
seguiu apressadamente pelo corredor fora, na direco do outro lado da casa. 
Ao fundo do corredor, o inspector Sugden saiu tran- 
quilamente do quarto de Pilar e foi ao seu encontro.   --Eh bien?  perguntou-lhe o detective. --Nem um som. 
Os olhos do inspector mergulharam nos de Poirot, ao mesmo tempo que Sugden acenava com a 
cabea, apreciativamente. 

V 


--Aceita, ento, Mister Poirot? -- perguntou Alfred. 
A mo que levou  boca tremia ligeiramente, e nos seus suaves olhos castanhos brilhava uma 
expresso 



174         175 
   



nova e febril. Gaguejava um pouco, ao falar, e Lydia, de p a seu lado, observava-o com certa ansiedade. 
--No sabe.. no po... pode imaginar.. o que si... significa pa... para mim. O assassino do meu pai  tem  
de ser en... encontrado! 
-- Como me garantiu que reflectiu bem no assunto, aceito -- respondeu-lhe Poirot. -- Mas compreen- da, 
Mister Lee, que no poder voltar atrs. No sou co que se lance numa pista e depois se chame, por no 
se gostar da caa que ele levanta! 
-- Claro, claro! Est tudo preparado. O seu quarto est pronto. Fique o tempo que quiser. 
-- No ser muito -- prometeu Poirot, gravemente. --O qu? Que disse? 
--Disse que no ser muito. Este crime deu-se num crculo to restrito que no ser preciso muito 
tempo para descobrir a verdade. Creio, at, que o fim j se aproxima. 
-- Impossvel! -- exclamou Alfred, de olhos arregalados.    
-- Os factos apontam todos, mais ou menos claramente, num sentido. Basta apenas afastar do 
assunto um pomenor sem importncia. Depois disso, a verdade surgir. 
-- Quer dizer que sabe? -- perguntou Alfred, incrdulo. 
--Oh, sim, sei! -- afimou, a sortir. 
-- O meu pai.. o meu pai... -- gaguejou Alfred, e virou a cabea. 
-- Tenho de lhe fazer dois pedidos, Mister Lee -- disse Poirot, em tom brusco. 
--Tudo quanto quiser.. tudo... -- redarguiu o outro, em voz abafada. 
--Primeiro, gostava de ter no quarto, que teve a bondade de pr  minha disposio, o retrato de Mister 
Lee, quando era novo. 
Alfred e Lydia fitaram-no, perplexos. 
--O retrato do meu pai? Para qu? 
--Como hei-de dizer? Inspirar-me. 
--Prope-se decifrar o mistrio de um crime pela clarividncia? -- perguntou, irnica, Lydia. 
--Digamos, minha senhora, que tenciono utilizar no s os olhos do corpo, mas tambm os do esprito. 
Lydia encolheu os ombros e o detective prosseguiu:    
--Gostava tambm de saber, Mister Lee, as verdadeiras  circunstncias em que se verificou a morte do   
marido de sua im, Juan Estravados. 
-- preciso? -- inquiriu Lydia. 
--Quero todos os factos, minha senhora. 
--Juan Estravados matou outro homem, num caf, como consequncia de uma discusso por causa de 
uma mulher -- infomou Alfred. 
--Como o matou? Alfred olhou, suplicante, para a mulher, que respondeu, serenamente: 
-- Apunhalou-o. Juan Estravados no foi condenado  morte, pois houvera provocao, mas foi condenado
 a uma pena de priso e morreu na cadeia. 
--A filha sabe o que se passou com o pai? 
--Creio que no. 
--No, a Jennifer nunca lhe disse -- confimou Alfred. 
-- Obrigado. 
-- No pensa que a Pilar... -- comeou Lydia. -- Oh,  absurdo! 
--Mister Lee, importa-se de me dar algumas in- fomaes acerca do seu imo, Harry Lee? 
--Que deseja saber? 
--Deduzi que era considerado mais ou menos uma desgraa para a famlia. Porqu? 
--Foi h tanto tempo... -- mumurou Lydia. Muito corado, Alfred respondeu: 
--Se deseja saber, Mister Poirot, o meu imo roubou uma grande importncia, falsificando o nome 



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do meu pai num cheque. Claro que o meu pai no deu parte dele. Harry foi sempre desonesto, meteu-se 
em sarilhos praticamente em todas as partes do mundo e  tem  passado a vida a telegrafar para casa, a 
pedir dinheiro para se safar de complicaes, e a entrar e sair da priso, aqui e em toda a parte. 
-- To no sabes se isso  assim, Alfred -- admoes- tou-o a mulher. 
-- Sei que o Harry no presta, no presta para nadai -- afimou, furioso, com as mos a tremer. -- Nunca 
prestou. 
--Vejo que no existe amizade entre os dois? -- inquiriu Poirot. 
--Atomentou o meu pai, atomentou-o vergonhosamente! 
Lydia suspirou, impaciente, e Poirot ouviu-a e olhou-a com ateno. 
-- Se ao menos os diamantes aparecessem! -- excla- 
mou. -- Tenho a certeza de que a soluo est neles.   --Os diamantes apareceram, minha senhora!   -- O 
qu?! 
--Apareceram no seu jardinzinho que representa o mar Morto...  esclareceu o detective, docemente. 
--No meu jardim? -- perguntou Lydia, estupefacta. -- ...  espantoso! 
--, no , minha senhora? 
 
VI PARTE 

27 de Dezembro 

--Foi melhor do que esperava -- comentou Alfred Lee, a suspirar, depois de regressarem do inqu-rito. 
Mr. Charlton, um advogado no estilo antigo, de 
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cauteloso olhar azul, estivera presente e regressara com eles. 
--J lhe tinha dito que seria tudo uma mera fomalidade -- lembrou. -- Impunha-se um adiamento, a fim 
de a Polcia coligir mais dados. 
--Tudo isto  muito desagradvel -- resmungou George Lee, humilhado. -- Muitssimo desagradvel. Que 
situao! Pessoalmente, estou convencido de que o crime foi obra de um manaco que arranjou maneira de 
entrar c em casa, mas o Sugden  teimoso que nem um burro! O coronel Johnson devia pedir auxlio  
Scotland Yard, pois a Polcia local no presta. So estpidos! Temos um exemplo nesse tal Horbury... 
Constou-me que o seu passado deixa muito a desejar, mas a Polcia cruzou os braos e no fez nada a tal 
respeito. 
-- Segundo me disseram, Horbury apresentou um libi convincente, acerca do perodo de tempo em que 
o crime se deu -- observou Charlton. -- A Polcia aceitou-o. 
-- Aceitou-o porqu? -- barafustou George. -- Se fosse eu, s o aceitaria com reservas, com grandes 
reservas. Claro que um criminoso tem sempre o cuidado de arranjar um libi!  dever da Polcia rebat-lo e 
deit-lo por terra.. se a Polcia percebe do seu ofcio, evidentemente. 
--Ora, ora... -- apaziguou o advogado. -- No creio que seja da nossa competncia ensinar o ofcio   
Polcia... No conjunto, os homens so muito competentes. 
 Deviam chamar a Scotland Yard -- teimou George. -- No estou nada satisfeito com o inspector 
Sugden. Pode ser minucioso e trabalhador, mas est  longe de ser brilhante. 
-- No concordo consigo -- declarou o advogado. -- Sugden  bom homem. No se exibe, mas chega 
ao fim. 


   179 




--Estou certa de que a Polcia tem feito tudo quanto pode -- declarou Lydia. -- Aceita um copo de xerez, 
Mister Charlton? 
O advogado agradeceu delicadamente, mas declinou. Depois pigarreou e comeou a ler o testamento, 
visto toda a famflia estar reunida. 
Leu com certo prazer, demorando-se na fraseologia mais obscura e saboreando os temos tcnicos 
legais. 
No fim tirou os culos, limpou-os e olhou interro- gadoramente a assistncia. 
--Esse palavreado legal  um bocado difcil de compreender -- disse Harry Lee. -- Importa-se de nos dar 
o sumo? 
-- um testamento muito simples  afimou Mr. Charlton. 
-- Meu Deus, como ser um difcil?! -- exclamou George. 
Mr. Charlton lanou-lhe um olhar velado e explicou: 
-- Os temos principais do testamento so simples: metade da fortuna de Mister Lee cabe ao seu filho, 
Mister Alfred Lee, e a outra metade ser dividida entre os seus outros filhos. 
Harry riu-se, de modo desgradvel, e comentou:  Como de costume, Alfred jogou, o nmero da sorte! 
Metade da fortuna do meu pai! Es um tipo felizardo, hem, Alfred? 
Alfred corou e foi Lydia quem respondeu, secamente: 
-- O Alfred foi sempre um filho dedicado. Dirigiu a fbrica todos estes anos e arcou com toda a 
responsabilidade. 
--Oh, sim, o Alfred foi sempre o menino bonzi- nho! -- troou Harry. 
--Deves considerar-te com sorte, Harry, por o meu pai te ter deixado alguma coisa! -- explodiu Alfred. 
Harry riu-se, de cabea atirada para trs, como era seu hbito, e replicou: 
180 

-- Ficarias mais contente se ele me tivesse riscado pura e simplesmente, hem? Antipatizaste sempre 
comigo. 
Mr. Charlton tossiu. Estava habituado -- oh, to habituado! -- s cenas desagradveis que se costuma- 
vam suceder  leitura de um testamento. Ansioso por   se ir embora antes de a discusso da praxe ganhar 
calor, mumurou: 
--Creio que.. enfim, que no preciso... 
-- E a respeito da Pilar? -- perguntou-lhe, de s-bito, Harry. 
Mr. Charlton tossiu de novo, desta vez como quem se desculpa. 
--Miss Estravados no foi mencionada no testamento... 
--No recebe a parte da me? -- insistiu Harry. --Se a Seora Estravados vivesse -- explicou Charlton --, 
receberia a sua parte, como os senhores; mas morreu e a parte que lhe competia ser dividida entre os 
restantes filhos. 
--Ento... no recebo nada? -- perguntou Pilar, com o seu rico sotaque do Sul. 
 Minha querida, a famlia resolver isso apressou-se Lydia a tranquiliz-la. 
-- Poders ficar a viver com o Alfred... -- sugeriu George Lee. -- Hem, Alfred? Ns... enfim, s nossa 
sobrinha e temos o dever de olhar por ti. 
--Teremos sempre muito prazer em receber a Pi- lar em nossa casa -- afimou Hilda. 
-- Ela deve receber a sua parte! -- afimou Harry.  Tem direito ao que caberia  Jennifer. 
 Tenho de ir andando -- disse Mr. Charlton. Adeus, Mistress Lee... se precisar de alguma coisa... 
consulte-me sempre que desejar... 
Saiu apressadamente. A sua experincia pemitia- -lhe preyer a existncia de todos os ingredientes 
necessrios a uma discusso de famlia. 
Quando a porta se fechou, Lydia disse, em voz clara e serena: 


   181 


 



--Concordo com o Harry, acho que a Pilar tem direito a uma parte. Este testamento foi feito anos antes da 
morte de Jennifer. 
-- Tolice! -- exclamou George. -- Isso  uma maneira de pensar muito piegas e ilegal, Lydia. A lei  a 
lei, devemos respeit-la. 
--  pouca sorte, sem dvida, e temos todos muita pena da Pilar -- declarou Magdalene --, mas o 
George  tem  razo. Como ele diz, a lei  a lei. 
Lydia levantou-se, deu a mo a Pilar e conduziu-a  porta. 
--Minha querida, isto deve ser desagradvel para ti. Queres fazer o favor de sair, enquanto discutimos o 
assunto? No te preocupes -- acrescentou, em voz baixa e tranquilizadora. -- Deixa o caso comigo. 
Pilar saiu, cabisbaixa, do aposento, e Lydia fechou a porta e regressou ao seu lugar. 
Houve uma pequena pausa, enquanto todos toma- yam flego, e em seguida a batalha recomeou, 
violenta: 
-- Foste sempre um sovina dos diabos, George! -- exclamou Harry. 
--Pelo menos no tenho sido nem parasita nem patife! 
-- Tens sido to parasita como eu! Sangraste o pai durante todos estes anos. 
--Pareces esquecido de que conquistei um lugar trabalhoso e de responsabilidade, que... 
--Trabalhoso e de responsabilidade uma gaita! No passas de um saco de vento, a rebentar de 
prospia! 
--Como se atreve? -- gritou Magdalene. A voz serena de Hilda ergueu-se um pouco: 
-- No poderemos discuUr este assunto calmamente?   
Lydia lanou-lhe um olhar agradecido e David exclamou, com inesperada violncia: 
-- Toda esta discusso vergonhosa por causa de dinheiro! 
-- muito lindo ser magnnimo -- repetiu Magdalene, venenosamente --, mas no vai recusar o seu 
legado, pois no? Quer o dinheiro tanto como ns! Todo esse desapego altrusta no passa de pose. 
--Acha que devo recusar a minha parte? -- per- guntou-lhe David, em voz estrangulada. -- Pergunto a 
mim mesmo... 
-- Claro que no deves recusar! -- interveio Hilda, em tom fime. -- Porque nos comportamos todos como 
se fssemos crianas? Alfred, voc  o chefe da famlia... 
-- Desculpem -- mumurou Alfred, como se acor- dasse de um sonho. -- Fiquei confuso, ao ouvi-los a 
todos gritar ao mesmo tempo. 
--Como a Hilda acabou de salientar, porque nos havemos de comportar como crianas avarentas? -- 
perguntou Lydia. -- Discutamos este assunto calma e sensatamente e um de cada vez. Alfred falar 
primeiro, visto ser o mais velho. Que te parece, Alfred, que devemos fazer acerca de Pilar? 
-- Claro que ela deve ficar a viver aqui -- respondeu o marido, compassadamente -- e ns devemos 
estabelecer-lhe uma mesada. No vejo que tenha qualquer direito legal ao dinheiro que caberia  me, se 
fosse viva. Lembrem-se de que no  uma Lee, de que  cidad espanhola. 
--No, direito legal no tem nenhum -- admitiu Lydia. -- Mas acho que tem um direito moral. Na minha 
opinio, o teu pai, embora a filha tivesse casado com um espanhol contra a sua vontade, reconhecia que 
ela tinha tanto direito aos seus bens como os outros filhos. George, Harry, David e Jennifer deviam receber 
legados iguais. A Jennifer morreu apenas o ano passado... Tenho a certeza de que, ao telefonar ao 
advogado, o teu pai tinha inteno de beneficiar amplamente Pilar, num novo testamento. Deixarlhe-la pelo 
menos a parte da me dela, e no me admiraria, at, se tencionasse deixar-lhe mais do que isso. Era a 



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182 


nica neta, lembrem-se. Acho que o menos que podemos fazer ser tentar remediar uma injustia que o 
vosso prprio pai estava disposto a remediar. 
-- Muito bem, Lydia! -- exclamou Alfred, entemecido. -- Estava enganado, to tens razo. A Pilar deve 
receber a parte que caberia a Jennifer na fortuna do meu. pai. 
--E a sua vez, Harry -- disse Lydia. --Concordo, evidentemente. Acho que Lydia ex- ps muito bem o caso e 
gostaria de dizer que a admiro por isso. 
-- George? 
-- Com certeza que,no! -- exclamou o interpela- do, muito corado. -- E ridculo! Dem-lhe um lar e uma 
mesada decente, para se vestir, e chegar! 
-- Recusas-te, ento, a cooperar? -- perguntou Alfred. 
--E tem toda a razo -- sentenciou Magdalene. --  indecente sugerir, sequer, que o meu marido de- va 
concordar com semelhante coisa. Tendo em vista o facto de George ser o nico membro da famflia que 
conseguiu conquistar uma carreira brilhante, acho at 
injusto o pai ter-lhe deixado to pouco! 
--David? -- perguntou Lydia. 
-- Oh, acho. que tem razo! -- respondeu David, vagamente. -- E uma vergonha ter de haver tanta 
discusso e tantas disputas por causa de um assunto destes. 
-- Tem toda a razo, Lydia -- declarou Hilda. --  justo. 
Harry olhou  sua volta e disse: 
--Parece, ento, que o Alfred, o David e eu somos a favor da moo. O George  contra, mas a maioria 
 que vale. 
--Aqui no h questo de maioria ou minoria -- apressou-se a declarar George. -- A minha parte na 
fortuna do meu pai  absolutamente minha, no consentirei que a reduzam nem num centavo! 
184 

--Claro que no -- apoiou Magdalene. 
-- Se quer ficar de fora, isso  consigo -- declarou Lydia, secamente. -- Os restantes dividiro entre si a 
sua parte na contribuio. 
Olhou para os outros, a pedir-lhes confimao, e Harry foi o primeiro a pronunciar-se: 
--Como o Alfred recebe a parte de leo, devia contribuir com maior quantia. 
--Estou a ver que a tua inicial sugesto desinteressada no tarda a ficar reduzida a zero -- comentou Alfred. 
--No comecemos outra vez! -- interveio Hilda, com fimeza. -- A Lydia dir  Pilar o que resolvemos e mais 
tarde combinaremos os pomenores. -- E acrescentou, na esperana de mudar de assunto: 
--Onde estaro Mister Farr e Mister Poirot?   -- Deixmos Poirot na aldeia, quando amos para o inqurito -- 
infomou Alfred. -- Disse que tinha uma imporfante compra a fazer. 
--Porque no foi ele ao inqurito? -- perguntou Harry. -- Devia ter ido, no? 
--Talvez j soubesse que no seria importante .-- sugeriu Lydia. -- Quem est l fora no jardim? E o 
inspector ou Mister Farr? 
Os esforos das duas mulheres foram bem sucedidos, e o conclave familiar dissolveu-se. 
Pouco depois, Lydia agradecia  cunhada: 
--Obrigada, Hilda. Foi amvel da sua parte apoiar-me. Confesso-lhe sinceramente que tem sido um grande 
conforto para mim, em tudo isto. 
--E singular como o dinheiro transtoma as pessoas! -- comentou Hilda, pensativamente. 
Os outros tinham sado da sala e as duas mulheres encontravam-se sozinhas. 
--  verdade. At o Harry, embora a sugesto par- tisse dele! E o meu pobre Alfred!  to britnico, que 
no lhe agrada ver o dinheiro dos Lee nas mos de uma cidad espanhola! 


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--Acha que ns, mulheres, somos mais desinte- ressadas? -- perguntou-lhe Hilda, a sorrir. 
--Compreende, no se trata, realmente do nosso   dinheiro... -- respondeu Lydia, com um encolher 
dos ombros graciosos. -- Talvez a diferena esteja a. 
--A Pilar  uma jovem estranha -- mumurou a   outra, pensativa. -- Que lhe acontecer? 
--Alivia-me saber que ser independente -- afimou a outra, a suspirar. -- Um lar e uma mesada no 
seriam, creio, o ideal para ela.  muito orgulhosa e... e muito estrangeira. -- E acrescentou, como se 
falasse consigo: -- Uma vez, comprei um bonito colar de l-pis-lazli, no Egipto. Enquanto l estive, a sua 
cor forte fomava um contraste maravilhoso com o sol e a areia, mas aqui o azul quase deixou de brilhar e o 
colar transfomou-se numa fieira de pedras escuras e baas. 
-- Compreendo... 
--Estou muito contente por a ter conhecido e ao David, finalmente -- confessou Lydia. -- Ainda bem que 
vieram. 
--Se soubesse quantas vezes tenho desejado, nos ltimos dias, que no tivssemos vindo! 
-- Calculo, sim. Mas o abalo no transtomou tanto o David como poderia transtomar, sensvel como . 
Na realidade, depois do assassnio, parece, at, muito melhor... 
Hilda interrompeu-a, um pouco perturbada: 
-- Reparou, ento, nisso? E lamentvel, num certo sentido.. mas  verdade, Lydia,  verdade! 
Calou-se, a recordar as palavras que o marido lhe dissera, na noite anterior. Falara apaixonadamente, 
com o cabelo louro afastado da testa: 
Lembras-te da Tosca, Hilda? Quando Scarpia morre e Tosca acende as velas, aos seus ps e  sua 
cabeceira? Lembras-te do que ela diz? "Agora posso per- doar-lhe"...  o que eu sinto, acerca do meu pai. 
Compreendo agora que, durante todos estes anos, no 
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lhe pude perdoar, embora o desejasse sinceramente... Mas agora, agora, j no existe rancor em mim. 
Dissi- pou-se todo. Sinto... Oh, sinto como se me tivessem tirado um grande peso de cima! 
Hilda perguntara-lhe, esforando-se por repelir o 
medo sbito que a invadira: 
Por ter morrido? 
E ele respondera sem hesitar, a atropelar as palavras na sua ansiedade: 
No compreendes. No  por ele ter morrido, mas porque morreu o dio estpido e infantil que eu  lhe  
tinha 
Hilda recordou essas palavras e gostaria de as repetir  cunhada, mas achou instintivamente que talvez 
no fosse sensato. 
Saiu com Lydia para o vestulo. Encontraram Magdalene junto da mesa, com um embrulhinho na mo. 
Estremeceu, ao v-las, e disse: 
--Deve ser a tal compra importante de Mister Poirot. Vi-o pr aqui o embrulho, h pouco. O que ser? 
Olhou para ambas, s risadinhas, mas o brilho e a ansiedade dos seus olhos desmentiam a afectada 
despreocupao das palavras. 
Lydia arqueou as sobrancelhas e mumurou:   --Vou-me arranjar para o almoo. 
E Magdalene, com a mesma afectao de infantili- dade, mas incapaz de disfarar o tom desesperado 
da voz, declarou: 
--E eu you dar uma espreitadelazinha! 
Desfez o embrulhinho, olhou para o objecto e soltou uma exclamao de surpresa. 
Lydia e Hilda pararam, a olhar. 
-- E um bigode postio! -- exclamou Magdalene, intrigada. -- Mas... para qu? 
Lydia completou a frase da cunhada: 
-- Mas Mister Poirot tem um bonito bigode natu- 
ral! 


   187 




-- No compreendo -- disse Magdalene, a refazer o embrulho. -- E... estpido! Para que compraria Mister 
Poirot um bigode falso? 

II 

Ao sair da sala, Pilar caminhou vagarosamente ao longo do vestulo. Stephen Farr, que entrava pela 
porta do jardim, perguntou-lhe: 
-- Ento? O conclave familiar j teminou? Leram o testamento? 
--No recebo nada, absolutamente nada! -- exclamou Pilar, arquejante. -- O testamento foi feito h  
muitos anos. O meu av deixava dinheiro a minha me, mas como ela morreu no  para mim: volta para   
eles. 
--Diabo de azar! -- compadeceu-se Farr. 
--Se no tivessem assassinado o velho, ele teria feito outro testamento e deixar-me-ia dinheiro.. uma 
quantidade de dinheiro! Talvez, com o tempo, mo dei- xasse todo! 
--Isso tambm no seria justo, pois no? -- per- guntou-lhe Stephen, a sorrir. 
-- Porque no? Se o fizesse, seria por gostar mais de mim do que dos outros. 
--Que garota gananciosa me saiu! Uma autntica esfomeada de ouro! 
-- O mundo  muito cruel para as mulheres -- declarou Pilar, muito sria. -- Elas devem, por isso, 
aproveitar o mais que puderem, enquanto forem novas, pois quando forem velhas e feias ningum as 
ajudar. 
-- Isso  mais verdade do que desejaria admitir -- mumurou Stephen. -- Mas no  absolutamente 
verdade, contudo. Alfred Lee, por exemplo, gostava com 
188 

toda a sinceridade do pai, apesar de ele ser um velho antiptico e irritante. 
--O Alfred  um idiota! -- declarou Pilar, de queixo levantado. 
Stephen no pde deixar de se rir. 
-- Bem, encantadora Pilar, no se preocupe -- dis- se-lhe, por fim. -- Pode estar descansada, que os 
Lee tomaro conta de si. 
--Isso no ser muito divertido -- mumurou, desconsolada. 
--Creio que no... Custa-me imagi.n-la a viver 
aqui, sabe? Gostaria de ir comigo para a Africa do Sul? Pilar acenou com a cabea. 
--L h sol e espao -- mu.murou, saudoso. -- E tambm h trabalho duro. E boa para trabalhar, Pilar? 
--No sei... -- respondeu, duvidosa. 
 -- Preferia sentar-se numa varanda e passar o dia a 
comer doces, at ficar gordssima e com trs queixos? A rapariga riu-se. 
--Ah, ti-la rir! Assim est melhor. 
--E eu que pensei que me riria, neste Natal! Tenho lido, em livros, que o Natal ingls  muito alegre, que 
se comem uvas quentes, um pudim de passas todo em chamas e qualquer coisa chamada acha de Natal... 
-- Ah, mas para isso  preciso que o Natal no seja complicado por um assassnio! Chegu aqui um 
instante... A Lydia levou-me l, ontem. E a arrecadao dela. 
Conduziu-a a uma casa pequena, pouco maior do que um amrio.   
--Olhe, Pilar, caixas e caixas de biscoitos, frutas de conserva, laranjas, tmaras e nozes... E aqui... 
--Oh! -- exclamou Pilar, a apertar as mos uma na outra. -- Como essas bolas douradas e prateadas 
so bonitas! 
-- Eram para pendurar numa rvore, com presentes para os criados. Olhe, e aqui esto estes homenzi- 


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nhos, todos reluzentes de neve, para colocar na mesa do iantar.. e bales de rodas as cores, prontos a 
encher! 
--Oh! -- Os olhos de Pilar brilharam. -- Podemos encher um? Tenho a certeza de que a Lydia no se 
importa. Adoro bales! 
-- Criana! Qual quer? 
--Quero um encamado! 
Escolheram bales e comearam a soprar, de bochechas distendidas. Pilaf parou de soprar, para se 
rir, e o seu balo esvaziou-se. 
--Voc fica to cmico, a soprar, com as bochechas dilatadas! 
Riu de novo e depois recomeou a soprar. Ataram os bales, cuidadosamente, e comearam a brincar 
com eles, a atir-los para cima e de um para o outro. 
-- L fora, no vestulo, h mais espao -- sugeriu Pilaf. 
Continuavam a atirar os bales um ao outro e a rir quando Poirot chegou. Olhou-os com indulgncia, e 
comentou: 
-- Entretm-se com les jeux d'enfants, hem?  bonito, isso! 
--O meu  o encamado m infomou Pilar, ofegante. --  maior do que o dele, muito maior. Se o le- 
vssemos l para fora, subiria direitinho para o cu! -- Experimentemos! -- props Stephen.   -- Boa ideia! 
Pilar correu para a porta do jardim e Stephen se- guiu-a. Poirot acompanhou-os, com o mesmo ar 
indulgente. 
-- Deseio uma grande quantidade de dinheiro! -- anunciou Pilar. 
Ps-se em bicos de ps, a segurar o cordel do balo, e quando o vento o puxou suavemente, largou-o. 
O balo flutuou, levado pela brisa. 
--No devia dizer o seu desejo em voz alta -- lembrou Stephen a rir. 
190 

-- No? Porqu? 
-- Porque assim no se realiza. Agora you desejar eu. Largou o balo, mas no teve tanta sorte. O vento 
levou-o para o lado e um arbusto espinhoso f-lo rebentar, com um estoiro. 
Pilar correu para ele e mumurou, com um certo ar trgico: 
-- Rebentou! 
Tocou com o p no bocado de borracha, agora frouxa e mole, e comentou: 
-- Foi, ento, isso que apanhei no quarto do av! Ele tambm tivera um balo, mas o dele era cor-de- -
rosa. 
Poirot soltou uma exclamao abafada e Pilar vi- rou-se para ele, interrogadoramente. 
--No  nada -- disse-lhe o detective. -- Fui eu que me piquei.. quero dizer, que tropecei. -- Voltou- -se, 
olhou para a casa e exclamu: -- Tantas janelas! Uma casa mademoiselle, tem os seus olhos e os seus 
ouvidos. E deveras lamentvel que os Ingleses gostem tanto de janelas abertas! 
Lydia apareceu no terrao e anunciou: 
-- O almoo est pronto. Pilar, minha querida, foi tudo resolvido satisfatoriamente. O Alfred explicar-te- -
 tudo com mincia, depois do almoo. Vamos? 
Entraram todos. Poirot foi o ltimo. Tinha uma expresso muito grave. 

III 

O almoo teminara. 
Quando saam da casa de jantar, Alfred disse a Pilar: 
--Queres fazer o favor de vir ao meu gabinete? Preciso de falar contigo acerca de um assunto. 


191 




Conduziu-a ao gabinete e fechou a porta. Os outros foram para a sala. S Poirot ficou no vestulo, a olhar 
pensativamente para a porta fechada do gabinete. 
De sbito, apercebeu-se de que o velho mordomo estava perto e parecia constrangido. 
--Que , Tressilian? -- perguntou-lhe Poirot. O velhote mumurou, perturbado: 
-- Desejava falar com Mister Lee, mas no o que- ria incomodar agora... 
-- Aconteceu alguma coisa? 
-- Uma coisa to estranha que nem faz sentido, senhor! 
--Diga-me o que foi. 
Tressilian hesitou, mas por fun decidiu-se: 
 Trata-se do seguinte, senhor... Talvez tenha re- parado que de cada lado da porta da frente havia uma 
bala de canho, umas coisas de pedra, muito pesa- das?... Bem, uma delas desapareceu. 
 Poirot arqueou as sobrancelhas, admirado. --Quando deu pela falta? 
--Estavam l ambas, esta manh, isso posso eu jurar. 
--Vamos l ver. 
Saram ambos, pela porta da frente, e Poirot examinou a bala de canho que restava. Quando se 
endireitou, o seu rosto exprimia uma grande gravidade. 
--Quem quereria roubar uma coisa daquelas? -- perguntou Tressilian. -- No faz sentido! 
--No me agrada -- mumurou Poirot. -- No me agrada mesmo nada... 
-- Que ter acontecido a esta casa, senhor? -- la- mentou-se o velho, cheio de ansiedade. -- Desde que 
o senhor foi assassinado, nunca mais pareceu a mesma. Tenho constantemente a impresso de que vivo 
num sonho, misturo tudo e, s vezes, parece-me que nem posso confiar nos prprios olhos. 
-- Est enganado -- disse-lhe o detective, a abanar 
192 

a cabea. --  nos seus olhos, e s nos seus olhos, que deve confiar. 
--A minha vista  m, no vejo como dantes... Confundo as coisas.. e as pessoas. Estou a ficar velho 
de mais para o meu trabalho. 
Hercule Poirot deu-lhe uma palmadinha animado- 
ra num ombro e recomendou-lhe: 
-- Coragem! 
--Muito obrigado, senhor. Est a ser bondoso, bem sei, mas a verdade  que estou velho de mais. 
Estou sempre a recordar os velhos tempos, as velhas ca- ras... Miss Jenny, Master David e Master Alfred... 
Estou sempre a v-los novos. Desde aquela noite em que Mister Harry voltou... 
--Sim, era o que eu pensava -- interrompeu-o Poirot. -- Disse h pouco que tudo mudara desde que o 
senhor foi assassinado, mas comeou antes dis- so. Foi desde que Mister Harry voltou que as coisas 
mudaram e pareceram irreais, no foi? 
--Tem razo, senhor, foi mesmo! Mister Harry trouxe sempre complicaes a esta casa, desde 
antigamente... 
Os seus olhos cansados voltaram a pousar na base de pedra do omamento desaparecido, 
--Quem a ter levado, senhor? E porqu? Parece uma casa de doidos! 
-- Infelizmente no  uma casa de doidos, Tressi- lian! Isto s traduz inteligncia, meu velho! Algum 
corre grande perigo. 
Voltou para casa. 
No mesmo instante, Pilar saiu do gabinete, com uma roseta em cada face. Tinha a cabea levantada e 
os olhos a brilhar. 
Ao ver Poirot, bateu o p e exclamou: 
-- No aceito! 
Poirot arqueou as sobrancelhas e perguntou-lhe:   --No aceita o qu, mademoiselle? 
-- Alfred acaba de me dizer que receberei a parte que pertenceria  minha me do dinheiro do meu av. 


193 




-- E ento? 
-- Disse-me que por lei no o receberia, mas que ele, Lydia e os outros acharam que me devia perten- 
cer, que era justo, e por isso dar-mo-o. Poirot repetiu:   -- E ento? 
Pilar bateu de novo com o p. 
--No compreende? Do-mo, do-mo! 
-- E isso fere o seu orgulho? No v que eles tm razo, que  justo que lho dem? 
--No compreende! -- exclamou Pilar. --Pelo contrrio, compreendo at muito bem.   --Ora! -- virou-lhe as 
costas, amuada. 
Tocaram  campainha e Poirot olhou por cima do ombro. Viu o vulto do inspector Sugden, do lado de 
fora, e perguntou apressadamente a Pilaf: 
--Para onde vai? 
--Para a sala, para junto dos outros. 
-- Deixe-se ficar l com eles e no ande pela casa sozinha, sobretudo depois de anoitecer. Ande 
sempre precavida, pois corre um grande perigo, mademoiselle.   Nunca correr um pego to grande como 
hoje. 
Deixou-a e foi ao encontro de Sugden. Este espe-  roll  que Tressilian voltasse para a copa e depois 
meteu um telegrama debaixo do nariz de Poirot. 
--,Agora tudo se esclarecer! -- exclamou. -- Leia 
isto. E da Polcia da frica do Sul. 
O telegrama dizia: 
O nico filho de Ebenezer Farr morreu h dois anos.   -- Agora j sabemos! -- conUnuou o inspector. -- O 
engraado  que eu seguia uma pista inteiramente diferente... 
IV 

Pilar entrou na sala, de cabea levantada. Foi direi- ta a Lydia, que estava junto da janela, a tricotar. 
-- Lydia, vim dizer-lhe que no aceitarei o dinheiro! Vou-me embora.. imediatamente! 
Lydia pousou o trabalho, surpreendida, e exclamou: 
--Minha querida pequena, estou a ver que o A1- dred se explicou muito mal! No se trata, nem por 
sombras, de caridade, se  isso que pensas. No, no se trata de bondade nem de generosidade da nossa 
parte, mas apenas de proceder bem ou mal. Segundo o curso nomal das coisas, a tua me herdaria este 
dinheiro e to receb-lo-ias dela;  teu por direito, por direito de sangue. No  uma questo de caridade e,   
sim, de. justia! 
-- E por isso que no o posso aceitar! -- declarou a rapariga, apaixonadamente. -- No o posso aceitar 
por falarem assim, por serem assim! Gostei de vir c, foi divertido, foi uma aventura. Mas agora estragaram 
tudo! Vou-me embora imediatamente, nunca mais os incomodarei! 
Voltou-se, sufocada pelas lgrimas, e saiu precipi- tadamente da sala. 
-- No fazia a mnima ideia de que ela encararia o caso desta maneira! -- exclamou Lydia surpreendida. 
--A pequena parece muito transtomada -- concordou Hilda. 
George pigarreou e disse, emproado: 
--Como frisei esta manh, o princpio em que se basearam est errado. Pilar teve o bom-senso de o 
compreender e recusa-se a aceitar caridade... 
--No  caridade! -- afimou Lydia, irritada. --  o seu direito. 
--Ela no parece ser dessa opinio -- volveu George. 


195 


 



O inspector Sugden e Hercule Poirot entraram na sala nesse momento. O primeiro olhou  sua volta e 
perguntou: 
--Onde est Mister Farr? Preciso de falar com ele. Antes que algum tivesse tempo de responder, Hercule 
Poirot perguntou, por seu tumo, muito agi- tado: 
--Onde est a Seorita Estravados? 
Foi George Lee quem lhe respondeu, em tom de maliciosa satisfao: 
-- Disse-nos que se ia embora. Aparentemente, est farta dos seus parentes ingleses. 
Poirot girou nos calcanhares e disse a Sugden: -- Venha! 
No momento em que os dois homens chegaram ao vesu'bulo, ouviu-se um grande estrondo e um grito 
distante. 
-- Depressa! -- pediu Poirot. -- Venha depressa! Atravessaram o vesu'bulo e subiram a escada a correr. A 
porta do quarto de Pilaf estava aberta e no limiar encontrava-se um homem, que virou a cabea, ao 
pressenti-los. Era Stephen Farr. 
--Est viva... -- anuncioulhes. 
Pilar estava encolhida, encostada  parede do seu quarto, de olhos fLXOS no cho, onde se encontrava 
uma grande pedra, com o fomato de uma bala de canho. 
--Estava equilibrada em cima da minha porta -- mumurou, ofegante. -- Esmagar-me-ia a cabea, 
quando entrasse, mas por sorte a saia prendeuse-me num prego e puxou-me para trs, precisamente 
quando eu la a entrar. 
Poirot ajoelhou-se e examinou o prego, onde estava preso um fio de fazenda encamada. Levantou a 
cabea, acenou gravemente e mumurou: 
--Este prego salvou-lhe a vida, mademoiselle. 
-- Qual  o significado de tudo isto? -- perguntou o inspector, estupefacto. 
--Algum tentou matar-me! -- gritou Pilar. 
Sugden olhou para cima, para a porta, e mumurou:    
-- Uma amadilha antiquada, mas segura.. e des- tinada a matar! Seria o segundo assassnio nesta 
casa, mas desta vez falhou. 
--Graas a Deus est salva! -- mumurou Stephen Farr, em voz rouca de comoo. 
Pilar abriu as mos, num gesto exuberante e trgico, e exclamou: 
-- Madre de Dios! Porque me queriam matar? Que fiz eu? 
Hercule Poirot respondeu-lhe, em voz compassada: 
--Devia dizer, antes: Que sei eu?   -- Que sei eu? -- repetiu a rapariga, admirada. -- No sei nada! 
-- Engana-se, mademoiselle. Ora diga-me, onde estara,
 no momento do crime? No estava neste quarto. 
--Estava! J lhes disse que estava! 
--Pois disse, mas mentiu -- declarou Sugden, com enganosa doura. -- Disse-nos que ouviu o seu av 
gritar, mas se estivesse neste quarto no teria ouvi- 
do. Mister Poirot e eu experimentmos, ontem. 
--Oh! -- exclamou Pilar, atordoada. 
--Estava algures, muito mais perto do quarto de Mister Lee -- declarou Poirot. -- At lhe posso dizer onde, 
mademoiselle: naquele nicho que tem as esttuas, perto da porta do quarto do seu av. 
--Oh! -- exclamou a rapariga, admirada. -- Como soube? 
-- Mister Farr viu-a l -- respondeu-lhe Poirot, a sorrir. 
--No vi nada! Isso  uma grande mentira! 
--Peo-lhe perdo, Mister Farr, mas viu-a. Lembra-se  de ter fido a impresso de que as esttuas do nicho 
eram trs e no duas? S uma pessoa usava vestido branco, naquela noite: Mademoiselle. Estravados. Era   
ela a terceira figura branca que viu. E verdade, no ,   mademoiselle? 



196         197 


--, sim -- admitiu Pilar, aps breve hesitao. 
--Agora diga-nos toda a verdade, sim? -- pediu- 
-lhe Poirot, docemente. -- Porque se encontrava l? 
--Depois de jantar sa da sala e resolvi ir ver o meu av. Pensei que ele ficaria contente. Mas quando 
cheguei ao corredor vi que se encontrava outra pessoa  sua porta. No quis que me vissem, pois sabia 
que o meu av dissera que no queria ver ningum nessa noite. Esgueirei-me, por isso, para o recesso, 
para que a pessoa no me visse, se se voltasse. De repente, ouvi um grande barulho: mesas, cadeiras, 
tudo a cair... No me mexi, no sei porqu. Estava petrificada de medo. Depois soou aquele horrvel grito... 
-- benzeu- 
-se apressadamente --... e o meu corao parou de bater.   Morreu algum, disse para comigo... 
-- E depois? 
-- Depois comearam a aparecer pessoas a correr, sa do esconderijo e juntei-me a elas. 
-- No disse nenhuma dessas coisas quando foi in- terrogada -- lembrou-lhe o inspector, friamente. -- 
Porqu? 
Pilar abanou a cabea e respondeu-lhe, com um ar sabido: 
-- No  bom dizer muitas coisas  Polcia. Pensei que se lhes dissesse que estava perto julgariam 
que f-ta eu quem o matara, por isso disse que estava no meu quarto. 
-- Quem mente deliberadamente, acaba por se tor- 
nar suspeito -- declarou o inspector, agastado. 
k Pilar... -- mumurou Stephen Farr. 
-- Diga? 
-- Quem viu junto da porta, quando chegou ao corredor? Diga-nos quem foi. 
--Sim, diga-nos -- pediu tambm o inspector. 
Por momentos, a rapariga hesitou. Abu os olhos, depois semicerrou-os e mumurou: 
--No sei quem era, pois a claridade era pouca. Mas era uma mulher... 
198 

V 

O inspector Sugden olhou para o crculo de rostos 
e declarou, com mais irritao do que at a mostrara:   --Isto  muito irregular, Mister Poirot. --  c uma 
ideiazinha minha... Quero compartilhar com todos os conhecimentos que adquiri; depois solicitar-lhes-ei a 
sua cooperao e acabaremos por encontrar a verdade. 
-- Macaquices... -- resmungou o inspector, entre- dentes, e recostou-se na cadeira. 
--Para comear -- disse Poirot --, creio que devemos pedir uma explicao a Mister Farr. 
--Pessoalmente, escolheria um momento em que estivesse presente menos pblico  comentou o 
inspector. -- No entanto, no me oponho, k Estendeu o telegrama a Stephen Farr e disse-lhe: -- Mister Farr,   
como diz que se chama, talvez nos queira explicar o significado   disto. 
Stephen Farr pegou no telegrama, arqueou as sobrancelhas e leu-o devagar, em voz alta. Depois devol- 
veu-o ao inspector, com uma inclinao de cabea. -- ue grande aborrecimento, hem? -- mumurou.  E s 
isso que tem a dizer? Compreende que no  obrigado a fazer qualquer declarao... 
-- No precisa de me acautelar, inspector. Estou a ver as palavras a tremer-lhe na lngua! Dar-lhe-ei 
uma explicao... No ser muito boa, mas  a verdade. Fez uma pausa e depois comeou: 
-- No sou filho de Ebenezer Farr, mas conheci o pai e o filho muito bem. Agora tentem colocar-se no 
meu lugar; a propsito, o meu nome verdadeiro   Stephen Grant. Quando cheguei a este pas, na minha 
primeira visita, fiquei decepcionado. As coisas e as pessoas pareceram-me tristes e feias... Mas eis que, 
ao viajar de comboio, vi uma rapariga... Tenho de dizer desde j que fiquei, como se costuma dizer, doido 
por 


   199 




ela! Era a criatura mais encantadora e mais incrvel do mundo! Falei um pouco com ela, no comboio, e 
decidi logo para comigo que no a perderia de vista. Ao sair do compartimento, vi o rtulo da sua mala. O 
nome no me dizia nada, mas o mesmo no acontecia com a morada. Ouvira falar em Gorston Hall e sabia 
tudo acerca do seu proprietrio. Fora scio de Ebenezer Farr, o qual falara muito dele e da sua maneira de 
ser. Meteu-se-me em cabea apresentar-me em Gorston Hall e fingir que era o filho do Eb... O rapaz 
morrera, como diz o telegrama, h dois anos, mas eu lembrava- -me do velho Eb dizer que no nha 
notcias de Simeon Lee havia muitos anos, e deduzi que Lee no estaria, portanto, ao corrente da morte do 
filho do antigo scio. De qualquer maneira, achei que valia a pena tentar. 
--No entanto, no tentou logo -- lembrou Sug- den. -- Esteve dois dias no King's Ams, em Addles- field. 
Porqu? 
-- Estive a pensar, se devia tentar ou no. Por f'ma decidi-me... Era uma aventura, e como tal tentava-
me. A verdade  que resultou s mil maravilhas! O velhote recebeu-me o mais cordialmente possvel e 
convidou- -me imediatamente a ficar c em casa. Aceitei. A tem a minha explicao, inspector. Se no lhe 
agrada, faa um esforo e recorde os seus dias de namoro... Ver  que tambm fez qualquer coisa que 
hoje lhe parece idiota. Quanto ao meu verdadeiro nome, , co.mo j  disse, Stephen Grant. Podem 
telegrafar para a Africa do Sul, a infomar-se, mas desde j vos garanto que sou um cidado absolutamente 
respeitvel. No sou vigarista nem ladro de jias. 
--Nunca imaginei que fosse -- declarou suavemente Poirot. O inspector afagou o queixo, pensativo, e 
replicou: -- Tenho de investigar essa histria. Para j, gosta- ria de saber o seguinte: porque no foi franco, 
depois do assassnio, em vez de continuar com as mentiras? 
200 

--Porque fui um idiota! -- respondeu-lhe Stephen, com irradiante simpatia. -- Pensei que consegui- ria 
escapar, sem descobrirem, e disse para comigo que poderia parecer estranho se confessasse que estava 
c  sob um nome falso. Se no fosse um completo idiota, compreenderia que seria natural telegrafarem 
para Joanesburgo. 
-- Bem, Mister Farr... ou melhor, Mister Grant, no direi que no acredito na sua histria. Em breve 
saberemos se  verdadeira ou no. 
Olhou para Poirot, que disse: 
-- Creio que Miss Estravados tem qualquer coisa a declarar. 
Pil, que empalidecera muito, disse, em voz rouca: 
--E verdade... Se no fosse Lydia e o dinheiro, no diria nada, mas assim... Vir aqui, fingir, intrujar e 
representar.. foi divertido, mas quando Lydia disse que o dinheiro era meu e que seria justo receb-lo, foi 
diferente. Deixou de ser divertido. 
--No compreendo, minha querida -- disse Alfred Lee, intrigado, k De que est a falar? 
-- Pensam que sou a vossa sobrinha, Pilar Estrava- dos? Mas no soul Pilar morreu, quando viajava 
num automvel comigo, em Espanha. Uma bomba atingiu o carro e ela morreu, mas eu fiquei inclume. 
No a conhecia muito bem, mas ela dissera-me tudo a seu respeito, contara-me que o av a mandara 
chamar a Inglaterra e que ele era muito rico. Como no tinha dinheiro nem sabia para onde ir nem o que 
fazer, pensei para comigo: Porque no utilizo o passaporte de Pilar e no you para Inglaterra, para ser 
muito rica? -- O rosto iluminou-se-lhe num sorriso. -- Oh, foi divertido, enquanto pensei se seria bem 
sucedida! As nossas caras, na fotografia, tinham certa semelhana, mas mesmo assim, quando me 
pediram, aqui, o passapor- te, abri a janela e atirei-o para o jardim. Depois fui busc-lo e esfreguei um 
pouco de terra no retrato... Nas fronteiras no olham com muita ateno, mas aqui podiam olhar... 


201 


 



Alfred enfureceu-se: 
-- Quer dizer que enganou o meu pai, que fingiu ser a sua neta e brincou com o seu afecto? 
Pilaf acenou com a cabea e respondeu, complacente: 
--Percebi logo que conseguiria lev-lo a gostar muito de mim. 
--  incrvel! -- exclamou George. -- Criminoso[ Tentativa de obter dinheiro com falsos pretextos! 
-- De ti no obteve ela nenhum, meu velho -- disse Harry Lee. -- Pilar, estou do teu lado! Admiro 
profundamente a tua ousadia e, graas a Deus, j no sou teu tio[ Assim fico com uma liberdade de 
movimentos muito maior. 
-- O senhor sabia? -- perguntou Pilar a Poirot. -- Quando descobriu? 
--Minha querida, se tivesse estudado as leis de Mendel saberia que duas pessoas de olhos azuis no 
tm, regra geral, filhos de olhos castanhos. A sua me, a me de Pilar Estravados, era, tinha a certeza, 
uma senhora muito casta e respeitvel. Por isso voc no podia ser Pilaf Estravados. Quando fez aquela 
habilidade com o passaporte, no me restaram dvidas nenhumas. Foi engenhoso, mas no tanto quanto 
seria preciso. 
--O caso todo no  suficientemente engenhoso -- disse o inspector, em tom desagradvel. 
--No compreendo... -- mumurou Pilar. 
-- Contou-nos uma histria, mas eu estou convencido  de que deixou muito por contar. 
-- Deixe a rapariga em paz! -- ordenou Stephen. O inspector fingiu no o ouvir e prosseguiu:   --Disse-nos 
que foi ao quarto do seu av depois do jantar e que o fez obedecendo a um impulso de momento. Ora eu 
sugiro que no foi assim... Foi voc  que roubou os diamantes. Mexeu-lhes e aproveitou al- guma ocasio 
para os tirar do cofre sem o velho dar por isso. Quando ele descobriu que as pedras tinham desaparecido, 
compreendeu imediatamente que s  podiam ter sido duas pessoas: Horbury, que talvez tivesse descoberto 
a combinao do cofre e roubado os diamantes de noite, ou voc. Mister Lee tomou imediatamente 
precaues. Telefonou-me e mandou- -me chamar, e depois disse que a queria ver logo a seguir ao jantar. 
Voc foi ao seu quarto e ele acusou-a do roubo. Negou, ele insistiu.. no sei o que se passou a seguir, 
mas talvez ele tivesse percebido que no era a sua neta e, sim, uma ladrazinha profissional. Fosse como 
fosse, o jogo acabara-se, ia ser desmascarada e, por isso, agrediu-o com uma faca. Houve luta, ele gritou, 
voc saiu do quarto, girou a chave pelo lado de fora e, consciente de que no conseguiria fugir antes dos 
outros chegarem, ocultou-se no nicho, junto das est-tuas. 
-- No  verdade[ -- gritou Pilaf. -- No  verdade! No roubei os diamantes nem o matei! Juro pela 
Santa Virgem[ 
-- Quem foi, ento? -- insistiu o inspector. -- Disse que viu um vulto, do lado de fora da porta do quarto 
de Mister Lee. A dar crdito  sua histria, essa pessoa deve ser o assassino. Mais ningum passou pelo 
nicho. Mas, claro, s temos a sua palavra de que esta- va uma pessoa  porta. Ou melhor, voc inventou 
tudo isso para se ilibar! 
-- Claro que  culpada[ -- sentenciou George Lee. --  evidente[ Eu sempre disse que foi uma pessoa 
estranha   quem matou o meu pai! Ridcula tolice, essa de querer fazer crer que um membro da famflia seria 
capaz de tal horror! No seria.. no seria natural! 
--No estou de acordo consigo- declarou Poi- rot. -- Tomando em considerao o carcter de Simeon 
Lee, seria muito natural que fosse algum da famlia. 
--O qu? -- gaguejou George, e ficou de boca aberta e olhos f'LXOS no detective. -- Na minha opinio, 
foi precisamente isso que su- 



202         203 
  

cedeu -- prosseguiu Poirot. n Simeon Lee foi assassi- nado por algum da sua came e do seu sangue, por 
um motivo que pareceu ao assassino razo suficiente. 
--Um de ns?! -- escandalizou-se George. -- Nego... 
--Qualquer das pessoas presentes podia ter um motivo -- interrompeu-o Poirot, com dureza. -- 
Comecemos por si, Mister George Lee. O senhor no amava o seu pai e s por causa do dinheiro se manti- 
nha de boas relaes com ele. No dia da sua morte, o seu pai ameaou-o de lhe reduzir a penso. Sabia 
que, por morte dele, herdaria, provavelmente, uma bonita soma, e isso poderia ser o motivo para o matar. 
Depois de jantar foi, segundo declarou, telefonar. Telefonou, de facto, mas o telefonema durou apenas cinco 
minutos.   Depois disso, podia muito bem ir ao quarto do seu pai, conversar com ele, atac-lo e mat-lo. 
Saiu do quarto e girou a chave pelo lado de fora, na esperana de que o crime fosse atribudo a um ladro. 
Na precipitao, porm, esqueceu-se de ver sea janela estava toda aberta, para que a hiptese do ladro 
pudesse ser confimada. Foi estupidez, mas, com a sua licena, o senhor  um homem muito estpido! 
Aps uma breve pausa, durante a qual George Lee tentou em vo falar, Poirot acrescentou: 
--No entanto, h muitos criminosos estpidos! 
Voltou-se, em seguida, para Magdalene e prosse- guiu: 
 A senhora tambm tinha um motivo. Est, creio, endividada, e o tom de certas observaes do seu 
sogro pode t-la inquietado. Claro que no tem li- bi nenhum. Foi telefonar, mas no telefonou, e s te- 
mos a sua palavra quanto ao que fez... 
Aps nova pausa: 
-- Segue-se Mister David Lee. Ouvimos falar, re- petidas vezes, do temperamento vingativo e da longa 
memria dos Lee. Mister David Lee no perdoou nem esqueceu a maneira como o seu pai tratou a sua 
me. 
204 

Um remoque final, dirigido  memria da defunta senhora, pode ter sido a gota que fez trasbordar o clice. 
Segundo declaraes prestadas, David Lee estava a tocar piano no momento do assassnio, por 
coincidncia tratava-se da Marcha Fnebre... Mas suponhamos que era outra pessoa quem tocava a 
Marcha Fnebre, algum que sabia o que ele ia fazer e aprovava a sua aco... 
 Isso  uma insinuao indecente! -- declarou Hilda Lee, sem perder a serenidade. 
 Sugiro-lhe outra, minha senhora: foi a sua mo   que cometeu o crime. Foi a senhora que subiu l 
acima, para aplicar o castigo a um homem que considera- va indigno do perdo humano. A senhora  
daquelas 
pessoas que, colricas, podem ser terrveis... 
 No o matei -- afimou Hilda. 
 Mister Poirot tem razo -- declarou o inspector Sugden, em tom brusco, m Seria possvel incriminar 
toda a gente, excepto Mister Alfred Lee, Mister Harry Lee e Mistress Alfred Lee. 
 Nem sequer exceptuaria esses m disse, docemente, Poirot. 
 Essa agora, Mister Poirot! -- protestou o polcia. 
--Como me incriminaria a mim, Mister Poirot? -- indagou Lydia Lee. Sorria um pouco e tinha as 
sobrancelhas arqueadas, numa expresso de ironia. 
Poirot inclinou a cabea na sua direco e respon- deu-lhe: 
 No mencionarei o seu motivo, minha senhora, pois  evidente. Quanto ao resto, na noite em questo 
usava um vestido de tafet florido, de um padro pouco vulgar, com uma capa... Recordo-lhe que Tressi- 
lian, o mordomo,  curto de vista e que,  distncia, as coisas lhe parecem vagas e enevoadas. Saliento, 
ainda, que a sala  grande e iluminada por candeeiros com lmpadas veladas. Nessa noite, um ou dois 
minutos antes do barulho e do grito, Tressilian veio  sala 


2O5 




buscar as chvenas do caf e viu-a, ou pensou que a viu,   numa atitude familiar, junto da janela, meio 
oculta pelos pesados cortinados. 
--Ele viu-me -- afLmou Lydia. 
-- Sugiro a possibilidade de Tressilian ter visto a capa do seu vestido, arranjada de maneira a ver-se 
junto da janela e a dar a impresso de que a senhora l se encontrava. 
--Eu encontrava-me l. 
--Como se atreve a insinuar... -- comeou Alfred. 
--Deixa-o continuar, Alfred -- interrompeu-o Harry. -- A seguir  a nossa vez. Como lhe parece que o 
querido Alfred teria assassinado o seu amado pai, visto estamos os dois, na altura do crime, na casa de 
jantar? 
Poirot sorriu-lhe. 
--Isso  muito simples -- afimou. -- Um libi toma-se mais forte quanto maior for a relutncia com que o 
confimem. Toda a gente sabe que o senhor e o seu imo se do mal. O senhor escamece dele em p-
blico; ele nunca tem uma boa palavra para dizer em seu favor! Mas suponhamos que tudo isso fazia parte 
de um conluio inteligente; suponhamos que Alfred Lee es- tava farto de danar quando o exigente amo 
tocava; suponhamos que o senhor e ele chegaram a um entendimento, h algum tempo... Estabeleceram 
um plano, o senhor regressou a casa, Alfred Lee mostrou-se ressentido com a sua presena e no 
escondeu o seu cime nem a sua animosidade; o senhor tambm no escondeu o seu desprezo por ele. 
At que chegou a noite do assassnio to bem planeado pelos dois. Um de vocs ficou na casa de jantar, a 
falar e, talvez, a discutir em voz alta, como se l estivessem duas pessoas; o outro foi l acima e cometeu 
o crime... 
Alfred levantou-se, de repelo, e explodiu:   --Seu demnio! Seu demnio desumano... Sugden, de olhos 
fitos em Poirot, perguntou-lhe: 
--Acha realmente que... 
-- Tive de lhes mostrar as possibilidades! -- declarou o detective, com um inesperado timbre de 
autoridade na voz. -- O que expus foi o que podia ter acon- tecido! O que realmente aconteceu s o 
poderemos saber quando passamos da aparncia exterior para a realidade interior. -- Fez uma pausa e 
concluiu, lentamente: -- Temos de retroceder, como j disse vrias vezes, ao carcter do prprio Simeon 
Lee... 

VI 


Seguiu-se uma pausa momentnea. Singulamente, toda a indignao e todo o rancor se tinham 
dissipado. Hercule Poirot tinha-os a todos dominados pela atraco  da sua personalidade. Fitaram-no, 
fascinados, quando, comeou a falar, pausadamente: 
-- E a que reside tudo, o morto  o foco e o centro de todo o mistrio! Devemos sondar profundamente 
o corao e o esprito de Simeon Lee e ver o que l  encontramos, pois um homem no vive e no morre 
apenas para si. Aquilo que foi, transmite-os aos que vm depois dele... 
Que tinha Simeon Lee para legar aos filhos e  filha? Orgulho, antes de mais nada, um orgulho que o 
velho viu frustrado, na decepo que os filhos foram para ele. Depois, a virtude da pacincia. Disseram-nos 
que Simeon Lee esperou pacientemente, durante anos, uma oportunidade de se vingar de algum que lhe 
fizera uma injria. Verificmos que esse aspecto do seu temperamento foi herdado precisamente pelo que 
menos se parecia com ele, no rosto. David Lee tambm no esqueceu, tambm guardou no peito, durante 
muitos anos, o seu ressentimento. Harry Lee era o nico dos seus filhos que se parecia muito com ele, no 



206         207 
  

rosto.  uma semelhana espantosa, se examinamos o retrato de Simeon Lee, quando era novo. Encontra-
se o mesmo nariz aquilino, a mesma linha comprida e forte do queixo, a mesma inclinao da cabea para 
trs. Creio, igualmente, que Harry herdou muitos dos maneirismos do pai; por exemplo, o hbito de se rir 
com a cabea atirada para trs, e aquele outro de passar o dedo pelo queixo. 
Tendo todos estes pomenores em mente, e con- vencido como sempre estive de que o assassnio foi 
co- metido por uma pessoa estreitamente relacionada com a vtima, estudei os seus familiares do ponto de 
vista psicolgico. Quero dizer, tentei decidir quais deles eram criminosos psicologicamente possveis. 
Segundo o meu critrio, s duas pessoas se adaptaram a essa classificao: Alfred Lee e Hilda Lee, 
esposa de David. Quanto a este, rejeitei-o como possvel assassino. No creio que uma pessoa possuidora 
de uma sensibilidade delicada como a sua pudesse suportar a sangueira brutal de uma garganta cortada. 
George Lee e a mulher tambm no me serviram; fossem quais fossem os seus desejos, no me 
pareceram possuidores do temperamento necessrio para correr um risco. Pareceram-me ambos 
essencialmente cautelosos. Quanto a Mistress Alfred Lee, considerei-a incapaz de um acto de violncia; h 
excessiva ironia na sua natureza. Harry Lee, esse, causou-me certa hesitao. Aparentemente, pos- sul 
uma certa truculncia e grosseria, mas, no obstante o ar fanfarro e a bazfia, quase juraria que, no fundo, 
 um fraco. Era essa tambm, sei-o agora, a opinio do seu pai. Harry Lee, segundo as suas pr-prias 
palavras, no valia mais do que os outros. 
Restaram-me, pois, por excluso de partes, as duas pessoas que j mencionei. Alfred Lee  uma 
pessoa capaz de grande dedicao desinteressada e , tambm, um homem que durante muitos anos se 
subordinou  vontade de outro. Em semelhantes circunstncias, h sempre a possibilidade de se ficar no 
208 

estado de uma mola tensa e de se quebrar... Alm dis- so, era tambm possvel que Alfred Lee albergasse 
um ressentimento secreto contra o pai, um ressentimento que se avolumasse gradualmente, por nunca o 
ter confessado. As pessoas mais humildes e mais serenas so muitas vezes capazes de sbitas e 
inesperadas expio- ses de violncia, pois quando perdem o domnio de si mesmas, perdem-no por 
completo. 
A outra pessoa que. considerei capaz de cometer o crime foi Hilda Lee. E uma daquelas criaturas 
que, em deteminadas ocasies, fazem justia com as pr-prias mos, embora nunca inspiradas por 
motivos egostas. As pessoas assim julgam e executam. Muitas das personagens do Antigo Testamento 
pertencem a este tipo. Jael e Judite, por exemplo... 
Depois destas concluses, estudei as circunstncias inerentes ao prprio crime. O que primeiro me 
assaltou o esprito, foram as condies em que o crime foi cometido. Recordem o cenrio no meio do qual 
Simeon jazia sem vida... Lembram-se, no lembram, de verem voltadas uma cadeira e uma mesa pesadas, 
um candeeiro partido, estilhaos de porcelana e de vidro?... A cadeira e a mesa, sobretudo, causaram-me 
surpresa, pois eram de mogno macio... Custava a compreender como uma luta entre o frgil velho e o seu 
algoz pudera causar tantos estragos e derrubar tantos mveis. Tudo aquilo parecia irreal. E, contudo, 
ningum no seu perfeito juzo prepararia aquele cen-rio, se as coisas no se tivessem realmente 
passado assim; a no ser que Simeon Lee tivesse sido assassi- nado por um homem corpulento e se 
pretendesse sugerir que o atacante fora uma mulher ou algum de f-sico frgil... 
Tal ideia, porm, era deveras inconvincente, pois o barulho dos mveis a cair daria o alame e o 
assassino teria, assim, muito pouco tempo para fugir. Logicamente, seria vantaioso para qualquer 
assassino degolar Simeon Lee o mais silenciosamente possvel. 


        209 




211 


Outro pomenor extraordinrio foi o da chave girada do lado de fora... Mais uma vez, parecia no haver 
razo para tal procedimento. No se pretendia sugerir que se tratava de suicdio, pois nada naquela morte 
se coadunava com o suicdio. No se pretendia sugerir fuga pelas janelas, pois estas estavam de maneira 
que a fuga por elas era impossvel. Alm disso, havia de novo o elemento tempo, o tempo que tinha por 
fora de ser precioso para o assassino! 
Havia, ainda, outro pomenor incompreensvel: um bocado de borracha cortado do saco de borracha de 
Simeon Lee e um pequeno grampo de madeira que o inspector Sugden me mostrou e que foram apanhados 
do cho por uma das pessoas que primeiro entraram no quarto. Estas coisas tambm no faziam sentido!   
No significavam absolutamente nada! No entanto, estavam l. 
O crime, como j perceberam, tomava-se cada vez mais incompreensvel. No tinha ordem, nem m-
todo.. enfim, no era razovel! 
Mas eis que surgiu outra dificuldade. O morto chamara o inspector Sugden, comunicara-lhe um roubo 
e pedira-lhe que voltasse hora e meia depois. Porqu?   Se Simeon Lee suspeitava da neta ou de qualquer 
outro membro da sua famlia, porque no pediu ao inspector que esperasse c em baixo, enquanto ele se 
entendia com o suspeito? Com o inspector em casa, a   presso que poderia exercer sobre o culpado seria 
muito mais eficaz. 
Chegmos, pois, a um ponto em que no s o comportamento do assassino  extraordinrio, como 
tambm o da vtima! Disse, ento, para comigo: "Tudo isto est errado!" Porqu? Porque estvamos a ver o 
caso de um ngulo deficiente! Porque o vamos precisamente do ngulo que o assassino pretendera que 
vis- 
ssmos I 
Havia trs coisas que no faziam sentido: a luta, a chave girada do exterior e o bocado de borracha. 
Mas devia haver uma maneira de as ver que fizesse sentido! Decidi afastar do pensamento todas as 
circunstncias do crime e aceitar estas trs coisas pelos seus mritos prprios. Que sugeria uma luta? 
Violncia, coisas partidas, barulho... E a chave? Porque d uma pessoa volta a uma chave? Para que 
ningum entre? Mas a chave girada no impediu isso, pois a porta foi arrombada quase imediatamente. 
Para no deixar sair algum? Para no deixar entrar algum? E o retalho de borracha? "Um bocado de um 
saco de borracha  um bocado de um saco de borracha, e mais nada", disse para comigo... 
Parecer lgico pensar que estes pomenores no tinham, portanto, importncia, mas no  bem 
assim... A verdade  que deles ficaram trs impresses: barulho, segregao, nada... 
Estas trs coisas coadunam-se com qualquer dos meus dois possveis? No, no coadunam. Tanto 
para Alfred Lee como para Hilda Lee um assassnio silencioso   teria sido infinitamente prefervel; perder 
tempo a fechar a porta do lado de fora seria absurdo, e o bocadinho de borracha.. o bocadinho de borracha 
conti- nuaria a no querer dizer nada! 
E, contudo, eu tinha uma ideia muito vincada de que no havia nada de absurdo neste crime, de que, 
pelo contrrio, ele fora muito bem planeado e admira- velmente executado; de que fora, em suma, coroado 
de xito! Logo, tudo quanto acontecera fora intencional,   fora previsto... 
Recomecei do princpio e, ento, entrevi a primeira luzinha... Sangue, tanto sangue, sangue por toda a 
parte... Uma insistncia de sangue, de sangue fresco, hmido, reluzente.. tanto sangue, demasiado 
sangue... 
A esse juntou-se outro pensamento:  um crime de sangue, est no sangue. E o prprio sangue de 
Simeon Lee que se ergue contra ele... 
Hercule Poirot inclinou-se para a frente e prosse- gniu: 


   21O 



--As duas pistas mais importantes deste caso foram indicadas inconscientemente por duas pessoas 
diferentes. A primeira indicou-a Mistress Alfred Lee, ao citar uma passagem de Macbeth: Quem pensaria 
que o velho tinha tanto sangue em si? A outra foi uma frase proferida por Tressilian, o mordomo. Confessou-
me que se sentia confuso e que tinha a impresso de que sucediam constantemente coisas que j tinham 
sucedido antes. Foi uma ocorrncia assaz simples que lhe causou essa estranha impresso. Ouviu tocar a 
campainha e abriu a porta a Harry Lee, e no dia seguinte fez a mesma coisa a Stephen Farr... 
Porque teve tal impresso? Olhem para Harry Lee e para Stephen Farr e compreendero porqu. So 
espantosamente parecidos! Por isso, abrir a porta a Stephen Farr foi como abrir a porta a Harry Lee. Quase 
se poderia dizer que era o mesmo homem que se en- contrava no limiar. Ainda hoje Tressilian me disse que 
confundia constantemente as pessoas. No admira! Stephen Farr tem nariz aquilino, o hbito de atirar a 
cabea para trs, quando ri, e o tique de passar o indicador pelo queixo. Observem com ateno o retrato 
de Simeon Lee, quando era novo, e vero no apenas Harry Lee, mas tambm Stephen Farr... 
Stephen mexeu-se na cadeira, que rangeu: m Lembrem-se daquela tirada de Simeon Lee contra a sua 
famlia: juraria que tinha melhores filhos,   nasddos sem o beneplcito do casamento. L voltamos ns ao 
carcter de Simeon Lee! Simeon Lee que tinha xito com as mulheres e que despedaou o corao da 
esposa! Simeon Lee que se vangloriou a Pilar de que podia ter uma escolta de filhos quase todos da 
mesma idade! Cheguei, portanto,  concluso de que Simeon Lee tinha em casa no s a sua fam'lia 
legtima, mas 
tambm um filho do seu sangue, ilegtimo e irreconhecido.   Stephen levantou-se e Poirot perguntou-lhe: 
--Foi esta a verdadeira razo da sua vinda, no foi? Aquela bonita histria da rapariga que encontrou 
212 

no comboio foi inventada, claro. Voc vinha para c  antes de a conhecer, vinha ver que espcie de homem 
era o seu pai. 
Stephen estava lvido e foi em voz entrecortada e rouca que lhe respondeu: 
-- Sim, sempre tive curiosidade de saber... A minha me falava, s vezes, dele, e saber como ele era 
tomou-se uma espcie de obsesso para mim. Juntei dinheiro e vim a Inglaterra. No lhe diria quem era, 
fingiria ser filho do velho Eb... Vim apenas com um fim: ver o homem que era meu pai. 
--Meu Deus, como fui cego! -- exclamou o inspector Sugden, quase num mumrio. -- Por duas vezes o 
confundi com Mister Harry Lee e dei por isso, mas no me passou pela cabea... 
Voltou-se para Pilar e perguntou-lhe: 
-- Foi ele, no foi? Foi Stephen Farr que viu parado  porta do quarto? Lembro-me de que hesitou e 
olhou para ele antes de dizer que era uma mulher. Foi Farr que viu, mas no o quis denunciar. 
Seguiu-se uma pausa, que a voz profunda de Hilda Lee interrompeu: 
--No, est enganado. Foi a mim que Pilar viu. 
-- A si, minha senhora? -- perguntou-lhe, Poirot.   -- Sim, j calculava... 
-- O instinto de conservao  uma coisa singular!   -- exclamou Hilda. -- Nunca imaginei que pudesse 
ser to cobarde, que me pudesse calar s por ter medo! 
--Conta-nos o que se passou? -- pediu-lhe o detective. 
--Estava com David na sala de msica. Ele toca- va, mas encontrava-se com uma disposio muito 
estranha. Senti-me um pouco assustada e consciente da minha responsabilidade, pois fora eu que insistira 
na nossa vinda. De sbito, David comeou a tocar a Marcha Fnebre e eu decidi-me. Por estranho que 
parea, resolvi que partiramos ambos imediatamente, naquela 


213 




mesma noite. Sa da sala de msica e subi a escada, decidida a explicar a Mister Lee, sem rodeios, por 
que motivo nos amos embora. Percorri o corredor que leva ao seu quarto e bati  porta. Como no me 
respon- desse, bati de novo, com um pouco mais de fora. Continuei a no obter resposta. Experimentei a 
maaneta da porta. Estava fechada  chave. Ento, enquan- 
to hesitava, ouvi um som dentro do quarto... Calou-se, por momentos. 
--Talvez no acreditem, mas  verdade! Algum estava l dentro, a atacar Mister Lee. Ouvi mesas e 
cadeiras derrubadas, o estrondo de porcelana e vidros estilhaados e, depois, aquele horrvel grito, que se 
desvaneceu e se desfez em silncio... Fiquei paralisa- da, incapaz de me mover! De sbito, apareceu 
Mister Farr e, a seguir, Magdalene e todos os outros, e Mister Farr e Harry comearam a arrombar a porta. 
Quando o conseguiram, no estava ningum no quarto,   excepto Mister Lee, que jazia morto no meio de 
todo aquele sangue. 
Ergueu a voz, quase num gto, e concluiu: 
--No estava l ningum, compreendem? Ningum. t E ningum sara daquele quarto... 

VII 


O inspector Sugden respirou fundo e exclamou: 
--Ou estou doido, ou algum est! O que disse, Mistress Lee,  impossvel! E loucura! 
-- Repito que ouvi a luta -- afimou Hilda -- e o grito do velho, quando o degolaram, e que ningum saiu 
nem se encontrava no quarto! 
--E calou-se, durante todo este tempo? -- per- guntou-lhe Poirot. 
Plida, mas em tom fime, Hilda Lee respondeu-lhe:    
-- Calei-me porque, se dissesse o que se passou, s  podiam dizer ou pensar uma coisa: que fora eu 
quem o matara. 
-- No, a senhora no o matou -- asseverou o detective. -- Foi o filho quem o matou. 
--Juro perante Deus que no o matei! -- gritou Stephen. --No me referia a si. Ele tinha outros filhos. --
Que diabo... -- comeou Harry. 
George olhava f'Lxamente, David passou a mo pelos olhos e Alfred pestanejou duas vezes. 
-- Na primeira noite em que estive aqui m prosseguiu  Poirot --, na noite do crime, vi um fantasma:   o 
fantasma do morto. Quando vi Harry Lee pela primeira vez, fiquei intrigado, com a impresso de que j  o 
vira antes. Depois atentei nas suas feies, compreendi   como era parecido com o pai e disse para comigo 
que fora isso que me dera a impresso de j o conhecer. 
Mas ontem, um homem que estava sentado  minha frente atirou a cabea para trs e riu-se, e eu 
soube   ento, definitivamente, quem me lembrava Harry Lee.   Encontrei, de novo, noutro rosto, as feies 
do morto. No admira que o pobre Tressilian se sentisse perturbado,  pois abrira a porta no a dois, mas a 
trs homens muito parecidos! No admira que se confessasse confuso acerca das pessoas, pois 
encontravam-se nesta casa trs homens que, a pouca distncia, podiam con- fundir-se uns com os outros! 
A mesma estatura, os   mesmos gestos, sobretudo aquele tique de passar o indicador pelo queixo, o 
mesmo hbito de rir com a cabea inclinada para trs e o mesmo caractestico nariz aquilino. No entanto, 
a semelhana nem sempre era fcil de notar, pois o terceiro homem usava bigode. 
Fez uma pausa, inclinou-se para a frente e prosseguiu:    
--s vezes esquecemo-nos de que os polcias so homens, de que tm mulheres, filhos, mes -- nova 



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pausa -- e pais... Lembre-se da reputao local de Simeon Lee: despedaara o corao da esposa por 
causa das suas aventuras com outras mulheres. Um filho nascido sem o beneplcito do casamento pode 
herdar muitas coisas, como, por exemplo, as feies e, at, os tiques do pai. Pode herdar, tambm, o seu 
or- 
gulho, a sua pacincia e o seu esprito vingativo! Ergueu a voz e continuou: 
--Voc, Sugden, ressentiu-se durante toda a sua vida do mal que o seu pai lhe fez. Creio que decidira 
havia muito mat-lo. Nasceu no condado vizinho, no muito longe daqui. Sem dvida que a sua me, com o 
dinheiro que Simeon Lee lhe deu generosamente, conseguiu encontrar um marido que no se importou de 
ser pai do seu filho... Foi-lhe fcil entrar na Polcia de Middleshire e aguardar a sua oportunidade. Um 
inspector da Polcia tem grandes possibilidades de cometer um crime e ficar impune. 
-- Est doido! -- exclamou Sugden, lvido. -- Estara  fora de casa quando o mataram! 
-- No, no! Voc matou-o antes de sair de casa, a primeira vez. Ningum o viu vivo depois de voc 
sair. Foi tudo to fcil para si! Simeon Lee esperava-o, sem dvida, mas no foi ele que o chamou! O 
inspector   que lhe telefonou e lhe falou vagamente numa tentativa de roubo. Disse-lhe que o visitaria antes 
das oito horas da noite, e fingiria andar a recolher fundos para o orfanato da Polcia. Simeon Lee no 
desconfiou. No sabia que voc era seu filho. Quando chegou, contou-lhe uma histria de diamantes 
subsutudos e ele abriu o cofre, para lhe mostrar que os verdadeiros diamantes estavam em seu poder. 
Pediu-lhe desculpa, voltou com ele para junto da lareira, apanhou-o desprevenido e cortou-lhe a garganta, 
tendo o cuidado de  lhe  tapar a boca com a mo, para que no gritasse... Uma brincadeira de crianas 
para um homem com o seu corpo. 
Depois preparou o cenrio. Tirou os diamantes. 
Empilhou mesas, cadeiras e copos e passou-lhes pelo meio uma corda fina, que trouxera enrolada ao 
corpo. Trouxera tambm um frasco de sangue de algum animal acabado de matar, ao qual juntara uma 
quantidade de citrato de sdio. Espalhou esse sangue pelo quarto e deitou mais citrato de sdio na poa 
de sangue jorrado do ferimento de Simeon Lee. Deitou mais lenha no lume, para que o corpo conservasse o 
calor, passou as duas pontas da corda pela fresta da janela e deixou-as penduradas, ao longo da parede. 
Depois saiu e fechou a porta, girando a chave do lado de fora. Isto era essencial, pois convinha que no 
entrasse ningum no quarto. 
Em seguida saiu e escondeu os diamantes no tanque do terrao. Se mais cedo ou mais tarde, l 
fossem encontrados, ajudariam a tomar suspeitos quem lhe convinha: os membros da famlia legtima de 
Simeon Lee. Regressou um pouco antes das nove e um quarto e puxou a corda. Desalojados, os mveis e 
outros oh- jectos caram, com grande barulho. Enrolou de novo a corda ao corpo, debaixo do casaco e do 
colete. 
Ah, mas tinha mais uma engenhoca! -- Voltou-se para os outros e continuou: -- Lembram-se, com 
certeza, de que cada um dos senhores descreveu o grito de agonia de Mister Lee de modo diferente? O 
senhor, Mister Alfred, descreveu-o como o grito de um homem em mortal agonia; a sua esposa e David Lee 
empregaram, ambos, a expresso uma alma no Infemo, Mistress David Lee, pelo contrrio, disse que 
parecia o grito de algum que no tinha alma, um grito desumano, de uma fera. Foi Harry Lee quem se 
aproximou mais da verdade, ao dizer que se assemelhara ao grito de um porco a morrer... 
Conhecem aqueles bales compridos, cor-derosa, que se vendem nas feiras, que tm focinhos 
pintados e a que se costuma chamar "Porcos a Morrer"? Quando o ar sai, produzem uma espcie de uivo 
desumano. Foi esse o seu toque final, Sugden. Colocou um desses 



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bales no quarto, com a boca tapada com um grampo de madeira e este preso  tal corda. Quando puxou 
a corda, o grampo saiu e o "porco" comeou a esvaziar- -se. Ento, de mistura com o rebulio, ouviu-se o 
grito do "Porco a Morrer"... 
Voltou-se de novo para os outros e perguntou-lhes: k Compreendem agora o que foi que Pilar Estra- 
vados apanhou? O inspector esperara entrar no quarto antes de algum reparar no bocadito de borracha, 
mas embora no o tenha conseguido, tirou-o a Pilar sem perda de tempo e com o seu ar mais oficial... Mas 
no   mencionou esse incidente a ningum. Este facto em si j  era singulamente suspeito. Tive 
conhecimento dele por Magdalene Lee e falei no assunto ao inspector, que estava preparado para a 
eventualidade: recortara um bocado do saco de borracha de Mister Lee, e mos- trou-mo, juntamente com 
um grampo de madeira. Superficialmente, a descrio condizia: um fragmento de borracha e uma lasca de 
madeira. No significava, como ento me pareceu, absolutamente nada... Fui est-pido, pois devia ter 
raciocinado, acto contnuo: Isto no significa nada; logo, no pode l ter estado e, portanto, o inspector 
est a mentir... Em vez disso, esforcei- -me estupidamente por encontrar uma explicao. S  quando vi 
Miss Estravados brincar com um baio que rebentou e a ouvi dizer que devia ter sido um balo re- bentado 
que apanhara no quarto do av, compreendi a verdade. 
Vem agora como tudo se ajusta? A luta improv-vel, necessria para estabelecer erradamente a hora 
da morte', a porta fechada  chave, para evitar que algum encontrasse o corpo cedo de mais; o grito... O 
crime, assim, apresenta-se lgico e razovel. Mas a partir do momento em que exprimiu em voz alta a sua 
descoberta acerca do balo, Pilar Estravados transfomou-se num perigo latente para o assassino. E sea 
sua observao foi ouvida por ele, o que  possvel, pois ela falou em voz alta e clara e as janelas estavam 
todas aber- 
218 

tas, ela prpa passou a correr perigo. J lhe pregara um bom susto, ao dizer, referindo-se ao velho Mister 
Lee: "Deve ter sido muito atraente, quando era novo." E acrescentara, dirigindo-se a Sugden: como o   
senhor. Queria dizer literalmente isso mesmo, e Sug- den compreendeu-o. No admira que tivesse ficado 
corado e quase sufocado! Foi to inesperado e to perigoso! O inspector esforou-se, desde ento, por 
lanar as suspeitas sobre ela, mas a tarefa era difcil, pois   como neta do velho no tinha nenhum motivo 
para o matar; pelo contrrio. Mais tarde, ao ouvi-la revelar, no jardim, a descoberta acerca do balo, decidiu 
recorrer aos meios desesperados e amou-lhe aquela amadilha, enquanto almovamos. Felizmente, e 
quase miraculosamente, falhou... 
Aps um momento de silncio total, Sugden perguntou: 
--Quando adquiriu a certeza? 
--S a tive quando trouxe para casa um bigode postio e o coloquei no retrato de Simeon Lee. Vi, 
ento, a sua cara. 
m Que a sua alma arda no Infemo! m praguejou 
Sugden. -- No estou arrependido! 

Vil PARTE 

28 de Dezembro 

--Pilar, acho melhor que fiques connosco, at  conseguimos arranjar alguma coisa, em definitivo -- 
aconselhou Lydia. 
--  muito boa, Lydia, muito simptica -- disse a rapariga, com humildade. -- Esquece facilmente, sem 
se zangar... 
k Continuo a tratar-te por Pilar, embora saiba que o teu nome  outro -- disse Lydia, a sorrir. 


219 




--Chamo-me Conchita Lopez. 
--Conchita tambm  um nome bonito. 
-- quase boa de mais, Lydia, mas no se preo- c.upe comigo. Casarei com o Stephen e iremos para a 
Africa do Sul. 
--Isso resolve tudo muito bem! 
--J que  to amvel, Lydia, acha que, um dia, podemos voltar e ficar consigo.. talvez passar um Natal, 
com todos aqueles biscoitos, as uvas, as bolas para pr nas rvores e os bonecos de neve? 
--Com certeza, podem voltar e passar um verdadeiro Natal ingls connosco. 
--Ser maravilhoso! Sabe, Lydia, acho que, este ano, o Natal no foi nada agradvel... 
--No, no foi um Natal nada agradvel... 
II 

--Bem, Alfred, adeus -- despediu-se Harry. -- No creio que tenhas empenho em ver-me muitas vezes...  
You  para o Havai, onde sempre desejei viver, se tivesse algum dinheiro. 
--Adeus, Harry. Espero que te divirtas. Desejo-o sinceramente. 
--Desculpa ter-te irritado tanto, meu velho... -- mumurou Harry, meio envergonhado. -- Tenho um sentido 
de humor dos diabos... No resisto  tentao de irritar as pessoas... 
--Talvez eu dera aprender a aceitar as brincadeiras -- respondeu-lhe Alfred, embora com esforo. 
--Bem, adeus -- repetiu o outro, aliviado. 
III 

-- David, a Lydia e eu decidimos vender esta casa   -- disse Alfred. -- Pensei que talvez quisesses algu- 
mas das coisas da me... A sua cadeira, o tamborete... Foste sempre o seu preferido. 
David hesitou, um instante, mas depois respondeu: -- Obrigado pela ideia, Alfred, mas creio que no aceito. 
No quero nada da casa. Acho melhor romper por completo com o passado. 
--Compreendo. Talvez tenhas razo. 




IV 

--Adeus, Alfred, adeus, Lydia -- despediu-se George. -- Passmos juntos um mau bocado, e ainda falta 
o julgamento. Suponho que toda a histria se acabar por saber? Retiro-me a Sugden ser.. filho do meu 
pai. No se poderia arranjar maneira de o convencer a confessar-se comunista de ideias avanadas, que 
antipatizava com o meu pai por ser capitalista? Qualquer coisa no gnero.? 
--Meu caro George -- respondeu-lhe Lydia --, pensas sinceramente que um homem como Sugden di- a 
mentiras para poupar os nossos sentimentos? 
--Bem... talvez no. Compreendo o que queres dizer. Enfim, o tipo deve ser maluco. Bem, mais uma 
vez, adeus. 
--Adeus -- despediu-se Magdalene. -- Para o ano, vamos todos passar o Natal  Riviera ou a qual- 
quer outro lado, para nos divertimos a so! 
--Depende do cmbio -- disse George. 
--Querido, no sejas mesquinho! 


221 




V 

Alfred foi para o terrao e encontrou Lydia debruada sobre um dos tanques de pedra. A mulher endi-   
reitou-se, ao v-lo. 
--Bem, foram-se todos embora! -- exclamou Alfred, a,suspirar. 
--E verdade. Que sossego! 
--Tens razo. Vais gostar de sair daqui... 
--E to, importas-te muito? 
--No; gostarei, tambm. H tantas coisas interessantes que podemos fazer juntos! Viver aqui 
equivaleria a recordar constantemente o pesadelo. Graas a Deus, tudo acabou! 
--.Graas a Hercule Poirot -- observou Lydia. 
--E verdade! Surpreendente o modo como tudo se ajustou nos seus lugares, quando ele explicou. 
--Foi como completar um quebra-cabeas e ver todos os bocadinhos ajustarem-se muito bem, embora 
antes isso parecesse impossvel. 
--S uma coisa nunca se ajustou. Que esteve o George a fazer depois de telefonar? Porque no o 
disse? 
-- No sabes? -- perguntou-lhe a mulher, a rir. -- Eu percebi logo! Esteve a bisbilhotar nos papis da tua 
secretria! 
-- Oh, no, Lydia, ningum fada uma coisa dessas!   -- O George faa. Tem uma curiosidade tremenda 
acerca de tudo quanto se relaciona com dinheiro. Mas, claro, no ousou confessar. S se se visse em 
perigo de 
ir parar  priso se resignaria a dizer a verdade. --Ests a fazer outro jardim?   -- Estou. 
--O que , desta vez? 
--Creio que pretende ser o Jardim do Paraso. Uma nova verso, sem serpente e com um Ado e uma 
Eva de meia-idade. 
--Minha querida Lydia, como tens sido paciente 
222 

comigo, durante todos estes anos! Tens sido muito boa para mim. 
--Amo-te, Alfred, compreendes? 

VI 


--Valha-me Deus! -- exclamou o coronel Johnson. -- Estou estupefacto! -- E novamente: -- Valha- -me 
Deus! 
Recostou-se na cadeira, fitou Poirot e lamentou-se: --O meu melhor homem! Aonde vai a Polcia parar? 
-- At os polcias tm vida privada -- lembroulhe o detective. -- Sugden era um homem muito orgulhoso 
O coronel abanou a cabea e, num desabafo, ajeitou com o p os toros da lareira. 
--Sempre disse que no h nada como um bom lume de lenha -- mumurou, em voz inarticulada. 
Consciente das correntes de ar que lhe gelavam o pescoo, Hercule Poirot pensou: 
Pour moi, no me dem outra coisa seno aquecimento central! 




O Auwr e a Obra 

Agatha Christie, romancista e autora dramtica inglesa, de seu nome completo, Agatha Mary Clarissa 
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez 
os seus estudos em casa, educada por professores. 
Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na Cruz Vemelha para acompanhar o seu primeiro 
marido, o coronel Archibald Christie, de quem tomou o clebre apelido, que manteve apesar da separao 
em 1926. A sua experincia com venenos nos hospitais onde trabalhou est na origem do profundo 
conhecimento sobre a matria, utilizado em muitos dos seus romances. Foi nesta poca que escreveu A 
Primeira Investigao de Poirot (1920), com que deu incio  sua longa e brilhante carreira de escritora de 
livros poli- ciais. Coincidiu a obra com a apresentao da personagem Hercule Poirot, o detective belga que 
se tomaria quase to conhecido como a sua autora e que na resoluo dos enigmas policiais ser 
concorrente da amvel Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha Christie. 
Depois do segundo casamento, em 1930, com o arquelogo Max Mallowan, a escritora, apaixonada por 
viagens, passou a dividir o tempo entre a estruturao dos crimes e as escavaes arqueolgicas. 
Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assas- 
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sinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao longo da sua vasta obra -- mais de oitenta volumes -- 
as caractersticas que identificariam o seu estilo: a investigao racional e a psicologia; o mistrio denso e 
a variedade de personagens e ambientes; o emaranhado de indcios e a soluo imprevista. 
Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem 
s centenas de milho. No entanto, no foram s os livros policiais a proporcionar-lhe a admirao do 
pblico, pois Agatha Christie tambm  autora de peas de teatro -- refere-se A Ratoeira (1951), mantida 
em cena durante vinte e cinco anos --, histrias para crianas e romances psicolgicos publicados sob o 
pseudnimo de Mary Westmacott. 
Membro da Real Sociedade de Literatura e distinguida  com um grau honorfico em Letras, atribudo 
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de Dama do Imprio Britnico, pelo conjunto da sua 
obra. 
Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a 12 de Janeiro de 1976. 




FICO POLICIRIA DE AGATHA CHRISTIE 
TiTULO ORIGINAL         TRADUO PORTUGUESA 

Lhe Mysterious Affair at Styles Lhe Secret Adversary 
Murder on lhe Links 
Lhe Man in lhe Brown Suit Lhe Secret of Chimneys 
Poirot Investigates 
Lhe Murder of Roger Ackroyd Lhe Big Four 
Lhe Mistery of lhe Blue Train Lhe Thirteen Problems Partners in Crime 
Lhe Seven Dials Memory 
Lhe Murder at lhe Vicariage Lhe Sittaford Mistery 
Peril at End House 
Parker Pynne Investigates Lord Edgware Dies 
Lhe Hound of Death 
Murder on lhe Orient Express Why Did't Lhey Ask Evans? Lhe Mistery of Listerdale Three Act Tragedy 
Lhe ABC Murders 
Death in lhe Clouds 
Murder in Mesopotamia Cards on lhe Table 
Death on lhe Nile 
Dumb Witness 
Murder in lhe Mews Appointment with Death Hercule Poirot" s Christmas Murder is Easy 
Ten Little Niggers 

        1920         A Primeira Investigao de Poirot 
        1922         O Adversrio Secreto 
        1923         Poirot, o Golfe e o Crime 
        1924         O Homem do Fato Castanho 
        1925         O Segredo de Chimneys 
        1925         Poirot Investiga 
        1926         O Assassinato de Roger Ackroyd 
        1927         As Quatro Potncias do Mal 
        1928         O Mistrio do Comboio Azul 
        1928         Os Treze Problemas 
        1929         O Homem Que Era o N. 16 
        1929         O Mistrio dos Sete Relgios 
        1930         Encontro com Um Assassino 
        1930         O Mistrio de Sittaford 
        1931         A Diablica Casa Isolada 
        1932         Parker Pynne Investiga 
        1933         A Morte de Lord Edgware 
        1933         Testemunha de Acusao 
        1933         Um Crime no Expresso do Oriente 
        1933         Perguntem a Evans 
        1934         O Mistrio de Listerdale 
        1934         Tragdia em Trs Actos 
        1935         Os Crimes do ABC 
        1935         Morte nas Nuvens 
        1935         Assassnio na Mesopotmia 
        1936         Cartas na Mesa 
        1937         Morte no Nilo 
        1937         Poirot Perde Uma Cliente 
        1937         Crime nos Estbulos 
        1938         Morte entre as Runas 
        1938         O Natal de Poirot 
        1938         Matar  Fcil 
        1939         Convite para a Morte 

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TRADUO PORTUGUESA 




TiTULO ORIGINAL         Sad Cypess 
Lhe Regata Mistery 
Lhe Labours of Hercules 
One, Two, Buckle My Shoe 
Evil Under lhe Sun 
Nom 
Lhe Body in lhe Library 
Five Little Pigs 
Lhe Moving Finger 
Toward Zero 
Sparkling Cyanide 
Death Comes as lhe End 
Lhe Hollow 
Taken at lhe Flood 
Crooked House 
A Murder is Announced 
Lhey Came to Baghdad 
Three Blind Mice 
e (Lhe Mousetrap) Mrs McGiny' s Dead 
Lhey Do it with Mirrors 
Aser lhe Funeral 
A Pocket Full of Rye 
Destination Unknown 
Hickory, Dickory Dock 
Dead Man's Folly 
Lhe Mysterious Mr. Quin 
4.50 from Paddington 
Ordeal by Innocense 
Cat Among lhe Pigeons 
Lhe Adventure of lhe 
Christmas Pudding 
Lhe Pale Horse 
Lhe Mirror Crak'd from Side 
to Side Lhe Clocks 
A Caribbean Mistery 
At Bertram's Hotel 
Third Girl 
Endless Night 
By lhe Pricking of My Thumbs 
Hallowe'en Pary 
Passenger to Frankfurt 
Nemesis 
Elephants Can Remember 
Postem of Fate 
Poirot" s Early Cases 
Curtain. Poirot's Last Case 

Sleeping Murder 
Miss Marple's Final Cases 
        1939         Poirot Salva o Criminoso 
        1939         O Mistrio da Regata 
        1939         Os Trabalhos de Hrcules 
        1940         Os Crimes Patriticos 
        1940         As Frias de Poirot 
        1941         Tempo de Espionagem 
        1941         Um Cadver na Biblioteca 
        1941         Poirot Desvenda o Passado 
        1942         O Enigma das Cartas Annimas 
        1944         ontagem at Zero 
        1944         A Sade da... Morte 
        1945         Morrer No  o Fim 
        1946         Poirot o Teatro e a Morte 
        1948         Arrastados na Torrente 
        1948         A Ultima Razo do Crime 
        1950         Participa-se Um Crime 
        1951         Encontro em Bagdade 
        1951         A Ratoeira 

        1951         Poirot Contra a Evidncia 
        1952         Jogo de Espelhos 
        1953         Os Abutres 
        1953         Centeio Que Mata 
        1954         Destino Conhecido 
        1955         Poirot e os Erros da Dactilgrafa 
        1956         Poirot e o Jogo Macabro 
        1957         O Misterioso Mr. Quin 
        1957         O Estranho Caso da Velha Curiosa 
        1958         Cabo da Vbora 
        1959         Poirot e as Jias do Prncipe 
        1960         A Aventura do Pudim de Natal 

        1961         O Cavalo Plido 
        1962         O Espelho Quebrado 
        1963         Poirot e os 4 Relgios 
        1964         Mistrio nas Carabas 
        1965         Mistrio em Hotel de Luxo 
        1966         Poirot e a Terceira Inquilina 
        1967         Noite sem Fim 
        1968         Caminho para a Morte 
        1969         Poirot e o Encontro Juvenil 
        1970         Passageiro para Francoforte 
        1971         Nemesis 
        1972         Os Elefantes No Esquecem 
        1973         Morte Pela Porta das Traseiras 
        1974         Ninho de Vespas . 
        1975         Cai o Pano (0 Ultimo Caso de 
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Poirot) 

1976         Crime Adomecido 
1979         Os ltimos Casos de Miss Marple 
